“Querer ser livre é também querer livres os outros.” Simone de Beauvoir

.

Medo. Essa tem sido uma das palavras mais repetidas pelos meus amigos em suas timelines. Rolo a tela do celular e vejo postagens carregadas de um forte sentimento de desesperança. Textos feitos com o coração nos dedos na tentativa de causar o despertar naqueles que, sem pudor, apresentam sua predileção pelo horror. Sem falar nos diversos links de matérias sobre como o mundo avalia este momento, ignorados por vídeos torpes e montagens mal feitas no whatsapp.

Tento buscar em mim alguma força para enfrentar estes dias, mas principalmente ajudar meus amigos a não perder o brilho no olhar. Sinto-me resistente, porém ao mesmo tempo triste em presenciar tal realidade. Jamais imaginei experimentar um cenário distópico como nos filmes e, apesar de conhecer o roteiro básico destas narrativas não sei dizer como ou o que fazer nestes casos. Talvez a vida tenha extrapolado os limites.

Acompanho outras pessoas eleitoras do Bolsonaro. Sim, direi o nome dele porque a ameaça já não é mais uma sombra. É real e datada. Bolsonaro. A boca amarga quando a palavra sai, os dedos embolam, mas é preciso dizer. É preciso entender como essa criatura chegou ao lugar de destaque de modo tão avassalador.

Seu eleitorado não é homogêneo em sua composição. Nem todos são fascistas, mas todos estão tomados pelo medo. Quer dizer, todos estamos. Do lado de lá há os que temem a falta de segurança nas ruas, os que temem o diferente, as mudanças. Tem aqueles que estão cansados de tanta corrupção, especialmente as relacionadas e midiatizadas em torno do PT.

É comum em momentos de crise surgirem a figura do vilão e do mocinho. Hoje o antipetismo alimentou-se do medo e criou um novo Messias. Essa figura messiânica é bem diferente da outra. Nada de amor ao próximo, ao dar aos pobres e acolher aos aflitos. Para ele a máxima é que se dane o próximo, que se virem as minorias e viva aqueles que eles julgarem ser “de bem”.

A quantidade de pessoas com deficiência a favor do Bolsonaro é assustadora, mas resume muito bem a condição do nosso movimento no país. Somos fragmentados e presos em nossas realidades. Não nos vemos no outro. Não há representações consistentes. A maioria das pessoas com deficiência ainda não se veem como cidadãos, entendem seus direitos como favores e sua condição como penitência. Seu corpo é para ser escondido e assim vivem uma vida de lamentações e ausência total de amor próprio.

Claro que temos diversas outras realidades que atravessam esse cenário, a falta de educação de qualidade desde o ensino infantil, a falta de socialização, o super protecionismo familiar e a ausência de infraestrutura arquitetônica e sociais contribuem para essa apatia de muitos.

Porém, como disse, eleitores do Bolsonaro não são homogêneos. E considero de suma importância fazer esta distinção, pois se defendemos a diversidade devemos aprender a enxergá-a no próximo também. Principalmente se este possuir ideias diferentes. Se queremos e precisamos lutar pela nossa democracia, precisamos estar dispostos a enfrentar o embate de ideias.

Contudo, há uma diferença entre ser ingênuo e agir com sabedoria. Ser ingênuo é considerar que devemos tentar conversar com quem não está interessado em ouvir. É perder tempo com aquele colega fascista que tem prazer em falar mal de minorias.

Agir sabiamente é observar com quem estamos relacionando, tentar identificar o que motiva as ideias daquela pessoa tão diferente de você. É saber a hora de não dizer nada. Às vezes, por mais que doa admitir, existem aqueles que apoiam esse candidato por gostar das ideias dele.

Dói demais quando descobrimos alguém bacana apoiando e fazendo campanha para Bolsonaro. A gente perde a admiração, há um lamento miúdo e uma decepção única. É como se vivêssemos o bolsoluto.

Primeiro nos tiraram a alegria e nos deram medo. Acredito que nesse momento perdemos bem mais que as eleições porque perdemos a empatia. Tiraram a capacidade de se importar com o outro e deram o egoísmo. Aquele estado de “tudo bem ele ser (insira aqui algum preconceito), pelo menos vai (insira aqui alguma fake news).

Entretanto, não é mais tempo de luto. É tempo de resistir. Seja qual for o resultado do segundo turno precisaremos agir em conjunto, alinhados com um mesmo pensamento de mudança e preservação dos nossos direitos.

Encontre seus amigos, renove suas energias, cuide de sua saúde mental, de sua integridade física e se prepare. Podem nos chamar de minorias, mas juntos somos muito mais fortes.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Colunista NINJA

HIV, prevenção, cura e políticas públicas: uma jornada a ser trilhada

Daniel Zen

Pequenos movimentos sociais de novo tipo

Anielle Franco

Anielle Franco: A luta continua

Jean Wyllys

Jean Wyllys: Suas ideias continuarão vivas

Dríade Aguiar

Mamãe da Putaria

Gabinetona

Uma carta para Marielle

Benedita da Silva

Benedita da Silva: Quem mandou matar Marielle Franco?

Renata Mielli

Renata Mieli: A morte de Marielle Franco, o discurso de ódio e a desinformação

Maria do Rosário

Maria do Rosário: Quem mandou matar Marielle Franco?

Daniel Zen

A Reforma da Previdência de Bolsonaro

Macaé Evaristo

Macaé Evaristo: Levante por Marielle

Raull Santiago

Raull Santiago: Um ano

Joana Mortagua

Joana Mortágua: O país que Marielle voltará a pisar

Daniel Zen

Daniel Zen: Julgamento honesto e eficaz para Marielle

Liana Cirne Lins

Discutir porte de armas em meio à tragédia não é palanque; é responsabilidade