Moda expressa a identidade cultural na Copa do Mundo
O Mundial 2026 transformou a moda em ferramenta de afirmação da ancestralidade e pertencimento para os atletas
Por Yasmim Lima – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A roupa nunca foi neutra no futebol. Um terno, uma camisa aberta, um colar chamativo, tudo isso sempre comunica algo sobre quem joga, mesmo antes de virar assunto de coluna de moda. O que mudou nas últimas décadas foi a escala: um look nas redes sociais ou em um vídeo saindo do hotel de concentração viaja o mundo em minutos, muito antes de o jogador entrar em campo. Essa vitrine gigantesca criou espaço para duas coisas acontecerem ao mesmo tempo, e às vezes na mesma pessoa: a moda como exibição de grife e status, e a moda como forma de reafirmar de onde se vem. O Mundial de 2026, disputado por uma geração de atletas que nasceu entre fronteiras, colocou essa segunda função em evidência como nenhum outro antes.
Quando o estilo pessoal encontra as raízes
O Mundial 2026 revelou uma camada da moda no futebol talvez mais profunda do que a busca por estilo: a moda como ferramenta de expressão das raízes culturais. Muitos atletas incorporam ao visual peças, referências e códigos que valorizam a ancestralidade, o país de origem e a cultura de suas comunidades.

Fora do estilo pessoal, a moda também virou ferramenta para marcas contarem essas histórias. Cada vez mais, patrocinadores esportivos entenderam que vestir uma seleção não é só sobre performance ou venda de camisa: é também sobre assumir, de alguma forma, a identidade daquele país. Marcas grandes têm chamado designers locais, artesãos e referências da cultura popular para desenvolver peças que carregam a história de cada nação, em vez de aplicar a mesma fórmula visual para todo mundo.
No México, a Adidas lançou a coleção nomeada “Comienza con el Sueño“, assinada pelo designer mexicano-americano Willy Chavarria, o desfile de estreia dessa coleção aconteceu em Paris, na França, durante a Semana de Moda Masculina (Paris Fashion Week). A linha, pensada para fora de campo, reúne camisetas, agasalhos, camisas estilo rúgbi (com gola polo e listras horizontais largas, herança do uniforme tradicional do esporte) e shorts alongados, com as silhuetas oversized e a linguagem gráfica que são a marca registrada do artista, resgatando diferentes eras da história do futebol mexicano. É uma coleção pensada para quem vive a Copa nas arquibancadas e nas ruas, uma extensão da pesquisa que Chavarria já vinha fazendo sobre identidade mexicano-americana, agora aplicada no maior palco do futebol mundial.
“Para mim, era importante destacar o lugar onde os sonhos nascem e são cultivados para as crianças do dia a dia. O futebol já revelou atletas de todas as origens, por ser um esporte relativamente acessível em comparação a outros. Sabemos que, para a maioria das crianças marginalizadas, o campo do bairro – que muitas vezes pode ser um parque público ou uma rua vazia – é o palco onde elas nutrem esses grandes sonhos com o apoio de seus vizinhos. Os treinadores da escola, os jovens mais velhos, os tios e tias que incluem as crianças em seus jogos e dão dicas – todas essas pessoas da comunidade enxergam a luz que esses sonhos trazem para as crianças e contribuem para mantê-los vivos.”, disse Chavarría para a Athleta Magazine.

Do coletivo ao individual: quando o estilo vira assinatura
Essa mesma lógica, usar a moda para dizer algo sobre si, aparece também no estilo pessoal dos jogadores mais comentados do momento. Nem sempre a motivação é a ancestralidade. Pode ser personalidade ou mesmo sobre o status. Mas o resultado é marcante: Vinícius Júnior, Kylian Mbappé, Jude Bellingham, Endrick e Bukayo Saka têm estilos tão reconhecíveis quanto seus dribles. E, por trás de alguns desses visuais, existe trabalho profissional de construção de imagem.
A espanhola Ana Sotillo é um dos nomes mais comentados quando o assunto é a intersecção entre futebol e moda de alto nível. Ela é a responsável por montar os looks de Vinícius Júnior e Lamine Yamal, e sua linguagem visual mistura peças oversized, referências dos anos 2000 e alfaiataria desconstruída com influência da cultura urbana.
“Os atletas buscam usar a moda para espelhar seu dinamismo, misturando a cultura das ruas com peças exclusivas de alta-costura para comunicar suas personalidades”, disse a estilista Ana Sotillo em entrevista à revista Forbes España, em 2024.

No caso de Vinicius, Sotillo investe em tonalidades marcantes e modelagens fluidas, explorando a faceta mais audaciosa do jogador. Já com Yamal, a prioridade é preservar a ligação com a cultura streetwear e suas origens, mesclando a alta-costura à realidade urbana. Os visuais devem espelhar quem o atleta é, não apenas o que a marca quer vender.
Esse cuidado com a narrativa por trás de cada look é o que separa um jogador estiloso de um ícone de moda. Qualquer um pode comprar uma peça cara. Poucos conseguem transformar uma combinação de roupas em extensão de identidade, algo que as pessoas reconhecem antes mesmo de ler o nome na camisa.
Os estilos que estão ditando tendência agora
Dentro desse universo, cada jogador ocupa um território visual bem definido. Vinícius Júnior é referência no streetwear de luxo, com conjuntos coordenados, jaquetas marcantes e acessórios de peso.
Jude Bellingham segue o caminho oposto: minimalismo e elegância discreta, o chamado quiet luxury (caracterizada por peças de alta qualidade, design minimalista e ausência de logotipos chamativos), onde a ausência de ostentação tem o efeito totalmente contrário. Bukayo Saka representa uma geração moldada pela cultura digital, apostando em tamanhos oversized e paletas de cores suaves que falam diretamente com a Geração Z. Já Jules Koundé encarna o oposto da timidez: o francês chegou a concentrações e eventos de saia plissada, botas de salto alto e óculos conceituais, quebrando barreiras de gênero na moda masculina e virando, para muita gente, o novo rei do estilo dentro do futebol.

Endrick é outro exemplo que carrega uma estética que equilibra elegância e esporte, algo típico de quem cresceu vendo o futebol e a moda se aproximarem ao mesmo tempo. O atacante brasileiro revelou que não repete roupas em aparições públicas, incluindo peças de grife que podem chegar a R$100 mil. Não é exibicionismo pelo exibicionismo: é uma declaração de que cada aparição importa, que cada imagem registrada faz parte de algo maior.
Vini Jr.
Conjuntos coordenados, jaquetas marcantes, acessórios de peso. O brasileiro é uma das maiores referências do streetwear contemporâneo.

Kylian Mbappé
Embaixador global da Dior, Mbappé equilibra formalidade e frescor com maestria. Peças de alfaiataria combinadas a um visual streetwear moderno são sua assinatura, e o francês foi escolhido por Jonathan Anderson como o rosto da nova era da grife justamente por representar, nas palavras do designer, a voz de uma geração.

Jude Bellingham
Minimalismo e elegância discreta. O meia inglês foge dos looks chamativos e aposta no poder do menos. Além de ser embaixador da Louis Vuitton.

Endrick
Ele equilibra elegância, jovialidade e espírito esportivo com naturalidade e revelou um hábito curioso: nunca repete looks em eventos. Mesmo peças de grife que chegam a R$ 100 mil são usadas uma única vez e depois saem de cena, dando lugar a novas combinações.

Jules Koundé
Entre alfaiataria e referências vintage, o francês faz da moda uma extensão da própria personalidade. Em entrevista ao Barcelona, reproduzida pela Placar, Koundé afirmou que a forma de se vestir é uma maneira de expressar quem ele é fora dos gramados.

Erling Haaland
Conjuntos de seda coloridos, estampas de leopardo e pijamas de luxo usados em restaurantes e eventos. O norueguês não tem medo de usar cores e gastar com itens de grife; o noruegues chama atenção pela sua coleção de bolsas da Hermés.
“Acho que, durante muito tempo, foi imposto às pessoas o que elas podiam ou não vestir, mas está havendo uma mudança. Agora, elas dizem: ‘Não me importo’”, afirmou o estilista Jack Savoie em um vídeo de seu perfil no TikTok.

No caso de Haaland, porém, o que mais rendeu assunto foi outra coisa: sua coleção de bolsas Hermès, incluindo modelos raros da linha Haut à Courroies (a “HAC”, irmã mais antiga da clássica Birkin), avaliada em mais de 300 mil dólares.
Fotógrafos passaram a flagrar o atacante norueguês desembarcando em cidades-sede carregando peças como a HAC Birkin 50 “Endless Road”, estampada com uma paisagem de montanha, ou a Kelly Dépêches, versão mais compacta e “masculina” do universo Kelly.
O jogador é visto modelos grandes de viagem aos da marca menores e mais tradicionais, o que combina com seu porte físico e sua rotina de deslocamentos constantes. O acessório, historicamente lido como símbolo de luxo feminino, ganhou nova leitura ao aparecer no braço de um dos artilheiros do torneio.
A postura é também uma afirmação de identidade: cada aparição pública é uma oportunidade de comunicar algo novo.
O que esses atletas têm em comum?
O que une esses exemplos, dos looks assinados por Ana Sotillo à coleção de Willy Chavarria, é a consciência de que a moda é uma extensão de quem são. Não um uniforme de fora de campo, mas uma linguagem, seja ela sobre personalidade e status, seja sobre de que litoral vieram os avós que o jogador escolheu representar, ou de que bairro vem a estética que ele carrega para fora de campo. E essa linguagem, cada vez mais, é levada tão a sério quanto qualquer jogada ensaiada.
Mas toda linguagem de identidade também é, no fundo, uma linguagem política, e o futebol não escapa disso: nem toda tentativa de transformar moda em posicionamento passa pelos critérios da FIFA. A entidade mantém, no regulamento deste Mundial, a proibição expressa de mensagens ou símbolos políticos, religiosos ou pessoais em uniformes e vestimentas oficiais, e o Haiti sentiu isso de perto: dias antes da estreia da seleção, a entidade exigiu a retirada de um elemento visual do novo uniforme que fazia referência à Batalha de Vertières, confronto decisivo para a independência do país em 1804, classificando a ilustração como manifestação política. O episódio ecoa casos de edições anteriores, como a braçadeira “OneLove” barrada no Catar em 2022, usada por capitães em apoio à comunidade LGBTQIA+, e a multa aplicada à Sérvia no mesmo torneio por uma bandeira com o mapa do Kosovo estampado em cores nacionalistas. É um lembrete de que, por mais que a moda funcione como linguagem de identidade dentro do Mundial, ela também esbarra nos limites que o próprio torneio impõe: a linha entre celebrar a própria história através da roupa e romper a regra da neutralidade, para a FIFA, pode ser bem mais estreita do que gostaríamos.




