Por Rodrigo Marques – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

No dia 9 de julho de 2006, a Itália voltou ao topo do futebol mundial ao derrotar a França nos pênaltis, no Estádio Olímpico de Berlim, e conquistar sua quarta Copa do Mundo. A imagem de Fabio Cannavaro erguendo a taça tornou-se um dos símbolos mais marcantes da história da Azzurra. Duas décadas depois, porém, aquele momento é lembrado não apenas pela conquista esportiva, mas também por representar o último grande capítulo de uma geração considerada uma das mais talentosas do futebol italiano.

O contraste com o presente ajuda a dimensionar o tamanho daquele feito. Desde o título na Alemanha, a Itália não voltou a disputar uma fase eliminatória de Copa do Mundo. Foi eliminada ainda na fase de grupos em 2010 e 2014 e, em um choque para uma das seleções mais tradicionais do planeta, sequer conseguiu se classificar para os Mundiais de 2018, 2022 e 2026. O tetra, que parecia inaugurar um novo ciclo de domínio, acabou marcando o encerramento de uma era. Mas, antes da consagração, havia desconfiança.

O país mergulhado na maior crise do futebol italiano

Poucas seleções chegaram a uma Copa do Mundo sob tanta pressão quanto a Itália em 2006. Menos de dois meses antes do início do torneio, o futebol italiano foi abalado pelo Calciopoli, escândalo de manipulação de resultados e influência sobre a arbitragem que expôs uma rede de dirigentes, árbitros e cartolas. As investigações tiveram como principal alvo a Juventus, mas envolveram também dirigentes de Milan, Fiorentina, Lazio e Reggina, desencadeando uma das maiores crises institucionais da história do esporte no país.

O escândalo monopolizava os noticiários italianos enquanto a seleção iniciava sua preparação para o Mundial. Cinco titulares da Azzurra pertenciam justamente à Juventus — Gianluigi Buffon, Fabio Cannavaro, Gianluca Zambrotta, Mauro Camoranesi e Alessandro Del Piero —, clube que meses depois seria rebaixado para a Série B como punição esportiva.

O ambiente era tão negativo que muitos analistas internacionais apontavam a Itália como uma equipe emocionalmente abalada antes mesmo da estreia. Jornais como o britânico The Guardian descreviam a delegação como uma seleção que tentava escapar da sombra da corrupção, enquanto veículos italianos relatavam um clima de profunda desilusão entre os torcedores.

Anos depois, um dos campeões resumiria aquele sentimento de forma emblemática: “Partimos sem praticamente ninguém para nos despedir. Havia quem dissesse que nem deveríamos disputar a Copa por causa do Calciopoli. Voltamos com milhões de pessoas esperando por nós“. A frase sintetiza a transformação vivida pela equipe ao longo de pouco mais de um mês.

Marcello Lippi blindou um elenco experiente

O técnico Marcello Lippi conhecia boa parte daquele grupo desde a Juventus e apostou na experiência para enfrentar o ambiente de crise.

Mais do que uma equipe repleta de estrelas, a Itália possuía um elenco extremamente equilibrado. Gianluigi Buffon vivia o auge da carreira no gol. Fabio Cannavaro comandava uma defesa considerada praticamente intransponível ao lado de Marco Materazzi, Alessandro Nesta e Gianluca Zambrotta. No meio-campo, Andrea Pirlo conduzia o jogo com elegância, enquanto Gennaro Gattuso oferecia intensidade e marcação. Francesco Totti, recuperado de uma grave lesão sofrida meses antes da Copa, atuava como referência criativa, cercado por atacantes de estilos variados, como Luca Toni, Vincenzo Iaquinta, Alberto Gilardino, Filippo Inzaghi e Alessandro Del Piero.

Lippi também ficou marcado pela capacidade de administrar o elenco. Diferentemente de outras seleções que dependiam de um ou dois protagonistas, praticamente todos os jogadores convocados participaram da campanha. A rotatividade preservou o grupo fisicamente e criou uma atmosfera de confiança coletiva que se mostraria decisiva nas fases eliminatórias.

Outro diferencial estava na consistência defensiva. A Itália sofreu apenas dois gols durante todo o Mundial: um pênalti convertido por Zinedine Zidane na final e um gol contra de Cristian Zaccardo ainda na fase de grupos. Nenhum adversário conseguiu marcar contra Buffon com a bola rolando durante os sete jogos da campanha — um feito que permanece entre os maiores desempenhos defensivos da história das Copas do Mundo.

Uma campanha construída sem alarde

A caminhada começou no Grupo E, ao lado de Gana, Estados Unidos e República Tcheca. Na estreia, a Itália venceu Gana por 2 a 0, controlando a partida do início ao fim. Andrea Pirlo abriu o placar com um chute preciso de fora da área, enquanto Vincenzo Iaquinta aproveitou um erro da defesa africana para fechar o resultado.

O segundo compromisso foi mais turbulento. Contra os Estados Unidos, a partida terminou empatada por 1 a 1 em um jogo marcado por expulsões, forte disputa física e muita tensão. Daniele De Rossi recebeu cartão vermelho após acertar uma cotovelada em Brian McBride e acabou suspenso por quatro partidas pela FIFA. O episódio gerou forte repercussão internacional, levando o próprio volante italiano a pedir desculpas publicamente ao adversário.

A classificação foi confirmada na última rodada, com vitória por 2 a 0 sobre a República Tcheca. Marco Materazzi substituiu Alessandro Nesta, lesionado, e marcou um dos gols da partida. A lesão de Nesta, considerado um dos melhores zagueiros do mundo naquele momento, parecia representar um duro golpe para a Azzurra. No entanto, a entrada definitiva de Materazzi acabaria formando, ao lado de Cannavaro, uma das duplas defensivas mais eficientes da história das Copas.

A Itália encerrava a primeira fase invicta, líder do grupo e, sobretudo, emocionalmente fortalecida. Aos poucos, a equipe deixava para trás o peso do Calciopoli e passava a ser reconhecida pela organização tática, pela solidez defensiva e pela capacidade de competir em jogos equilibrados. As maiores provas, porém, ainda estavam por vir.

O mata-mata que transformou a Itália em favorita

Se a fase de grupos serviu para devolver confiança ao elenco italiano, foi o mata-mata que consolidou a equipe de Marcello Lippi como a seleção mais consistente daquela Copa do Mundo.

Nas oitavas de final, a Azzurra encontrou uma Austrália organizada pelo técnico Guus Hiddink, que dificultou ao máximo a vida dos italianos. O jogo ganhou contornos dramáticos aos cinco minutos do segundo tempo, quando Marco Materazzi foi expulso após derrubar Mark Bresciano, deixando a Itália com um jogador a menos durante praticamente toda a etapa final.

Mesmo em inferioridade numérica, a equipe mostrou uma das características que marcariam sua campanha: disciplina tática, capacidade de sofrer sem perder a organização e confiança para decidir nos momentos mais difíceis.

Quando a prorrogação parecia inevitável, Fabio Grosso invadiu a área nos acréscimos e caiu após disputa com Lucas Neill. O árbitro espanhol Luis Medina Cantalejo marcou pênalti, decisão que até hoje divide opiniões. Enquanto australianos classificam o lance como uma simulação, muitos italianos sustentam que houve contato suficiente para justificar a marcação.

Francesco Totti, que havia retornado de uma grave fratura no tornozelo apenas três meses antes do Mundial, assumiu a responsabilidade. Aos 50 minutos do segundo tempo, converteu a cobrança com tranquilidade e garantiu a classificação por 1 a 0.

“Foi o pênalti mais importante da minha carreira”, recordaria o camisa 10 anos depois.

Ucrânia confirma o crescimento da Azzurra

Nas quartas de final, a Itália encontrou uma das grandes surpresas daquele Mundial: a Ucrânia de Andriy Shevchenko, então vencedor da Bola de Ouro e um dos atacantes mais respeitados do planeta.

Diferentemente do confronto anterior, a classificação veio com autoridade. Gianluca Zambrotta abriu o placar ainda no primeiro tempo, aproveitando sobra na entrada da área. Na etapa final, Luca Toni marcou duas vezes, ambas em jogadas construídas por Francesco Totti e Gianluca Zambrotta, selando a vitória por 3 a 0.

Embora o placar sugerisse amplo domínio, Buffon voltou a ser decisivo ao impedir que Shevchenko diminuísse a vantagem italiana em momentos importantes da partida. A defesa seguia como principal marca daquela equipe. Até aquele momento, a Itália havia sofrido apenas um gol em cinco jogos, e ainda assim contra, marcado por Cristian Zaccardo no empate com os Estados Unidos.

O sistema defensivo montado por Lippi começava a ser apontado pela imprensa europeia como um dos melhores vistos em uma Copa do Mundo desde a seleção brasileira de 1994. Enquanto Buffon transmitia segurança no gol, Cannavaro vivia o auge técnico da carreira, antecipando jogadas, vencendo disputas aéreas e liderando uma linha defensiva praticamente impecável.

Ao mesmo tempo, Andrea Pirlo consolidava seu protagonismo. Atuando como organizador recuado, o camisa 21 comandava o ritmo da equipe com uma precisão de passes que impressionava analistas internacionais. A revista francesa France Football descreveu sua atuação naquele Mundial como “uma aula permanente de inteligência posicional”, enquanto a imprensa italiana passou a tratá-lo como o verdadeiro cérebro daquela seleção.

Dortmund: a noite que entrou para a história

O maior desafio da campanha veio na semifinal. A Alemanha, anfitriã da Copa, chegava embalada por uma campanha convincente e pela força de jogar diante de mais de 60 mil torcedores no Westfalenstadion, em Dortmund. A equipe comandada por Jürgen Klinsmann havia recuperado o entusiasmo do futebol alemão após anos de resultados modestos e contava com uma geração em ascensão liderada por Miroslav Klose, Michael Ballack, Philipp Lahm e o jovem Bastian Schweinsteiger.

A atmosfera era de decisão antecipada. Durante 90 minutos, as duas seleções protagonizaram um confronto extremamente equilibrado, marcado por intensidade física, disciplina tática e poucas oportunidades claras. Buffon e Jens Lehmann fizeram intervenções importantes, enquanto Cannavaro teve uma atuação considerada por muitos especialistas como a melhor de toda a sua carreira.

Já na prorrogação, quando a disputa por pênaltis parecia inevitável, Andrea Pirlo recebeu a bola cercado por marcadores na entrada da área. Em vez de finalizar, encontrou um espaço mínimo para tocar de primeira para Fabio Grosso. O lateral esquerdo dominou e bateu colocado, de curva, no canto de Lehmann. Aos 119 minutos, a bola beijou a trave antes de entrar.

Grosso saiu correndo sem rumo pelo gramado, gritando de emoção, enquanto narradores italianos eternizavam o momento com o histórico “Non ci posso credere!” (“Eu não consigo acreditar!”).

Ainda havia tempo para mais.

Com a Alemanha completamente lançada ao ataque, Pirlo iniciou um contra-ataque perfeito e encontrou Alessandro Del Piero entrando livre pela esquerda. O atacante da Juventus finalizou no ângulo, decretando o 2 a 0 que silenciou Dortmund.

Aquela vitória foi tratada pela imprensa italiana como uma das maiores atuações da história da seleção. O jornal La Gazzetta dello Sport estampou na capa do dia seguinte que “a Itália havia jogado a partida perfeita”. Já o Corriere della Sera classificou a atuação como uma demonstração de maturidade, coragem e inteligência coletiva.

Cannavaro terminou a noite consagrado mundialmente. Sua exibição diante dos alemães seria determinante para que, meses depois, se tornasse o primeiro defensor em dez anos a conquistar a Bola de Ouro da France Football e também o prêmio de Melhor Jogador do Mundo da FIFA.

Restava apenas um obstáculo. Do outro lado estava a França de Zinedine Zidane, que havia eliminado Espanha, Brasil e Portugal em sequência e chegava à decisão impulsionada pelo talento de um dos maiores jogadores da história do futebol.

Berlim colocaria frente a frente duas das seleções mais tradicionais do planeta, e escreveria um dos capítulos mais inesquecíveis da história das Copas do Mundo.

Berlim, 9 de julho de 2006: a final que entrou para a história

A Copa do Mundo da Alemanha chegava ao fim com uma decisão carregada de simbolismos. De um lado, a Itália buscava recuperar a credibilidade de um futebol mergulhado na crise do Calciopoli. Do outro, a França vivia a despedida internacional de Zinedine Zidane, campeão mundial em 1998 e considerado um dos maiores jogadores da história.

Os franceses chegavam embalados por uma campanha impressionante. Depois de uma primeira fase irregular, eliminaram a Espanha, superaram o Brasil de Ronaldinho nas quartas de final, em uma atuação memorável de Zidane, e derrotaram Portugal na semifinal.

A Itália, por sua vez, carregava o peso de uma campanha impecável defensivamente e de uma classificação heroica diante da Alemanha. O equilíbrio entre as duas seleções fazia daquela decisão uma das finais mais aguardadas dos últimos anos.

Mais de 69 mil torcedores lotaram o Estádio Olímpico de Berlim naquela noite.

Zidane abre o placar com uma cobrança histórica

A partida começou em ritmo intenso. Logo aos sete minutos, Florent Malouda invadiu a área italiana e caiu após disputa com Marco Materazzi. O árbitro argentino Horacio Elizondo assinalou pênalti.

Na cobrança, Zidane escolheu a ousadia. Em vez de um chute forte, executou uma cavadinha, a famosa Panenka, que tocou o travessão antes de quicar alguns centímetros além da linha do gol.

Foi um dos pênaltis mais emblemáticos da história das Copas do Mundo. A imagem da bola beijando o travessão antes de entrar tornou-se instantaneamente um clássico do futebol mundial.

Seis minutos depois, porém, o mesmo Materazzi que havia cometido o pênalti apareceu para mudar completamente o roteiro.

A redenção de Materazzi

Andrea Pirlo cobrou escanteio da direita. Materazzi venceu Patrick Vieira pelo alto e cabeceou com força para empatar a partida. O zagueiro transformava em redenção um início de jogo que parecia desastroso.

Pouco depois, Luca Toni acertou o travessão em outra jogada aérea criada por Pirlo, enquanto Buffon seguia transmitindo segurança do outro lado do campo.

O segundo tempo foi mais equilibrado. A França teve maior controle da posse de bola, explorando a inteligência de Zidane na construção das jogadas. A Itália respondeu apostando na intensidade de Gattuso, na qualidade dos lançamentos de Pirlo e na disciplina defensiva que havia caracterizado toda a campanha.

Nem mesmo as alterações promovidas pelos dois treinadores foram suficientes para romper o empate. Pela segunda Copa consecutiva, a decisão do título iria para a prorrogação.

A defesa que poderia ter mudado tudo

Aos 104 minutos, a França esteve muito perto de conquistar o bicampeonato. Sagnol cruzou da direita e encontrou Zidane completamente livre dentro da área. O camisa 10 francês cabeceou com força, direcionando a bola para baixo, exatamente como manda o manual do atacante.

Buffon, em um reflexo extraordinário, conseguiu espalmar por cima do travessão. A intervenção passou a ser considerada por diversos especialistas uma das maiores defesas da história das finais de Copa do Mundo.

Anos depois, Buffon diria que aquele foi um dos instantes em que percebeu que “o destino talvez estivesse vestido de azul”.

A cabeçada que mudou para sempre a despedida de Zidane

Cinco minutos depois da defesa de Buffon, aconteceu o episódio mais famoso daquela decisão.

Enquanto acompanhavam uma jogada distante da bola, Zidane e Materazzi trocaram provocações. O zagueiro italiano puxou a camisa do francês. Segundo o próprio Materazzi contaria posteriormente, Zidane respondeu perguntando se ele queria sua camisa após o jogo. A resposta italiana entrou para a história: “Prefiro a sua irmã.”

Materazzi sempre sustentou essa versão dos acontecimentos, enquanto Zidane jamais revelou exatamente o conteúdo da conversa, limitando-se a admitir que foi provocado de maneira intensa.

Instantes depois, o francês caminhou alguns passos, virou-se e acertou uma forte cabeçada no peito do defensor italiano. Materazzi caiu imediatamente no gramado.

Inicialmente, Horacio Elizondo não percebeu o ocorrido. Após consultar o quarto árbitro, Luis Medina Cantalejo, por meio do sistema de comunicação, mostrou cartão vermelho para Zidane. Era uma cena impensável. Na última partida de sua carreira profissional, um dos maiores jogadores da história deixava o campo expulso.

Ao caminhar em direção ao túnel, passou a poucos centímetros da taça da Copa do Mundo sem sequer olhar para ela. A fotografia daquele momento tornou-se uma das imagens mais icônicas do esporte no século XXI.

Foto: ROBERTO SCHMIDT / AFP via Getty Images

Anos depois, Zidane assumiria a responsabilidade pelo gesto: “Peço desculpas às crianças que assistiram àquilo. Não posso justificar o que fiz”. Ao mesmo tempo, afirmou que jamais se arrependeu completamente, argumentando que aceitar a provocação em silêncio significaria “dar razão” ao adversário.

O desfecho nos pênaltis

Sem Zidane, a França perdeu seu principal cobrador e líder técnico.

A decisão foi para os pênaltis. Andrea Pirlo, Marco Materazzi, Daniele De Rossi e Alessandro Del Piero converteram suas cobranças pela Itália. Pela França, Sylvain Wiltord, Éric Abidal e Willy Sagnol marcaram.

Então, veio o momento decisivo. David Trezeguet, autor do gol de ouro que derrotara justamente a Itália na final da Eurocopa de 2000, acertou o travessão. A bola quicou sobre a linha e voltou para fora. Era a única cobrança desperdiçada da série. Fabio Grosso caminhou lentamente até a marca da cal. O lateral esquerdo, que já havia decidido a semifinal contra a Alemanha, bateu firme no canto esquerdo de Fabien Barthez. A bola balançou a rede, e a Itália era campeã do mundo pela quarta vez.

Cannavaro ergueu o troféu sob aplausos de mais de 69 mil pessoas em Berlim, encerrando uma campanha que muitos jornalistas europeus classificariam como uma das mais resilientes da história das Copas.

No dia seguinte, a consagração individual veio rapidamente. Zinedine Zidane recebeu a Bola de Ouro da Copa do Mundo como melhor jogador do torneio, apesar da expulsão. Andrea Pirlo foi eleito o melhor jogador da final.

Poucos meses depois, Fabio Cannavaro conquistaria a Bola de Ouro da France Football e o prêmio de Melhor Jogador do Mundo da FIFA, tornando-se o primeiro defensor desde Matthias Sammer, em 1996, a dominar as duas principais premiações individuais do futebol mundial.

Aquele grupo havia transformado um país desacreditado em campeão do mundo. Mas ninguém imaginava que aquela noite em Berlim também marcaria o último grande momento da Azzurra no cenário internacional.

O último verão de uma geração inesquecível

A festa em Roma foi tão grandiosa quanto inesperada. Milhões de italianos ocuparam as ruas da capital para receber os campeões do mundo. O desfile em carro aberto terminou no Circo Massimo, onde jogadores e comissão técnica foram recebidos como heróis nacionais. Poucas semanas antes, o país estava dividido pelo Calciopoli; agora, celebrava uma conquista que devolvia orgulho a uma nação traumatizada pelo maior escândalo de sua história no futebol. Para muitos daqueles jogadores, entretanto, aquela seria a última vez em que estariam todos reunidos.

Anos depois, Fabio Cannavaro admitiu carregar um arrependimento: “Depois da festa no Circo Massimo, voltamos ao hotel, nos despedimos e cada um seguiu sua vida. Como capitão, eu deveria ter reunido aquele grupo mais vezes.”

Luca Toni fez uma constatação semelhante em entrevista recente: “Os campeões de 1982 permaneceram muito mais unidos do que nós.”

A última grande reunião da geração de 2006 aconteceu quase duas décadas depois, em uma festa organizada para homenagear Marcello Lippi. O reencontro reforçou a percepção de que aquele elenco havia compartilhado um momento irrepetível da história do futebol italiano.

De campeões do mundo ao maior jejum da história da Azzurra

O tetra parecia representar o início de uma nova era de protagonismo internacional. A realidade foi exatamente o oposto.

Na África do Sul, em 2010, a Itália chegou como atual campeã do mundo e deixou o torneio ainda na fase de grupos, sem vencer uma única partida. Empatou com Paraguai e Nova Zelândia e foi derrotada pela Eslováquia, encerrando sua participação de maneira melancólica.

Quatro anos depois, no Brasil, repetiu o roteiro. Apesar da vitória sobre a Inglaterra na estreia, perdeu para Costa Rica e Uruguai e voltou para casa precocemente.

Então, veio o golpe mais duro. Pela primeira vez em seis décadas, a Itália ficou fora de uma Copa do Mundo ao ser eliminada pela Suécia na repescagem para o Mundial de 2018. A ausência provocou uma crise institucional profunda, culminando na reformulação da Federação Italiana de Futebol e em mudanças na formação de atletas.

Quando parecia que a reconstrução finalmente havia começado, outro choque. Em 2022, poucos meses depois de conquistar a Eurocopa de forma invicta, a Azzurra foi surpreendida pela Macedônia do Norte, em Palermo, e voltou a ficar fora do Mundial. A eliminação, definida por um gol nos acréscimos, foi tratada pela imprensa italiana como uma das maiores tragédias esportivas da história do país.

O cenário voltou a se repetir nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026. Sem conseguir manter regularidade ao longo da campanha, a seleção italiana fracassou novamente e ampliou para três o número consecutivo de Mundiais disputados sem a presença da tetracampeã do mundo.

A sequência consolidou um paradoxo difícil de imaginar vinte anos antes: uma das seleções mais tradicionais da história do futebol tornou-se presença constante nas crises e ausências, em vez de disputar títulos.

Onde estão os campeões de Berlim?

Os protagonistas de 2006 seguiram caminhos distintos após encerrarem suas carreiras como jogadores.

Fabio Cannavaro construiu uma trajetória como treinador, passando por clubes da China, Oriente Médio e Europa, além de assumir projetos em seleções nacionais. Gianluigi Buffon tornou-se dirigente da Federação Italiana de Futebol e segue como uma das vozes mais influentes do esporte no país.

Andrea Pirlo iniciou carreira como técnico, comandando Juventus, Fatih Karagümrük, da Turquia, e Sampdoria. Gennaro Gattuso dirigiu clubes tradicionais como Milan, Napoli, Valencia, Olympique de Marseille e Hajduk Split, consolidando-se como um dos treinadores italianos mais conhecidos da atualidade.

Alessandro Del Piero tornou-se comentarista e embaixador da UEFA, enquanto Filippo Inzaghi construiu uma carreira sólida como treinador, acumulando acessos à Serie A e trabalhos em diferentes clubes italianos.

Marcello Lippi, aos 78 anos, vive longe da rotina do futebol profissional. O técnico costuma participar de eventos e entrevistas, mas afirma considerar encerrada sua carreira à beira do campo.

Um título que ficou maior com o passar do tempo

A distância histórica mudou a forma como o tetra passou a ser interpretado pelos próprios italianos.

Na época, a conquista foi vista como o coroamento de uma geração excepcional. Hoje, ela também representa o último momento em que a Itália conseguiu reunir talento individual, organização coletiva, liderança técnica e identidade nacional em um mesmo projeto esportivo.

O jornalista Gianni Riotta escreveu, no dia seguinte à conquista, que as crianças que comemoravam nas ruas talvez não se lembrassem de todos os detalhes daquela Copa, mas jamais esqueceriam a sensação daquele 9 de julho de 2006. “Quando a Itália ganhou…”, começaria uma memória destinada a atravessar gerações.

20 anos depois, essa lembrança permanece viva. Não apenas porque Fabio Grosso converteu o pênalti decisivo ou porque Cannavaro levantou a taça sob o céu de Berlim. Também porque aquele grupo conseguiu realizar algo raro no esporte: transformar uma equipe desacreditada, pressionada por um escândalo sem precedentes e cercada por incertezas em campeã do mundo.

Em uma época em que o futebol italiano vivia seu momento mais sombrio fora de campo, a Azzurra encontrou dentro das quatro linhas uma forma de reconstruir o orgulho de um país inteiro. Talvez seja justamente por isso que o verão de 2006 continue ocupando um lugar tão especial na memória coletiva da Itália. Foi muito mais do que um título. Foi a última vez em que a Azzurra fez o mundo acreditar que seu passado glorioso ainda apontava para o futuro.