Por Manoel Costa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Enquanto a FIFA comemora a realização da maior Copa do Mundo da história com 48 seleções, novos mercados consumidores e receitas recordes, outro documento circula longe dos holofotes. Publicado em 2024 pela organização britânica FairSquare, o relatório Substitute: FIFA Not Fit to Govern World Football faz uma pergunta que vai muito além do futebol: como uma entidade privada conseguiu acumular tanto poder, movimentar bilhões de dólares, influenciar governos e atravessar sucessivos escândalos sem alterar profundamente sua estrutura?

Mais do que reunir denúncias sobre corrupção, o relatório da FairSquare sustenta que os principais problemas da FIFA são estruturais. A entidade continua operando sob um modelo que concentra poder político, dificulta mecanismos independentes de fiscalização e transfere parte significativa dos custos econômicos e sociais de seus torneios para os países-sede. Ao organizar evidências acumuladas ao longo de mais de duas décadas de investigações, o documento mostra que essas características atravessaram diferentes gestões — de João Havelange (1916-2016) e Joseph Blatter até Gianni Infantino — e ajudaram a construir uma estrutura capaz de sobreviver a escândalos, operações policiais internacionais e às próprias reformas prometidas após o FIFA Gate.

Embora o documento tenha sistematizado essas críticas em mais de 170 páginas, ele está longe de representar uma voz isolada. Nas últimas três décadas, jornalistas investigativos, pesquisadores e organizações internacionais vêm reunindo evidências que apontam na mesma direção. Entre eles estão nomes como Andrew Jennings e David Conn, além de veículos como The Guardian, Reuters e The Athletic, responsáveis por revelar alguns dos maiores escândalos da história recente do futebol mundial.

O poder que sobrevive aos presidentes

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Quando Gianni Infantino foi eleito presidente da FIFA, em fevereiro de 2016, a entidade atravessava sua maior crise institucional. Um ano antes, dirigentes haviam sido presos em um hotel de luxo em Zurique durante uma operação coordenada pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e pelo FBI. A imagem da organização parecia definitivamente comprometida.

Infantino apresentou-se como o rosto da renovação. Prometeu mais transparência, fortalecimento dos mecanismos de controle e uma nova cultura administrativa capaz de romper com décadas de escândalos. Mas a história da FIFA mostra que seus problemas dificilmente podem ser reduzidos aos nomes que ocupam sua presidência.

Muito antes das prisões de 2015, o jornalista investigativo escocês Andrew Jennings (1943-2022), considerado um dos maiores especialistas em corrupção no esporte, foi o primeiro profissional a romper o silêncio em torno da FIFA. Em livros como Foul! (2006), Omertà (2014) e The Dirty Game (2015), Jennings desmontou a imagem de uma organização esportiva tradicional para revelar uma engrenagem política internacional sustentada por relações de influência, contratos pouco transparentes e distribuição estratégica de recursos.

Foi Jennings quem revelou, ainda nos anos 2000, que a falência da empresa International Sport and Leisure (ISL) havia exposto pagamentos milionários feitos a dirigentes da FIFA em troca da cessão dos direitos comerciais da Copa do Mundo. Entre os beneficiários apareciam o ex-presidente João Havelange e Ricardo Teixeira, então presidente da CBF. Anos mais tarde, documentos obtidos pelo jornalista serviriam como parte das informações utilizadas por investigadores norte-americanos durante a operação que ficou conhecida como FIFA Gate.

Foi justamente esse modelo revelado por Jennings durante a era Blatter que o relatório da FairSquare procura atualizar para a gestão de Gianni Infantino: o verdadeiro mecanismo de sobrevivência da FIFA estaria em sua arquitetura política. Registrada na Suíça como uma associação sem fins lucrativos, a entidade funciona sob um princípio aparentemente democrático: cada associação nacional possui direito a um voto, independentemente de seu tamanho esportivo ou econômico.

Segundo a FairSquare, na prática, essa regra produz um sistema de dependência política.

Pelo programa FIFA Forward, válido para o ciclo 2023-2026, cada associação nacional pode receber até cerca de US$ 8 milhões em recursos destinados a desenvolvimento, infraestrutura e projetos administrativos. Para muitas federações de países menores, esse montante representa praticamente toda a capacidade de investimento anual.

Desta forma, cria-se uma relação típica de patronagem política: quem controla a distribuição dos recursos também fortalece sua própria base eleitoral. Essa dinâmica ajuda a explicar por que reformas profundas encontram tanta resistência dentro da organização.

Mesmo após a crise de 2015, as principais tentativas de criar mecanismos independentes de fiscalização acabaram sendo esvaziadas. Um dos primeiros sinais veio em 2016, quando Domenico Scala, então presidente do Comitê de Auditoria e Conformidade da FIFA e responsável por conduzir parte das reformas prometidas após o escândalo de corrupção, renunciou ao cargo. A decisão ocorreu depois que o Conselho da entidade retirou garantias de independência dos órgãos de controle interno, medida que Scala classificou como incompatível com uma governança efetiva. 

No ano seguinte, foi a vez de Miguel Maduro, jurista português, ex-ministro de Portugal e presidente do Comitê de Governança da FIFA, deixar a entidade. Maduro entrou em conflito com a direção após defender a aplicação das próprias regras de elegibilidade da FIFA ao dirigente russo Vitaly Mutko, então vice-primeiro-ministro da Rússia e presidente do comitê organizador da Copa de 2018. Para ele, a permanência de um integrante do governo em funções estratégicas da organização contrariava o princípio de neutralidade política previsto nos estatutos da entidade.

Outro exemplo citado pela FairSquare envolve o Conselho Consultivo de Direitos Humanos. Criado como resposta às críticas internacionais dirigidas à organização após a escolha do Catar como sede da Copa de 2022, o órgão acabou sendo silenciosamente descontinuado em 2021. Esses episódios não representam exceções. Eles demonstram um padrão institucional em que estruturas independentes passam a ser reduzidas sempre que ameaçam limitar o poder político da direção da FIFA. 

Esse movimento ganhou novo impulso em maio de 2024, durante o Congresso realizado em Bangkok. Sob o argumento de ampliar a participação das associações nacionais, a entidade aumentou seu número de comitês permanentes de 7 para 35. Oficialmente, tratava-se de uma modernização administrativa. Para a FairSquare, entretanto, a mudança criou centenas de novos cargos internos, ampliando significativamente o espaço para acomodações políticas dentro da estrutura da organização.

Ao mesmo tempo, alterações estatutárias abriram caminho para que o mandato atual de Infantino possa ser estendido até 2031. Quase dez anos depois das reformas anunciadas como marco de uma “nova FIFA”, o diagnóstico da FairSquare é contundente: a organização substituiu parte dos personagens, mas preservou a lógica de funcionamento que permitiu sua consolidação como uma das instituições privadas mais influentes e menos fiscalizadas do esporte mundial.

A Copa que dá lucro para poucos

Foto: Elza Fiúza/Agência Brasil

Se o poder político ajuda a explicar por que a FIFA atravessa sucessivas crises institucionais sem alterar profundamente sua estrutura, o modelo econômico da entidade revela por que ela se tornou uma das organizações esportivas mais poderosas do planeta.

Hoje, a FIFA controla praticamente todas as fontes de receita mais lucrativas da Copa do Mundo. Direitos de transmissão, contratos globais de patrocínio, programas de hospitalidade, licenciamento de marcas e venda de ingressos ficam concentrados sob sua administração. Em contrapartida, boa parte dos investimentos necessários para realizar o torneio, construção de estádios, obras de mobilidade urbana, infraestrutura aeroportuária e segurança pública, permanece sob responsabilidade dos governos anfitriões.

Esse modelo econômico é documentado pelo jornalista britânico David Conn, do The Guardian, que há mais de duas décadas acompanha as finanças e a governança do futebol internacional. Especializado na economia política do futebol, Conn mostra como a FIFA conseguiu construir um sistema no qual privatiza praticamente toda a receita do evento enquanto socializa boa parte de seus custos. Um dos mecanismos centrais desse processo são as exigências feitas aos países interessados em sediar a competição. Antes mesmo da escolha da sede, governos precisam assumir compromissos que incluem mudanças legislativas, garantias comerciais e amplas isenções fiscais para a FIFA e seus parceiros.

O Brasil tornou-se um dos exemplos mais emblemáticos desse modelo. Quando o país foi escolhido para sediar a Copa de 2014, governo federal e CBF sustentavam que os novos estádios seriam financiados prioritariamente pela iniciativa privada. A versão final da Matriz de Responsabilidades mostrou um cenário bastante diferente. Dos R$ 8,384 bilhões investidos nas 12 arenas do Mundial, apenas R$ 611,6 milhões (cerca de 7,2% do total) vieram diretamente da iniciativa privada. O restante foi bancado por investimentos dos governos estaduais, municipais e do Distrito Federal, além de financiamentos concedidos pelo BNDES, desmontando uma das principais promessas apresentadas durante a candidatura brasileira. 

O Estádio Nacional Mané Garrincha, em Brasília, tornou-se um dos principais símbolos desse processo. Com custo aproximado de R$ 1,5 bilhão, a arena tornou-se a mais cara entre todas as construídas ou reformadas para a Copa de 2014 e uma das mais caras do mundo. A obra foi alvo de investigações sobre suspeitas de superfaturamento e corrupção, enquanto parte do legado prometido para os arredores do estádio, como jardins, passagens subterrâneas e intervenções urbanísticas, jamais saiu do papel. Para muitos, o Mané Garrincha acabou simbolizando as contradições entre os investimentos públicos realizados para o Mundial e os benefícios efetivamente entregues à população. 

Além do investimento público, o país também abriu mão de receitas tributárias importantes. A Lei Federal nº 12.350, aprovada em 2010 para atender às exigências contratuais da FIFA, concedeu isenção de diversos impostos federais à entidade e às empresas diretamente ligadas à organização do torneio. Segundo cálculos reunidos pela FairSquare, a renúncia fiscal chegou a aproximadamente R$ 788 milhões.

Na prática, a FIFA opera em um regime tributário privilegiado na Suíça, onde mantém status de associação sem fins lucrativos e paga uma carga fiscal reduzida. Ao mesmo tempo, exige que os países-sede criem legislações específicas para garantir que ela e seus parceiros também fiquem isentos de impostos locais.

A África do Sul viveu situação semelhante em 2010. Além das isenções fiscais, milhares de vendedores ambulantes foram impedidos de trabalhar nas proximidades dos estádios devido às chamadas “zonas de exclusividade comercial”, estabelecidas para proteger patrocinadores oficiais da Copa. De acordo com o relatório da FairSquare, mais de 100 mil pequenos comerciantes perderam temporariamente sua principal fonte de renda para garantir que apenas marcas autorizadas pudessem explorar comercialmente o evento.

O contraste chama atenção. Enquanto governos assumem bilhões em investimentos públicos, a FIFA encerra cada ciclo de Copa com receitas recordes. Em seu orçamento revisado para o ciclo 2023–2026, a entidade projeta arrecadar aproximadamente US$ 13 bilhões. Trata-se do maior orçamento da história da entidade e praticamente o dobro da receita registrada no ciclo da Copa de 2014, evidenciando o ritmo de expansão comercial da FIFA nos últimos anos. Nunca a Copa do Mundo movimentou tanto dinheiro. A pergunta que permanece é quem, de fato, se beneficia dessa expansão.

O preço humano do espetáculo

Foto: Ashraf Hendricks

Os custos da Copa do Mundo não aparecem apenas nos orçamentos públicos. Eles também podem ser medidos em deslocamentos forçados, precarização do trabalho e violações de direitos humanos que acompanham a preparação de muitos dos megaeventos esportivos realizados nas últimas décadas. Foi justamente esse aspecto que transformou a investigação publicada pelo The Guardian em uma das principais referências internacionais sobre os custos humanos da Copa do Catar.

Em fevereiro de 2021, o The Guardian publicou uma reportagem revelando que mais de 6.500 trabalhadores migrantes provenientes da Índia, Nepal, Bangladesh, Paquistão e Sri Lanka haviam morrido no Catar desde que o país foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2022. Embora nem todas essas mortes estivessem diretamente ligadas às obras dos estádios, a investigação mostrou um padrão alarmante: milhares de certidões de óbito registravam causas genéricas, como “insuficiência cardíaca” ou “morte natural”, sem exames capazes de verificar a relação entre os óbitos e jornadas exaustivas sob temperaturas extremas.

Para a FairSquare, a FIFA ignorou durante anos sucessivos alertas produzidos pela Organização Internacional do Trabalho, por especialistas da ONU e por organizações de direitos humanos sobre os riscos do sistema kafala, um regime trabalhista que vincula o visto do imigrante ao patrão, gerando forte controle e abusos, que restringia a liberdade de trabalhadores migrantes e facilitava situações de exploração. O Catar tornou-se o caso mais conhecido, mas está longe de ser o único. 

Na África do Sul, a preparação para a Copa de 2010 também provocou remoções forçadas. Uma reportagem do The Guardian mostrou que centenas de famílias foram transferidas para Blikkiesdorp, assentamento de contêineres metálicos cercado por arame farpado, criado como solução temporária, mas que acabou se tornando moradia permanente para pessoas deslocadas pelas obras e pela reestruturação urbana ligada ao Mundial. 

No Brasil, o relatório da FairSquare estima que 18.412 famílias foram removidas em sete cidades-sede em decorrência de obras ligadas à Copa de 2014. Por trás desse número, porém, estão histórias de negociações marcadas por assimetrias e insegurança. A reportagem da Agência Pública mostrou que moradores de diferentes comunidades denunciaram falta de diálogo com o poder público, indenizações insuficientes e forte pressão para deixar suas casas. Em alguns casos, as residências eram marcadas para demolição antes mesmo da conclusão das negociações, transformando os despejos em um dos capítulos mais controversos do legado social do Mundial.  

Na Rússia, durante a preparação para a Copa de 2018, uma investigação do The Guardian revelou que trabalhadores norte-coreanos atuaram na construção da Zenit Arena, em São Petersburgo, vivendo em alojamentos cercados e sob vigilância constante. Organizações de direitos humanos afirmaram que o regime de trabalho se aproximava de trabalho forçado, já que grande parte dos salários era confiscada pelo governo da Coreia do Norte.

Observados em conjunto, esses casos revelam que o legado da Copa do Mundo nem sempre pode ser medido apenas por estádios ou indicadores econômicos. Em diferentes países, populações locais assumiram os custos de remoções, exploração do trabalho e violações de direitos, enquanto a maior parte das receitas permaneceu concentrada na estrutura responsável pela organização do torneio. 

Muito além da corrupção

Foto: Getty Images

Mesmo após o escândalo conhecido como FIFA Gate e das promessas de reconstrução institucional apresentadas por Gianni Infantino ao assumir a presidência da entidade em 2016, o debate sobre transparência e governança permanece aberto. A agência internacional Reuters, que acompanhou de perto os desdobramentos do FIFA Gate e das reformas posteriores, revelou outro episódio simbólico: aproximadamente US$ 201 milhões recuperados pela Justiça dos Estados Unidos após as condenações de antigos dirigentes foram destinados à própria FIFA, reconhecida judicialmente como vítima do esquema de corrupção. A decisão, embora respaldada legalmente, foi recebida com críticas de especialistas que argumentam que a entidade também se beneficiou, durante décadas, da estrutura que permitiu aqueles mecanismos de poder.

As dúvidas sobre o processo de reforma também aparecem em investigações mais recentes. Nos últimos anos, o The Athletic passou a concentrar parte de sua cobertura nos bastidores políticos da gestão Infantino, acompanhando o enfraquecimento de mecanismos independentes de fiscalização e o processo que levou à escolha da Arábia Saudita como sede da Copa de 2034.

Em conjunto, essas investigações reforçam uma conclusão semelhante à apresentada pelo relatório da FairSquare. Os problemas enfrentados pela FIFA não se resumem a episódios isolados de corrupção ou à atuação de dirigentes específicos. Eles revelam um modelo de governança que concentra poder político, administra recursos bilionários com reduzido controle externo e transfere parte significativa dos custos econômicos e sociais de seus torneios para os países que os sediam.

Ao longo de mais de duas décadas, jornalistas como Andrew Jennings e David Conn, além de organizações independentes e veículos de imprensa internacionais, vêm documentando diferentes dimensões dessa estrutura. O dossiê da FairSquare não inaugura essa discussão, mas a organiza de forma sistemática. Em uma época em que a Copa do Mundo bate recordes de audiência, faturamento e expansão global, permanece uma pergunta que atravessa toda essa história: quem fiscaliza a entidade que governa o esporte mais popular do planeta?