Como diferentes gerações de mulheres viveram a Copa do Mundo
Mais do que torcer, o público feminino passou a ocupar novos espaços na história do futebol
Por Karoline Naeyli – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Houve um tempo em que acompanhar uma Copa do Mundo significava ouvir a narração pelo rádio, reunir a família em frente à televisão e acompanhar comentários que, muitas vezes, partiam dos homens da casa. As ruas pintadas, as bandeiras nas janelas e os encontros para assistir aos jogos fazem parte de um ritual que atravessa gerações. Muitas mulheres sempre estiveram presentes nesses momentos, mas nem sempre encontravam o mesmo espaço para falar sobre futebol.
Décadas depois, a experiência mudou. Hoje, além de torcer, mulheres jogam e narram partidas, analisam esquemas táticos, cobrem torneios, produzem conteúdo para milhões de pessoas e encontram nas plataformas digitais novas formas de viver o futebol. A Copa continua reunindo famílias diante das telas, mas a maneira de participar desse espetáculo tornou-se muito mais diversa do que em qualquer outro momento da história do esporte.
Essa transformação não aconteceu de uma só vez. Ela acompanha mudanças sociais, culturais e tecnológicas que ampliaram o acesso ao futebol e permitiram que diferentes gerações construíssem suas próprias relações com o esporte. Se antes a experiência da Copa estava concentrada em poucos espaços e meios de comunicação, hoje ela se espalha por transmissões ao vivo, podcasts, redes sociais, canais independentes e comunidades digitais, aproximando o torneio de públicos que, durante muito tempo, tiveram sua participação pouco reconhecida.
Muito antes das redes sociais
A história das mulheres no futebol vai muito além das arquibancadas ou da audiência durante as Copas do Mundo. Pesquisas sobre gênero e esporte mostram que elas sempre fizeram parte desse universo, mas sua participação foi, durante décadas, marcada por barreiras culturais e institucionais que restringiram seu reconhecimento em diferentes espaços do futebol.
No Brasil, um dos episódios mais emblemáticos dessa trajetória foi a proibição da prática do futebol feminino entre 1941 e 1979. A medida, determinada pelo Conselho Nacional de Desportos (CND), reforçou a ideia de que o esporte não era um ambiente destinado às mulheres. Embora a restrição atingisse diretamente quem queria jogar, seus efeitos ultrapassaram os gramados e influenciaram a forma como o conhecimento, a opinião e a presença feminina passaram a ser percebidos dentro da cultura futebolística.
Ainda assim, elas nunca deixaram de acompanhar o esporte, e a Copa do Mundo continuou reunindo mães, avós, filhas e netas em dias de jogos, criando memórias compartilhadas e fortalecendo vínculos familiares por meio do futebol. Mesmo quando sua participação recebia pouca visibilidade, mulheres construíram maneiras próprias de torcer, interpretar partidas e transmitir essa paixão entre gerações.
Novas formas de viver a Copa
Levantamento Women and Sports 2026, do IBOPE Repucom, mostra que 71% das mulheres brasileiras conectadas se declaram fãs da Copa do Mundo, um crescimento de 22% em relação a 2014, quando esse índice era de 58%. O avanço fez com que elas passassem a representar metade do público fã do torneio no país, equilibrando pela primeira vez a participação entre homens e mulheres. Os números mostram que a mudança vai além da audiência. Eles refletem novas formas de viver o Mundial e revelam como diferentes gerações passaram a se relacionar com o torneio.
A Copa deixou de existir apenas durante os 90 minutos de cada partida. Hoje, ela também acontece nas conversas entre torcedores, nas análises, nos conteúdos compartilhados e nas diferentes formas de consumir informação e trocar experiências.
O protagonismo feminino na Copa do Mundo não surgiu de uma mudança repentina, mas foi sendo construído ao longo das décadas, à medida que novos espaços passaram a ser ocupados dentro e fora das quatro linhas. Se antes muitas mulheres viviam o Mundial e outros momentos do futebol como torcedoras, hoje elas também ocupam espaços de análise, comunicação e representação. Mais do que acompanhar a história da Copa, diferentes gerações passaram a fazer parte dela.



