Por Samuel Fernandes – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Inglaterra: os donos da bola

Em 1863, os ingleses criaram os fundamentos básicos do futebol: 11 jogadores de cada lado, uma bola, dois times, um campo com linhas. A partir disso, o esporte começou a ser exportado por meio de marinheiros britânicos que jogavam em portos estrangeiros e ensinavam o jogo a locais em campos improvisados em diferentes cidades da América do Sul, África e Ásia.

Mesmo assim, foram mais de 100 anos entre o primeiro chute e o primeiro título de Copa do Mundo conquistado pelos ingleses, que levantaram a taça em 1966 ao vencerem a Alemanha Ocidental por 4 a 2. Até hoje, o único título de Copa do Mundo dos criadores do futebol.

Para a Eurocopa 1996, sediada na Inglaterra, foi lançada a música “Three Lions”, cujo a letra entoava: “nós ainda acreditamos. Está vindo para casa. O futebol está vindo para casa”. Desde então, o “football is coming home” é o lema de toda a torcida inglesa, que há mais de 60 anos aguarda pelo sonhado bicampeonato.

Uruguai: o primeiro a profissionalizar o esporte

Uruguai na conquista do título da Copa do Mundo 1930 (Foto: CONMEBOL)

Em 1930 aconteceu a primeira Copa do Mundo, que, ao contrário do que se poderia esperar, não aconteceu na Inglaterra e nem mesmo na Europa. Sediado no Uruguai, o Mundial teve como primeiro campeão do mundo um país latino, o próprio Uruguai, que provou que o talento no futebol não era exclusividade dos europeus. A seleção bicampeã Olímpica sediou e venceu a primeira Copa do Mundo da história, superando a Argentina por 4 a 2.

O título foi resultado de um país que, já nos primórdios, resolveu tratar o futebol como profissão, não como um passatempo de fim de semana. Ao contrário dos ingleses da Federação Inglesa de Futebol (The FA), que se opunha a remunerar atletas por jogos internacionais e defendia que o futebol deveria se manter “amador” por valores morais. Com isso, a Inglaterra não apenas não sediou, como nem sequer participou da competição. 

Itália: a escola da organização defensiva

O italiano Meazza e o húngaro Sárosi se cumprimentam antes da final de 1938 (Foto: FIFA)

Os dois primeiros títulos italianos (1934 e 1938) foram conquistados sob o comando do treinador Vittorio Pozzo e o seu implacável estilo de jogo, o “Il Metodo” (O Método), que trazia dois zagueiros centrais fixos, priorizando a solidez defensiva num momento em que a maior parte do futebol europeu priorizava o ataque. Isso mudou o jogo para sempre.

O método defensivo italiano trazia uma pirâmide tática clássica, contrariando a tática mais comum na época, a 2-3-5, trazendo cinco jogadores na ofensiva, algo absurdo de se imaginar hoje. O sistema defensivo criado por Pozzo permitia grande compactação no meio do campo, transições rápidas para o ataque e forte marcação individual no centro do jogo.

A Itália ainda criou, nos anos 60, mais um esquema defensivo que, mais uma vez, revolucionou o cenário, o “Catenaccio”, que tinha ênfase em não sofrer gols, explorar contra-ataques e aproveitar as oportunidades de bolas paradas. Por quatro vezes, a Itália provou que se defender bem também faz parte da arte do esporte, mostrando a elegância de simplesmente não sofrer gols.

Brasil: tristeza para trás, nasce o “Jogo Bonito”

Seleção Brasileira na conquista da Copa do Mundo 1958 (Foto: Shutterstock)

O Brasil chegou à Copa do Mundo 1958 ainda com resquícios do trauma da derrota ocorrida no Maracanazo de 1950. O segredo para a virada da forma de jogar foi perceber que a estratégia estava justamente em voltar a gostar do jogo de forma livre e jovem. E nenhum jovem na época estava mais preparado para isso que um garoto de 17 anos apelidado de Pelé.

O objetivo do esquema tático era transformar o talento individual e a ginga do futebol de rua em um time que fosse capaz de vencer. A solução foi o sistema tático 4-2-4, formação criada no interior de Minas Gerais e antes aplicada no glorioso Vasco da Gama dos anos 50. A formação, até então pouco vista, dava total liberdade para Pelé e Garrincha driblarem à vontade sem comprometer a estrutura coletiva, trazendo o primeiro dos cinco títulos da seleção e um apelido: “Jogo Bonito” ou “Joga Bonito”, amplamente difundido a partir dos anos 80.

O futebol brasileiro passou a ser visto como modelo de arte, alegria e técnica. Surgiu o entendimento de que improviso e organização não são opostos e o drible não era só uma demonstração de talento, mas um artifício técnico.

Espanha: a evolução do tiki-taka e o toque como filosofia

Seleção da Espanha na conquista da Copa do Mundo 2010 (Foto: Sky Sports)

A campeã da Copa do Mundo 2026 trouxe uma evolução de uma forma de jogar que já impressionou a todo o mundo em seu primeiro título, na Copa do Mundo 2010. A seleção que competiu o Mundial na África do Sul coroou um estilo que já vinha sendo gestado há anos no Barcelona de Pep Guardiola: o “tiki-taka” da posse de bola quase obsessiva, com triangulações curtas e constantes, além do entendimento de que controlar o jogo é uma forma de atacar também.

Em 2026, a seleção espanhola precisava inovar. Com a popularização de seu estilo, times bem treinados tornaram-se capazes de neutralizar suas jogadas. Então, a Espanha de 2026 manteve o DNA da posse de bola como centro, mas evoluiu para um jogo vertical, explorando os corredores e a transição rápida, com jogadores dribladores e defensivos.

Após decepções nas edições seguintes de Copa do Mundo, o time analisou seu próprio jogo e evoluiu seu estilo, deixando de ser a Espanha de 2010, descrita por muitos como monótona, para apresentar em 2026 sua versão mais decisiva e imprevisível.