Sportswashing, boicotes e protestos: a Copa 2026 é mais política que futebol
Enquanto governos usam o Mundial para lavar a imagem, torcedores celebram diversidade nas arquibancadas
Por Keila Vitória – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A Copa do Mundo 2026 entrou para a história antes mesmo de sua estreia. Pela primeira vez, 48 seleções disputam o torneio em três países simultaneamente, Canadá, Estados Unidos e México, com 104 partidas ao longo de 39 dias. Mas, como sempre, o evento vai muito além do futebol.
Com quase 100 anos de história, a Copa se tornou um fenômeno geopolítico e cultural. Governos de diferentes espectros a utilizam para projetar sua imagem global, enquanto torcedores transformam estádios e ruas em celebração da pluralidade humana.
A instrumentalização política do futebol
O uso político do esporte tem raízes profundas. Em 1934, a “Copa do Fascismo”, na Itália de Mussolini, foi o primeiro grande exemplo de instrumentalização do futebol. O regime investiu em estádios, cercou o torneio de símbolos fascistas e usou a conquista do título para propagar a “superioridade da nação italiana”.
No Brasil, Getúlio Vargas, durante o Estado Novo, já percebia o potencial de mobilização do esporte. Discursava nos intervalos das partidas e se apresentava como “torcedor número 1”. A ditadura militar (1964-1985) levou a prática a outro patamar: a conquista do tricampeonato em 1970 foi usada como propaganda do regime. O técnico João Saldanha, comunista, foi substituído por Zagallo, e agentes da repressão foram incluídos na comissão técnica enquanto milhares eram perseguidos e torturados.
Ao redor do mundo, o padrão se repete. A África do Sul usou a Copa de 2010 para celebrar a superação do apartheid, com Nelson Mandela como símbolo. A Rússia, em 2018, projetou modernidade e estabilidade em meio a tensões com o Ocidente. O Catar, em 2022, foi alvo de críticas por sportswashing, a tentativa de melhorar a imagem internacional por meio do esporte, apesar de violações de direitos humanos.
A resistência organizada
Mas a relação entre futebol e política não é unilateral. Sociedades também usam o torneio para protestar. Em 1966, a Confederação Africana boicotou a Copa após a FIFA negar vaga garantida ao continente. Em 1974, a União Soviética recusou-se a jogar contra o Chile sob a ditadura de Pinochet, e a FIFA declarou os chilenos vencedores por W.O, num gesto que entrou para a história pelo absurdo.
Na Argentina de Videla (1978), uma rede internacional de protestos denunciou as violações de direitos humanos no Cone Sul. Já no Brasil de 2014, milhões foram às ruas com slogans como “Não vai ter Copa”, protestando contra gastos bilionários enquanto saúde e educação definhavam.
As contradições de 2026

A Copa de 2026 segue a mesma lógica, em um momento de forte instabilidade internacional. Os Estados Unidos, uma das sedes, enfrenta críticas por sua política de imigração, que dificultou a entrada de torcedores de países como Irã e Senegal. A promessa da FIFA de que “o futebol une o mundo” esbarra na realidade dos vistos negados e da segurança reforçada.
Além disso, o formato com três países-sede escancara tensões regionais. A relação entre EUA, México e Canadá tem sido marcada por disputas comerciais e ameaças de deportação em massa, mas, para os efeitos da Copa, os três precisam cooperar, criando uma dinâmica artificial que contrasta com a política cotidiana.
A diversidade como resistência cultural
Em contrapartida, a Copa de 2026 reúne seleções dos seis continentes, consolidando-se como uma das edições mais diversas. As arquibancadas viram vitrines de identidades nacionais: escoceses com kilts e gaitas de fole, noruegueses imitando remadas vikings, congoleses homenageando Lumumba, japoneses recolhendo o próprio lixo.
Em um mundo marcado por guerras e polarização, é notável que milhões de pessoas atravessam continentes para celebrar justamente aquilo que as torna diferentes. Durante algumas horas, rivais dividem metrôs, ruas e bares. Cantam em idiomas distintos, mas convivem. Não escondem suas identidades, fazem delas sua principal forma de participação.
Mais que futebol, um espelho do mundo
A Copa do Mundo revela uma dualidade inescapável. De um lado, governos a usam como tabuleiro de poder. De outro, torcedores a transformam em espaço de encontro e afirmação cultural. Governos tentam controlar narrativas desde 1934; torcedores, livres, constroem sua própria história nas arquibancadas.
A lição que ultrapassa o futebol é simples: a paz não depende de apagar diferenças, mas de reconhecê-las e permitir que convivam sem se transformarem em conflito. Em tempos de geopolítica fragmentada, a Copa de 2026 lembra que nunca foi e nunca será só futebol.



