A Rússia no futebol mundial, da Copa em casa ao isolamento internacional!
Longe dos gramados, o país investiu na batalha pela narrativa durante o Mundial
Por Doiara Silva dos Santos – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Na abertura da Copa do Mundo de 2026, no Estádio Azteca, a presença da bandeira da Rússia na decoração oficial das arquibancadas, ao lado das bandeiras de outros países, gerou críticas em razão do banimento imposto ao país pela FIFA por causa da invasão da Ucrânia, em 2022. Além disso, um grupo de torcedores, durante a partida inaugural entre México e África do Sul, estendeu nas arquibancadas uma bandeira nacional da Rússia com a inscrição “Severodvinsk” (cidade russa que abriga uma das principais bases de submarinos nucleares do país), além de um banner com nomes de cidades russas. Essa foi a principal forma de “presença” da Rússia na Copa do Mundo, diante do banimento imposto pela FIFA, que afastou o país das competições oficiais.
Antes do início da Copa, o Centro Canadense de Cibersegurança (um dos países anfitriões do torneio) emitiu um boletim oficial de ameaça alertando que agentes russos patrocinados pelo Estado utilizariam o alcance global da Copa do Mundo de 2026 para disseminar desinformação (Cyber Threat Bulletin: FIFA World Cup 2026). A imprensa canadense denunciou uma rede russa de desinformação digital que forjou vídeos da emissora CTV News para espalhar notícias falsas sobre o torneio, enquanto correspondentes internacionais relataram que, dentro do território russo, o clima geral era de absoluto desinteresse e isolamento em relação à competição realizada na América do Norte.
A estratégia remete ao padrão observado durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Milano-Cortina 2026, quando, apesar das restrições impostas ao esporte russo, Moscou também buscou manter sua presença no cenário internacional por meio de operações informacionais e da criação de narrativas paralelas. Durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Milano-Cortina 2026, coletivos internacionais de jornalismo investigativo identificaram uma campanha atribuída à operação Matryoshka, ligada à Rússia, que difundiu vídeos falsificados imitando a identidade visual da Euronews, CBC News, Deutsche Welle, TF1 e outros veículos. As peças falsas afirmavam, por exemplo, que refugiados ucranianos haviam roubado uma equipe da Euronews. Segundo os coletivos investigativos, a campanha concentrou-se em desacreditar a Ucrânia e explorar a visibilidade internacional do evento esportivo.
Essa relação da Rússia com o torneio se distancia muito do clima pré-Copa do Mundo de 2018, quando o país ficou marcado por uma mistura de entusiasmo e preparação estratégica para sediar o maior torneio de futebol do mundo. Desde sua primeira participação, ainda como União Soviética, em 1958, e, posteriormente, como Federação Russa, o país esteve presente em 12 edições da Copa do Mundo. Apesar de pesquisas de opinião realizadas às vésperas da Copa de 2018 indicarem que mais da metade dos russos afirmava não pretender acompanhar o torneio, esse cenário mudou durante a competição, especialmente após o bom desempenho da seleção russa. A mesma pesquisa indicou que apenas 15% disseram que o Mundial não lhes despertou interesse. A Rússia foi eliminada pela Croácia, nos pênaltis, nas quartas de final.
A anfitriã de 2018 investiu cerca de 10 bilhões de euros em infraestrutura, incluindo a construção de sete novos estádios e a modernização de cidades-sede como Moscou, que recebeu 1,5 bilhão de euros para melhorias em estradas, calçadas e transporte público, como a introdução de anúncios em inglês no metrô. Como ocorre com todo país-sede, o evento foi utilizado como plataforma para fortalecer sua imagem internacional, impulsionar a economia e promover o turismo, além de consolidar sua influência política global. O torneio trouxe benefícios financeiros, mas também gerou críticas relacionadas a direitos humanos e governança, com grande repercussão das restrições à liberdade da população LGBTQIAPN+ .
Após o “boom” proporcionado pela Copa do Mundo de 2018, o futebol russo entrou em um ciclo de retração. Em um primeiro momento, a pandemia de COVID-19 interrompeu receitas provenientes de bilheteria, patrocínios e direitos comerciais, reduzindo a capacidade de investimento dos clubes. Antes que o setor pudesse se recuperar plenamente, a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, desencadeou um conjunto de sanções esportivas e econômicas que reverteu grande parte dos avanços obtidos após o Mundial, comprometendo tanto a dimensão financeira quanto a inserção internacional do futebol russo.
A suspensão imposta pela FIFA e pela UEFA excluiu seleções e clubes russos de todas as competições internacionais, interrompendo o acesso às receitas distribuídas por torneios como a UEFA Champions League, a Europa League e a Conference League. Além da perda direta de premiações milionárias, os clubes deixaram de receber cotas de transmissão internacional, receitas de bilheteria provenientes de partidas continentais e bônus de patrocinadores vinculados à participação em competições europeias. O isolamento também reduziu significativamente a exposição global da Premier League Russa, tornando o campeonato menos atrativo para investidores, parceiros comerciais e emissoras estrangeiras.
Paralelamente, o ambiente econômico em que os clubes russos estavam inseridos foi profundamente afetado pela saída de centenas de empresas estrangeiras. Companhias como Visa, Mastercard, PayPal, Adidas, Nike, IKEA, McDonald’s e H&M suspenderam ou encerraram suas operações no país após a invasão da Ucrânia. Além disso, a UEFA rescindiu seu contrato de patrocínio com a Gazprom (empresa estatal russa do setor de energia). Esse cenário, aliado às restrições financeiras impostas aos bancos russos, dificultou pagamentos internacionais, transferências de recursos e negociações envolvendo atletas, tornando o mercado russo menos atrativo para jogadores, empresários e investidores.
A instabilidade econômica global causada pela guerra, que elevou os custos de energia e a inflação, prejudicou ainda mais o setor esportivo russo. Apesar do isolamento esportivo, a Rússia não foi completamente excluída da estrutura financeira do futebol europeu. Uma investigação publicada pelo The Guardian revelou que a UEFA destinou cerca de € 10,8 milhões em recursos de “solidariedade” a clubes russos desde a invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022, mesmo após a exclusão das equipes das competições continentais. A reportagem também destacou críticas de que alguns clubes ucranianos deixaram de receber valores equivalentes em determinados programas, sob a justificativa de estarem localizados em zonas de conflito, reacendendo o debate sobre os critérios adotados pela entidade na distribuição de recursos e na aplicação de sanções esportivas.
Ainda é preciso ponderar a severidade das sanções impostas pela FIFA, pois o banimento suscita um debate mais amplo sobre os critérios utilizados pelas entidades esportivas internacionais para aplicar punições a Estados envolvidos em conflitos armados. Ao longo das últimas décadas, países como os Estados Unidos participaram normalmente das competições da FIFA durante intervenções militares no Afeganistão (2001–2021) e no Iraque (2003–2011), assim como Israel continua disputando torneios internacionais em meio ao conflito na Faixa de Gaza. Embora esses casos apresentem contextos políticos, jurídicos e geopolíticos distintos, a diferença de tratamento tem alimentado questionamentos por parte de acadêmicos, dirigentes esportivos, governos e organizações da sociedade civil sobre a consistência e a universalidade dos critérios empregados pela FIFA.
Enquanto isso, a seleção russa não disputa competições oficiais e hoje vive isolada, resumindo suas atividades a períodos curtos de treinamento durante as Datas FIFA e a amistosos contra países que aceitam o convite, principalmente seleções da África, da Ásia e da América Latina. A comissão técnica concentra seus esforços na renovação do elenco e na realização de amistosos esporádicos, enquanto as categorias de base (como a seleção Sub-15) começam a receber pequenas permissões para treinar e competir no cenário internacional.
Em novembro de 2025, a imprensa esportiva noticiou que a Russian Football Union estudava a criação de um torneio internacional paralelo destinado a seleções que não haviam se classificado para a Copa do Mundo de 2026. A iniciativa buscaria oferecer uma alternativa competitiva durante o período do Mundial e, ao mesmo tempo, manter a Rússia inserida no cenário internacional do futebol. Apesar da repercussão inicial, o projeto não avançou e o torneio não foi realizado.
A Copa do Mundo de 2026 mostrou que o banimento afastou a Rússia dos gramados, mas não do uso do esporte como arena geopolítica. Sem espaço na competição oficial, o país buscou manter alguma visibilidade por meio da disputa narrativa e da exploração da projeção internacional proporcionada pelo torneio.



