Identidade cultural estampa as camisas da Copa
Entre gramados e museus, a segunda camisa da Bélgica questiona o que representa uma seleção nacional
Por Rodrígo Olivêira – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Desde os gregos, os Jogos Olímpicos da Antiguidade eram uma forma de promover a união entre as cidades-estados e a busca pela excelência e pela glória. Logo na primeira edição, em 1930, a Copa do Mundo promoveu a união entre os povos, e a constante busca pela excelência e pela glória passaram a fazer parte da essência do torneio.
No entanto, mais do que a busca por uma estrela acima do escudo, algo quase sempre passa despercebido: a identidade cultural dos países expressa por meio de seus uniformes. Neste Mundial de 2026, a camisa 2 da Bélgica torna-se um importante gancho para sintetizar, por meio da arte e do design esportivo, o que um uniforme de seleção pode representar para o futebol de cada país participante do torneio – e que deveria servir de exemplo para o Brasil.
A referência
A segunda camisa da seleção belga é uma homenagem ao pintor surrealista René Magritte, autor da obra “A Traição das Imagens” (1929). Na parte de trás da gola da camisa, está escrita a frase Ceci n’est pas un maillot, uma referência direta à célebre inscrição Ceci n’est pas une pipe, traduzida como “Isto não é um cachimbo”.
Ao utilizarem a lógica magrittiana por meio dessa referência, os Diabos Vermelhos reforçam a ideia de que “isto não é uma camisa”. E isso diz muito mais sobre identidade ou sobre a falta dela, quando, por exemplo, o Brasil escolheu a frase “Vai, Brasa”, também localizada na gola do uniforme.
Tão paradoxal quanto a obra do artista, a frase escolhida pelos belgas nos faz refletir que a camisa de uma seleção não é apenas um objeto de consumo para o torcedor. O uniforme deles, assim como das demais seleções, é muito maior do que a lógica capitalista nos impõe ao consumir camisas durante os Mundiais.

Outras seleções
Por se tratar de um torneio mundial, todas as seleções classificadas disputam os jogos com uniformes que não carregam apenas as cores de suas bandeiras, mas também parte de sua identidade cultural.
Nesse aspecto, as seleções do futebol africano são especialistas. A cultura do continente aparece estampada nos uniformes de diversas equipes. Em 2018, por exemplo, Camarões e Costa do Marfim homenagearam animais simbólicos de seus respectivos países.
Os camaroneses escolheram o leão, aplicado em pontilhados de diferentes tons de branco. Já os marfinenses estamparam um elefante, com recortes tracejados em branco sobre o uniforme predominantemente laranja.
Identidade e semiótica
Quando Magritte pintou um cachimbo com extremo realismo e escreveu, de forma provocativa, que aquela imagem “não é um cachimbo”, obrigou-nos a enxergar o óbvio: aquela pintura realmente não era um cachimbo. Afinal, ninguém poderia fumar utilizando uma representação artística do objeto.
O que vemos, tanto na obra quanto no uniforme belga, é exatamente essa ideia: o que está na tela não é um cachimbo, assim como o uniforme não é apenas uma camisa. Ele deixa de ser uma simples peça esportiva para se tornar um suporte de identidade, memória e cultura de um país.
Uma camisa de futebol nunca foi, não é e jamais será apenas uma camisa de futebol. Ela também tem o poder de contar histórias, preservar memórias e ampliar a mensagem que um país escolhe transmitir sobre si mesmo.
A falta dessa relação identitária no uniforme do Brasil culminou na entrega de nosso tão “penta-pesado” uniforme às mãos de alguém radicado em outro país, que criou uma frase sem qualquer vínculo afetivo ou identitário com o povo brasileiro.
Isso não é identidade.



