Os colonizadores europeus ficaram babando quando se defrontaram com a Serra do Mar, que acompanha o litoral sul-sudeste do Brasil. Imaginavam montanhas de ouro e de pedras preciosas fazendo a fortuna de reis e de aventureiros. Fixaram polos coloniais ao longo da estreita planície costeira para, então, penetrarem pelas rugas da serra em busca de um Eldorado. Por exemplo, a partir da ilha de São Vicente, os portugueses escalaram a Serra de Paranapiacaba (nome local da Serra do Mar) para fundar um povoado em Piratininga, hoje São Paulo, a maior cidade do Brasil.

Quase todos os principais rios paulistas – Paranapanema, do Peixe, Tietê e Grande – nascem no planalto, próximo do litoral, mas correm no sentido oposto, em direção ao Rio Paraná, drenando a Bacia Platina. Na intuição dos visionários europeus, aquele era o rumo, o Eldorado estaria a oeste. Uma exceção importante é o Rio Paraíba do Sul, cujo vale faz caminho entre o Rio de Janeiro e São Paulo. O Vale do Paraíba, que já foi a base geofísica para se alcançar as Minas Gerais, é hoje, como se sabe, um colar de cidades industriais.

A outra exceção é o Rio Ribeira de Iguape, que deságua no Atlântico e onde está, hoje, a cidade de Iguape, no litoral sul de São Paulo. Nessa região, a Serra do Mar está a uns 50 km da costa e, ela própria, alarga-se para trás. Subindo pelo Ribeira, os colonizadores não chegavam a lugar nenhum. Ou melhor, após serpentear por centenas de quilômetros pela serra fazendo uma inflexão para o sul, chega-se à nascente do Ribeira, que fica no Paraná, a uns 100 km de Curitiba.

Foram muitas as tentativas para se encontrar ouro e outros minérios e não dá para se dizer que não tenham encontrado, pois a mineração, ainda hoje, é um componente importante da economia do Vale do Ribeira. E temos lá a cidade de Eldorado, importantíssima, não apenas pelo nome, mas também porque é onde nasceu Jair Messias Bolsonaro. O Instituto Socioambiental (ISA) mantém uma equipe que atua no apoio às comunidades tradicionais do Vale do Ribeira.

Mas as jazidas minerais ali encontradas não realizavam o sonho de fortuna de ninguém (tanto que o próprio Bolsonaro é um garimpeiro frustrado). Para chegarem ao planalto curitibano, os portugueses faziam um caminho mais curto a partir de Paranaguá, e o eixo do Ribeira não servia nem para ligar Curitiba a São Paulo, já que se pode ir de uma a outra atravessando a planície costeira alargada, por onde passa atualmente a BR-116. O Rio Ribeira de Iguape só é caminho para quem vive nele.

Sorte da diversidade! Quem subiu o Ribeira de Iguape e se estabeleceu por lá, desde antes da Abolição, foram grupos de negros escravizados, para se protegerem do assédio colonial e do capitalismo selvagem. Eles constituem, hoje, pelo menos 33 comunidades de quilombos, só na banda paulista do Vale, com apenas seis delas parcialmente tituladas oficialmente e uma parte encravada em Unidades de Conservação ambiental. Também existem 34 comunidades Guarani, em 11 Terras Indígenas, e, no litoral, comunidades caiçaras que vivem dos abundantes recursos pesqueiros da foz do Ribeira. A região mantém a mais baixa densidade demográfica de ambos estados.

Em 1970, no auge da ditadura militar, o Vale do Ribeira foi palco de um movimento de guerrilha duramente reprimido, até com bombardeios de napalm. A “Operação Registro” (Registro é o nome da principal cidade da região) foi a maior mobilização da história do II Exército, envolvendo três mil homens do Centro de Informações do Exército, de regimentos de infantaria e paraquedistas, da Polícia Militar e Rodoviária, do Departamento de Ordem Política e Social (Dops, polícia política do regime militar) e da Marinha, para vasculhar a área e capturar 9 integrantes da organização Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), sob o comando de Carlos Lamarca.

A região é também chamada de “Vale dos Esquecidos”, com um sentido de pobreza e de abandono por parte dos governos e das regiões mais prósperas dos dois estados. Mas a ideia de esquecimento supõe que, antes, os seus habitantes tivessem sido lembrados… Cercado por 30 milhões de brasileiros e por quase metade do PIB, o Vale do Ribeira é quase invisível para a grande maioria dos que vivem bem ao lado.

Preocupado com os amigos quilombolas do Vale do Ribeira, ando enviando mensagens, perguntando sobre como estão se protegendo, vendendo o que produzem e comprando o que precisam. Avisaram-me que estão fazendo mutirões agrícolas diários, sem disponibilidade neste momento para a minha literatura. Minhas amigas do ISA também estão a mil por hora, entregando cestas de alimentos produzidos pelos quilombolas nas aldeias indígenas da região.

Com a graça de Deus, até agora, pelo menos, a Covid-19 não subiu o Ribeira e não contaminou nenhum quilombola da região, apesar da sua proximidade de São Paulo, epicentro da epidemia. Envoltos em justas preocupações sanitárias e econômicas, é improvável que os paulistas e paranaenses percebam, justo agora, o precioso Vale que fica ao lado. Mas pode ser que, neste momento, ele permaneça invisível mesmo, pelo menos aos olhos do coronavírus…

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