Em artigo para a Mídia NINJA, o sócio-fundador do ISA Marcio Santilli reflete sobre a herança bolsonarista de miséria, sectarismo, negacionismo e devastação que o ex-presidente deve enfrentar caso seja eleito em 2022

Ex-presidente Lula durante visita ao Museu Cais do Sertão, em Recife. Foto: Ricardo Stuckert

Miséria

Debelar a miséria humana — fome, doença e ignorância — é a maior das prioridades nacionais. Lula tem essa clareza e lidera as pesquisas de intenção de votos para presidente pela memória social resiliente de ações de escala, como o Bolsa-Família, em contraponto ao agravamento recente da miséria.

Bolsonaro é um pródigo produtor de miséria e o Brasil retrocedeu bastante nesses três anos. Mas ele sentiu uma pitada desse gostinho de reconhecimento, de mérito prá lá de discutível, quando foi instituído o auxílio emergencial de R$ 600 reais em resposta à primeira onda da pandemia.

Porém, a crise sanitária se alongou e se agravou além do que se poderia imaginar, também por conta da loucura negacionista do governo e da sua incapacidade de unir o país, mesmo diante da emergência.

Bolsonaro tenta grilar o reconhecimento a Lula através do “novo” auxílio emergencial. Na verdade, um repeteco, na casa dos R$ 400, com vistas às eleições. Mas parece que não está funcionando, pois Lula segue mantendo ampla vantagem na faixa de renda à qual ele se destina. A tentativa de grilo traz o reconhecimento implícito de que a prioridade é enfrentar a miséria, que Bolsonaro só fez aumentar.

Sectarismo

A miséria, primeiro dos males, deve eleger Lula presidente. Mas, para enfrentá-la, o presidente precisará recuperar a confiança da sociedade ativa — aquela que trabalha, investe. E assim ativar a economia, gerando empregos e arrecadação. Não será a polarização, ou a lógica do “nós, versus, eles”, padrão dominante nos últimos governos, que resolverá a questão. O Brasil precisa de uma boa dose de união.

Isso parece blá-blá-blá retórico, mas não é. O Brasil, em 2023, será muito diferente do de 2003. A começar pela resistência dos derrotados que, mesmo que fiquem fragmentados, fustigarão o que vier pela frente. E a continuar pela herança devastadora do atual governo e pela necessidade de uma reconstrução nacional, improvável sem um amplo consenso.

Será preciso emitir um sinal forte de país — e não de facção — à opinião pública mundial, para tirar o Brasil do isolamento, recuperar a sua credibilidade e construir parcerias e acordos que estimulem o desenvolvimento sustentável.

Bolsonaro absorveu, por oportunismo, a demanda por transferência de renda, mas não vai acolher a demanda por maior união nacional. Ele é o próprio aético do confronto. A lógica do “nós, versus, eles” reforça sua estratégia.

A política de alianças é o contraponto eficaz ao bolsonarismo, antes e depois das eleições. Claro que ela também estabelece limites e mediações para o exercício do mandato, mas viabiliza os avanços imediatos necessários para tirar o Brasil do fundo do poço.

Negacionismo

Bolsonaro faz populismo com a sua própria ignorância. Prescreve medicamentos comprovadamente ineficazes para Covid-19, mas nega a eficácia das vacinas, mesmo diante dos seus evidentes resultados. O presidente tem acesso a todas as fontes de informações que quiser, mas prefere fake news. Essa postura criminosa responde por boa parte das mais de 620 mil vidas perdidas.

Presidente Jair Bolsonaro na rampa do Palácio do Planalto|Alan Santos/PR

Responde, também, pelo desmantelamento sistemático das instituições públicas de pesquisa, como Anvisa, CNPQ, IBGE, Inpe, Ipea, universidades federais e tantas outras. É espantoso que o governo não tenha se mobilizado, em tempo real, para produzir nossas próprias vacinas, enquanto muito dinheiro público foi investido em redes de desinformação e em tratamentos inócuos.

A aversão presidencial à verdade é cada vez mais percebida pela população. Segundo o Datafolha, 55% dos brasileiros dizem “nunca” acreditar no que Bolsonaro diz e 38%, só “às vezes”. Seu descrédito é planetário e prejudica fortemente as relações externas, tanto com instituições multilaterais, como a OMS, quanto com governos, como o da China, nossa maior parceira comercial.

Se eleito, Lula terá trabalho para reconstruir as instituições responsáveis por dotar o Estado e as políticas públicas das informações científicas indispensáveis para se orientarem. Mas ele dispõe de reconhecimento internacional para recuperar a credibilidade do país junto aos seus parceiros e interlocutores externos.

Devastação

A política do atual governo, de devastação ambiental e de afronta aos direitos dos povos indígenas e das populações tradicionais, é um escândalo mundial. Bolsonaro sequer compareceu à COP26, realizada em Glasgow, Escócia. E o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, só concordou com a transmissão de uma gravação dele após a delegação brasileira concordar e assinar o compromisso, assumido por mais de 100 países, de zerar o desmatamento ilegal.

Queimada e vista em meio a area de floresta proximo a capital Porto Velho. Foto: Bruno Kelly/Amazonia Real.

Pior, mesmo, foi a descoberta de que o governo brasileiro já sabia antes, e sonegou a informação à COP26, de que a taxa anual de desmatamento na Amazônia apurada pelo Inpe deu um salto de 22%, por cima de dois outros aumentos anteriores. Bolsonaro tentou negar o evidente aumento do desmatamento, mas a descoberta da fraude, logo após a COP, pegou muitíssimo mal.

A devastação ambiental não ocorre, apenas, na Amazônia, mas em todos os biomas. O fogo consome o Pantanal. O lixo infesta o litoral. Bolsonaro promove a invasão e a expansão de garimpos ilegais nas Terras Indígenas e nas Unidades de Conservação Ambiental. Mas a devastação também se estende à legislação e às políticas públicas.

Lula tem grandes trunfos e fragilidades na questão climática e socioambiental. Entre 2006 e 2012, a queda continuada na taxa de desmatamento na Amazônia foi a maior redução de emissões de gases estufa da história recente. Por outro lado, Lula passou a se lambuzar de petróleo após a descoberta do pré-sal e construiu barragens nos rios Xingu, Tapajós e Madeira.

Corrupção

Claro que a lista dos males que assolam o Brasil poderia prosseguir indefinidamente, dando uma dimensão enciclopédica a esse modesto texto. Mas eu vou concluí-lo dando um trato no tema da corrupção, que teve grande importância na eleição do Bolsonaro em 2018.

As maldades ocorridas nos governos do PT, principalmente em contratos da Petrobrás e da Eletrobrás relativos à exploração do pré-sal e à construção de hidrelétricas na Amazônia, ensejaram a Operação Lava Jato, a prisão do Lula, a queda da Dilma e o fortalecimento da direita, que abriu espaço para a vitória do Bolsonaro.

Porém, a adesão do juíz Sérgio Moro ao governo, com a sua ida para o Ministério da Justiça, deu sentido político a articulações havidas entre ele e procuradores responsáveis pela Lava Jato, levantando suspeitas sobre a isenção dos processos judiciais e à anulação pelo STF das condenações ao Lula, com a sua consequente libertação.

Jair Bolsonaro e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro|Antonio Cruz/Ag. Brasil

Além disso, Bolsonaro praticou estelionato eleitoral, rifando a bandeira da luta contra a corrupção. A queda e o rompimento com Moro são indicativos disso. Assim como o seu casamento com o Centrão, as rachadinhas e as estrepolias imobiliárias da sua família, o orçamento secreto e o afrouxamento da lei sobre a improbabilidade administrativa. Em três anos, Bolsonaro se nivelou ao padrão histórico da resiliente corrupção.

Não há dúvida que a corrupção drena recursos públicos importantes para reforçar a luta contra a miséria e outros males nacionais. Embora haja alguma leniência cultural a respeito, a grande maioria dos brasileiros repudia a corrupção e sabe muito bem quem paga essa conta. Porém, também aos olhos dessa maioria, a miséria se agravou em todas as suas formas, se impondo como prioridade principal e destacando o diferencial do Lula.

Pode ser que as preferências atribuídas pelas pesquisas às pré-candidaturas de Sérgio Moro e de Ciro Gomes sejam representativas, pela direita e pela esquerda, da parcela dos brasileiros que ainda coloca, para 2022, a corrupção como referência principal para a sua definição de voto. Mas eles também serão questionados a respeito, sem contar o tom agressivo da disputa entre eles pelo terceiro lugar nas pesquisas. Tudo indica que o tema perdeu força em relação a 2018.

Futuro próximo

Fica em aberto um conjunto de dúvidas sobre como seria tratada a questão da corrupção num eventual novo governo Lula. Por um lado, se espera que o financiamento público das campanhas eleitorais tenha reduzido a dependência de recursos privados do PT e de outros partidos. Por outro lado, a composição da frente ampla que reconduziria Lula ao poder não recomenda grandes ilusões.

Preocupam as posições assumidas pela bancada do PT no contexto da revanche contra a Lava Jato. A reforma da lei sobre improbidade administrativa foi muito além de corrigir excessos e favoreceu a impunidade. A recondução de Augusto Aras à Procuradoria Geral da República também foi conveniente ao partido. Será que Lula, reconduzido, teria, agora, o seu próprio Aras? Ou Geraldo Brindeiro?

Por outro lado, seria esperável que Lula e o PT tivessem compreendido a extensão do dano histórico causado pelo flanco político aberto pela questão da corrupção. Espera-se, sobretudo, que a sociedade brasileira seja capaz, depois de tanto sofrimento, de desenvolver novos instrumentos e parcerias para controlar o uso dos recursos que lhe pertencem, fundamentais para melhorar a sua qualidade de vida.

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