Terminou ontem o prazo para a realização das convenções partidárias que indicaram candidatos a prefeito, vice e vereador para as eleições de 15/11, nos 5.570 municípios brasileiros. Só não haverá eleições no Distrito Federal. Nas 95 cidades com mais de 200 mil eleitores, poderá haver segundo turno, em 29/11, se nenhum candidato a prefeito tiver mais de 50% dos votos válidos no primeiro.

Serão eleições atípicas diante da persistência da epidemia do novo coronavírus, que impõe várias mudanças para a campanha e a votação, além do seu adiamento por 40 dias em relação à data prevista. Restrições à mobilidade e às aglomerações reforçam o uso da internet, além do rádio e da televisão. Serão flexibilizadas as punições aos que não votarem, sendo provável uma abstenção maior do que nas últimas eleições.

Em termos genéricos, podemos dizer que os prefeitos que disputam a reeleição são favoritos, já que podem adotar medidas administrativas que os favoreçam, além dos demais recursos acessíveis a quem está no poder. E que as restrições de mobilidade e de acesso dos eleitores às urnas poderão favorecê-los ainda mais. Essa tendência deve ser mais forte nos menores municípios, em que não há segundo turno e é maior o peso relativo da máquina pública municipal.

Mas não é este o cenário que prevalece nas 10 maiores cidades, que somam 27 milhões dos 148 milhões de eleitores, e em que a disputa começa embolada, sem francos favoritos. A exceção é Belo Horizonte, onde o atual prefeito, Alexandre Kalil (PSD), aparece com mais de 50% das intenções de voto nas pesquisas disponíveis, enquanto seus adversários têm um dígito só.

Em São Paulo, o atual prefeito, Bruno Covas (PSDB), larga empatado com Celso Russomano  (Republicanos), seguido de perto por Márcio França (PSB) e Guilherme Boulos (PSOL). Deve chegar a 16 o total de candidatos. No Rio de Janeiro, o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) larga à frente de Marcelo Crivella (Republicanos), candidato à reeleição, seguido de perto por Martha Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT). Deve ser 13 o total de candidatos.

A disputa também começa acirrada em Recife, Fortaleza e Porto Alegre. Na capital gaúcha, o prefeito Marchezan Jr. (PSDB) sai na frente, mas é acompanhado de perto por Manuela D’Ávila (PCdoB), José Fortunati (PTB) e Sebastião Melo (MDB). Nas duas capitais nordestinas mencionadas, os atuais prefeitos não podem concorrer à reeleição e os seus candidatos respectivos, João Campos (PSB) e Sarto Nogueira (PDT), enfrentam forte concorrência à esquerda e à direita.

Disputam a reeleição, em vantagem, os prefeitos de Curitiba, Rafael Greca (DEM), e de Manaus, Amazonino Mendes (Podemos). Também largam na frente Bruno Reis (DEM), candidato do prefeito de Salvador, ACM Neto, e Edmilson Rodrigues (PSOL), ex-prefeito que sai com vantagem em Belém. Porém é mais provável que essas disputas tenham segundo turno.

Eleições 2022 e bolsonarismo “centrônico”

São as eleições nas maiores cidades que podem indicar, ou não, tendências para as eleições gerais de 2022. O quadro de indefinições que ainda prevalece, nesse início de campanha, recomenda cautela nas análises, mas algumas variáveis devem ser consideradas nas próximas semanas.

O presidente Jair Bolsonaro deixou o PSL e não conseguiu viabilizar a criação da Aliança pelo Brasil, a tempo dela disputar as eleições desse ano. Chegou a afirmar que pretende evitar tomar partido nas disputas municipais, pelo menos no primeiro turno. Porém andou paparicando Crivella, no Rio, antes da recente denúncia de desvio de recursos públicos em conluio com a Igreja Universal do Reino de Deus e da queda de Wilson Witzel.

Celso Russomano também quer se ancorar no apoio do Bolsonaro para tentar evitar a performance de azarão das duas últimas eleições, quando largou na frente, mas não chegou ao segundo turno. O candidato esteve com o presidente em Brasília, recebeu dele uma espécie de tábua dos dez mandamentos e anda dizendo que tem o seu apoio já no primeiro turno. Dizem que Bolsonaro teria tentado, sem sucesso, melar a candidatura de Joice Hasselmann no PSL para favorecer Russomano.

Proliferam candidaturas de militares e de policiais que pretendem surfar na onda bolsonarista, embora, pelo menos nas maiores cidades, esse fenômeno indique uma tendência de fragmentação dos votos mais à direita. Mas já é o bolsonarismo “centrônico”, e não o “de raiz”, que representa essas candidaturas nessas eleições. Vamos ver se esse mimetismo político confirma-se e que parcela dos eleitores dispõe-se a apoiá-lo.

Votos progressistas

Dois movimentos estão ocorrendo na disputa pelos votos mais progressistas. O PSB e o PDT se coligaram em oito capitais, ensaiando uma aliança para as próximas eleições presidenciais. O PT e o PSOL disputam, renhidamente, os eleitores à esquerda. Vamos ver como eles vão favorecer, ou não, a presença dessas forças no segundo turno.

O PSDB, o PMDB, o DEM e outros partidos, do centro à direita, começam competitivos em várias capitais, apesar da polarização da opinião pública em relação ao governo Bolsonaro. Caso cheguem ao segundo turno, as forças do centro estariam em posição mais favorável para conquistar os votos, à esquerda ou à direita, dos candidatos que ficarem de fora. Pode ser o caso do Bruno Covas, cujo eventual sucesso alavancaria a pretensão presidencial do governador João Dória. Covas acolheu um vice do PMDB, abrindo caminho para uma futura aliança.

As eleições para vereador trazem uma novidade histórica: a proibição de coligações. Espera-se que ela fortaleça o caráter partidário nas representações legislativas, mas, dado o grande número de partidos, poucos alcançarão o quociente eleitoral necessário para eleger vereadores. Uma inutilização de votos, influenciada por esse fator, associada ao esperável aumento da abstenção, poderia afetar a legitimidade das Câmaras Municipais.

Apesar das limitações impostas pela epidemia e da baixa expectativa geral, as eleições municipais começam a ter caras cores e algum sabor. Não há nada que garanta, por antecipação, vitórias do governo ou da oposição, ou de quaisquer posições políticas. As disputas estão em aberto.

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