Profissão possibilita acessos que fazem a pessoa acreditar no discurso da classe dominante e deixar de ver o grupo como classe

“Você é um alienado!”. Nos incomodamos muito com esta afirmação, em especial porque ela direciona que determinado sujeito está desconectado do mundo, pouco informado e não sabe o que está falando.

Alienação, contudo, não é isso. A pessoa pode ser bastante informada e ainda sim, alienada. A ideia de alienação está ligada à divisão social existente em uma sociedade capitalista dividida entre burguesia e proletariado, ou seja, entre os detentores dos meios de produção e aqueles que entregam a força de trabalho.

A palavra está ligada à ideia de “alien”, um corpo estranho, externo, que está literalmente separado de nós. O trabalhador está “alienado”, quando está desconectado do processo de produção ao qual está submetido, não tem vínculos com o produto construído a partir da sua própria força de trabalho, e não se enxerga enquanto classe trabalhadora.

A filósofa e socióloga Agnes Heller, autora da obra “O Cotidiano e a História”, aborda os “grupos de carência radical”, sem acesso aos direitos básicos da vida, onde estão incluídos negros, mulheres, LGBTQIA+, entre outros. Ela diz existir um processo de cada sujeito viver na “particularidade”, alienado fisicamente e politicamente do seu grupo, ou na “individualidade”, como parte deste grupo.

Ocorre que o jornalista passa por dois processos. Alguns profissionais não se enxergam como trabalhadores. Por entrevistarem pessoas famosas, estarem próximas de ricos, viajarem para encontros, acreditam ocupar outro posto na sociedade. Mesmo sem ter nenhum meio de produção e com a vida condicionada à venda da força de trabalho, acreditam não serem proletariados.

Com relação aos grupos descritos por Agnes Heller, cujo avanço está condicionado à luta histórica dos movimentos sociais, alguns de nós podem passar a acreditar que ocupam determinados cargos porque simplesmente são “bons”. É preciso saber que antes de qualquer coisa, a alfabetização, o acesso a determinadas profissões, e mesmo à universidade, foram conquistas coletivas.

A alienação funciona por meio de processos e ideologias. O jornalista, por exemplo, piamente acredita que a sua produção é um reflexo da sociedade e não uma escolha editorial dele e da empresa em que trabalha. Não admite que se ocupa um posto de comando em uma companhia jornalística é porque está em acordo ideológico com o determinado veículo e por isso tem liberdade para escolher o que pautar.

O jornalista então defende com unhas e dentes a ideia de que o trabalho é feito de maneira neutra e imparcial, bandeira bastante agitada durante momentos de tensão política no país. O impacto da cobertura midiática para a criminalização do Partido dos Trabalhadores (PT), dos movimentos sociais e de todas e todos que lutam por justiça social, é entendido por muitos como um processo puramente técnico e fruto da imparcialidade.

Quando profissionais da imprensa corporativa são questionados sobre isso, a resposta costuma ser: “Mas o PT roubou e a gente apenas noticiou”. A imprensa não teve esse mesmo ímpeto na cobertura dos supostos crimes cometidos pelo PSDB em São Paulo. Foram fatos, ações que poderiam ser investigadas. Onde estava o reflexo da sociedade?

No caso de Bolsonaro, há uma ruptura com parte da imprensa. Bolsonaro tem sido investigado e acompanhado pelos veículos da imprensa corporativos, em especial aqueles que foram eleitos como seus inimigos. O atual presidente já colocou em xeque a renovação da concessão à Rede Globo, bem como atacou veículos de mídia, caso da Folha de S. Paulo.

O jornalista, ao abraçar de maneira completa a noção de neutralidade e espelho da sociedade, se aliena do produto-notícia. O profissional deixa de entender o porquê daquela informação, mesmo que a pauta tenha sido de sua sugestão. Ela carrega consigo finalidades políticas, que podem perpetuar ou alterar as desigualdades sociais.

É fundamental que o jornalista se entenda enquanto classe, participe do sindicato, de organizações coletivas de profissionais da área e reflita sobre quais são seus desafios políticos enquanto profissional.

Cabe ao jornalista ser objetivo e técnico, o que exige ouvir diferentes perspectivas sobre o fato, apurar a notícia e não apresentar falcatruas para o público. O profissional também deve decidir se está a serviço dos interesses do grande capital ou dos trabalhadores e grupos excluídos socialmente.

Em uma sociedade completamente desigual como a nossa, cabe ao profissional de mídia fomentar a mudança social, a ruptura com as hierarquias de raça, classe, gênero, sexualidade, entre outras. A informação é poder.

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