Um dos tantos consensos históricos que existem sobre a Segunda Guerra Mundial é que a Batalha de Stalingrado foi decisiva para definir o percurso final do conflito. Simbolicamente, esse conflito foi de extrema importância, e a derrota do implacável exercito nazista nas mãos dos russos ascendeu exponencialmente a esperança dos aliados de que era possivel vencer a guerra em um futuro próximo. A vitória dos russos foi a vitória do trabalho coletivo sobre a prepotência tecnológica. Foi a vitória de um povo pobre, porém, bravo e indômito, por sobre o ímpeto de dominação fascista. Foi talvez a primeira grande e plena vitória da humanidade sobre fascismo. Stalingrado colocou a potência do povo soviético pela primeira vez, frente aos olhos do mundo todo. Seria uma das tantas incursões que fariam da Rússia Soviética uma grande protagonista da geopolítica do século XX.

E, mesmo quando ainda a analogia possa resultar exagerada para alguns, a disputa eleitoral entre Boulos e Bruno Covas pela prefeitura de São Paulo é de uma transcendência simbólica que, atrevo-me a afirmar, roça o paralelismo com a antes citada batalha em campo soviético.  Em tempos de bolsofascismo, Boulos representa em questão de políticas institucionais, tudo o contrário do que representa o discurso oficial do Governo Federal. Boulos é tudo o que o pensamento conservador do cidadão médio detesta, e também representa o que uma grande porção da esquerda tem medo de ser. Boulos, saído de uma família de classe média alta, decidiu morar nas periferias e se misturar com o povo sem teto. E, me fale uma coisa, quem gosta dos sem teto, dos moradores de rua, em um país que venera pastores homofóbicos, misóginos, armamentistas e milionários? Boulos, sem hesitar um segundo, ainda defendeu o ex-presidente Lula na cadeia. Sim, o Lula, o “grande vilão” que a mídia conservadora construiu. No mesmo momento em que muitos militantes e candidatos do PT tiveram que esconder a estrela, o vermelho e o 13 nas camisas e nas pancartas, Boulos abraçava, tirava fotos e ainda invadia o polémico triplex para mostrar o viés falso e ideológico das acusações contra o líder do PT. Boulos é a política do risco, da generosidade, Boulos é o político que todos aqueles que nele forem votar sabem que irá até o fundo, que fará as mudanças substanciais que ninguém poderá ignorar. Boulos vai colocar a periferia (toda periferia) no centro da política institucional da prefeitura de São Paulo.

Bem pelo contrário, Bruno Covas é a direita tradicional que, todos sabemos, se alguma vez tomasse uma atitude radical, seria sempre para o lado do fascismo neoliberal. Bruno Covas, se for um extremista, só poderia ser um extremista de direita. Ele representa os poderosos tradicionais de São Paulo, a grande mídia, a corporação empresarial e o capital financeiro.  Bruno Covas é aquele político tradicional capaz de prometer qualquer coisa e usar qualquer disfarce para chegar no centro da tomada de decisões. Ele não é simplesmente Bruno Covas, ele é a classe social mais privilegiada de São Paulo, condensada por trás da sua figura e imagem, a típica imagem do empresário de terno, amável, sucedido, religioso. Chegou à prefeitura de São Paulo das mãos de nada menos que João Doria. Neste segundo turno, Bruno Covas terá com certeza o apoio de toda a corporação de imprensa, a religiosa, a empresarial e a financeira. É contra isso que se enfrenta Guilherme Boulos, com apenas um celta, uma extraordinária equipe de campanha e a fé e o apoio de toda a juventude progressista da cidade.

O caso da Manuela D’Ávila em Porto Alegre não é muito diferente. A disputa de Manuela também é de uma enorme relevância simbólica, ainda que a cidade de Porto Alegre não seja a capital financeira do país. A Manu, alvo de uma infinidade de fake news e ataques misóginos, representa o empoderamento feminino que vem crescendo de forma exponencial no país e no mundo. A Manu sempre será lembrada por ter sido a convidada mais interrompida no Roda Viva. Com inteligência e charme, ela e Boulos já deram a maior alegria para o campo progressista em 2020. Agora é a hora de toda a esquerda unida fazer seu aporte.

Se você é militante do campo progressista e mora em alguma dessas duas cidades, não perca seu tempo, converse com seus familiares e amigos, peça o voto deles com um presente de natal, um presente de natal que eles estariam fazendo para si mesmo. Você pode começar falando “Pai, mãe, eu nunca pedi nada a vocês… bom, chegou a hora de lhes fazer um pedido muito especial, que teria um valor enorme para mim…” E se você não for morador de lá, ligue para aquele tio chato, aquele amigo que se mudou para estudar ou trabalhar, pergunte se realmente eles querem mais do mesmo, se não gostariam de pelo menos tentar uma coisa diferente, que a vida é curta e vivê-la plenamente é tentar todas as alternativas em todas as áreas. Você e eu sabemos que essas duas prefeituras significam muito para eles, significam muito para nós, e, o melhor de tudo, não temos nada a perder.

Uma derrota em segundo turno de Boulos ou a Manu, continua sendo uma vitória em tempos de estigmatização do campo popular, em tempos em que intelectuais e políticos de esquerda tiveram que fugir do país por causa das ameaças de morte. O progressismo tem muito para celebrar ainda com esses dois quadros tendo se tornado protagonistas nessas eleições municipais. Agora é a hora de ir para cima deles, e mostrar que o povo não é burro e eles não vão nos alimentar para sempre com as fake news, mentiras e terror midiático.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Jorgetânia Ferreira

São Paulo merece Erundina

Bancada Feminista do PSOL

Do #EleNão ao Boulos e Erundina sim!

Fabio Py

Dez motivos para não votar no Crivella: às urnas de luvas!

Dríade Aguiar

Se matarem meu pai no mercado

transpoetas

Mês da Consciência Transnegra

Márcio Santilli

Bolsonaro-Frankenstein: cara de pau, coração de pedra e cabeça-de-bagre

Cleidiana Ramos

O furacão de tristezas que chegou neste 20 de novembro insiste em ficar

Tatiana Barros

Como nasce um hub de inovação que empodera pessoas negras

História Oral

Quando tudo for privatizado, o povo será privado de tudo e o Amapá é prova disso

Fabio Py

Derrotar Crivella para destronar o falso messias

Colunista NINJA

LGBTI+ de direita: precisamos de representatividade acrítica?

Juan Manuel P. Domínguez

São Paulo poderia ser uma Stalingrado eleitoral

Colunista NINJA

A histórica eleição de uma bancada negra em Porto Alegre

Bancada Feminista do PSOL

Três motivos para votar na Bancada Feminista do PSOL

Carina Vitral da Bancada Feminista

Trump derrotado nos Estados Unidos, agora é derrotar o bolsonarismo na eleição de domingo no Brasil