Às vésperas da comemoração do dia mundial do meio ambiente, um crime ambiental foi cometido mais uma vez na Chapada dos Veadeiros por organizações brancas internacionais.

Faço questão em dizer a raça do criminoso para evidenciar o racismo estrutural que assola nossa sociedade, já que o crime aconteceu em território Kalunga, sítio protegido por 1.500 mil famílias negras quilombolas.

Quem teve o privilégio de conhecer a Chapada dos Veadeiros conhece a beleza e abundância do lugar que possui a cachoeira considerada por muitos a mais bela do Brasil por suas águas azuis turquesa e sua vegetação nativa que inclui diversas espécies endêmicas (que só existem naquele lugar do mundo), a cachoeira Santa Bárbara.

Foi na calada da noite e no meio da pandemia da Covid-19 que pessoas que consideram o desmatamento um serviço essencial ao progresso e ao desenvolvimento econômico desmataram 1.000 hectares de cerrado, o equivalente a 1.000 campos de futebol. Vocês conseguem imaginar quantas vidas foram destruídas nesta noite? Quantas espécies vegetais e animais foram mortas?

E pra quê? Qual a intenção deste crime? Plantar soja. Realizar um grande monocultura de soja que provavelmente gerará poucos empregos em sua plantação e sem nenhum valor agregado será exportada para algum país desenvolvido para alimentar o seus animais. Economia burra! Há quem diga que é sinônimo de progresso. Esta atitude além de destruir uma área rica em biodiversidade e com imenso potencial turístico, invadiu o território que por direito é dos Kalungas, povo negro e quilombola que habita este território há séculos de forma sustentável.

Os Kalungas denunciaram e o crime foi evidenciado graças ao compartilhaço de todos os ambientalistas e amantes do cerrado e da Chapada. Com a pressão popular e as denúncias dos órgãos municipais, a secretária estadual do meio ambiente foi até o local e autuou os responsáveis Apoena Mineração e Comércio Ltda. e Maria de Lourdes Hlebanja, em R$ 300 mil reais. Mais uma vez a pressão popular surtiu efeito e o valor irrisório de 300 mil para os criminosos, foi aumentado para R$ 5,4 milhões.

Agora a luta é para adquirir as fazendas Pequi e Alagoas, fazer o reflorestamento imediatamente e garantir que os Kalungas tenham reconhecido seu direito sobre toda a terra. Um total de 261.999 hectares que desde 2009 via decreto da presidência da república é dos Kalungas. Desse total, 54,90% está titulado para a Associação Quilombola Kalunga e as Comunidades de Monte Alegre. Falta ainda o Estado de Goiás transferir três imóveis com área total de 7.842,81 hectares, cujos processos tramitam há mais de 1 ano na Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa). Falta também o INCRA desapropriar uma área de 110.297,33 hectares cujas áreas são de domínio particular. Essa continua a ser a grande luta do povo Kalunga, que vem de longa data. Já são mais de 30 anos de luta.

Existem muitos caminhos e soluções para evitar que essa economia doente continue a devastar nosso cerrado: turismo sustentável, bioeconomia e arte e cultura são apenas alguns exemplo. A Chapada dos Veadeiros é um dos lugares com mais atrativos naturais do Brasil. São mais de 700 cachoeiras. E sabem quantos turistas a Chapada recebe por ano? 79 mil. Um território de 2.400 km2. Sabem quantos turistas vão para Barcelona anualmente? 20 milhões em um território de apenas 101 km2. E vamos combinar que Barcelona é lindo, mas a Chapada, meus amigos… a chapada é pura glória. O Brasil gera de receita com o turismo anulmente 45 bilhões de euro, já a Espanha, que é do tamanho do estado de Minas Gerais gera 92 bilhões de euro, o dobro!

Como disse o senhor Sirilo Santos Rosa, 66 anos, liderança do quilombo Kalunga, “nenhum turista vem aqui atrás de plantação de soja”. O potencial do turismo no Brasil é gigante pela própria natureza, isso sem falar do potencial bioeconômico desse cerrado, um dos biomas mais ricos em biodiversidade do mundo. São mais de 6 mil espécies de árvores e 800, de aves.

Vamos salvar o cerrado? Vamos garantir os direitos dos povos negros quilombolas do Brasil?

O agro não é pop. O agro é branco e criminoso e seus interesses estão sendo muito bem representados pela bancada ruralista na Câmara dos Deputados que totaliza 257 parlamentares. Como são 513 no total, tudo indica que se trata da maior frente no poder. Mas como democracia não é um cheque em branco que entregamos quando votamos, a gente pode e deve cobrar pelos nossos direitos diariamente.

Reflita: o que você pode fazer para ajudar a salvar o cerrado? Não sejamos coniventes com criminosos.

#salve o cerrado

 

 

 

 

 

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

André Barros

Vetos genocidas do Bolsonaro

Boaventura de Sousa Santos

A universidade pós-pandêmica

Juan Manuel P. Domínguez

“O lugar do artista é na luta”. Diálogos de quarentena com Rael

Renata Souza

Stonewall Inn.: orgulhar-se é transgredir

Cleidiana Ramos

O dia em que meu nariz me definiu como negra - notas sobre o racismo à brasileira

Jandira Feghali

Diga-me o que vetas...

afrolatinas

Contato com meu “Eu”

SOM.VC

RAP BR: Murica canta com sede de dignidade em novo álbum produzido por MK

Márcio Santilli

Sociedade civil se levanta contra Bolsonaro mesmo sob isolamento e penúria

André Barros

Operações racistas nas favelas

Colunista NINJA

O vírus e as trabalhadoras sexuais na Guaicurus, em Belo Horizonte

Juan Manuel P. Domínguez

"O DJ é um dos elementos pilares da cultura Hip Hop". Diálogos de quarentena com DJ Erick Jay

Randolfe Rodrigues

O Brasil que queremos no pós-pandemia

Jussara Basso

A cultura na periferia em tempos sombrios

Juan Manuel P. Domínguez

O demônio branco esteve infiltrado nos protestos pela morte de George Floyd