O ainda presidente Jair Bolsonaro vem acumulando insuportáveis reveses. Os “300 do Brasil” e outros grupos neo-fascistas que estiveram acampados em Brasília e contaram com a presença do presidente em várias manifestações de rua, estão sendo desbaratados pela polícia, que já prendeu os seus militantes mais afoitos. O STF decidiu pela legalidade do inquérito e pelo seu prosseguimento até chegar aos financiadores das manifestações contra a democracia. Sob suspeita, deputados bolsonaristas tiveram os sigilos bancários quebrados.

Um rato fugiu do ministério! Muitos ministros foram exonerados nesses quinze meses de governo, mas Abraham Weintraub teve que fugir para os Estados Unidos para ser demitido só após a sua chegada. Receava pela prisão, já que o STF rejeitou o seu pedido para ser excluído do referido inquérito e que ele próprio havia reincidido, ao comparecer à manifestação golpista do dia 14/6 e reiterar acusações contra os ministros do STF. Na verdade, ele não fez mais do que o próprio presidente já havia feito várias vezes, mas o fez quando Bolsonaro já tinha decidido rifar os militantes investigados para tentar salvar a própria pele.

Uma vez demitido, Weintraub perde o foro especial e demais regalias de ministro de estado. Perde, também, o direito de utilizar passaporte diplomático. Ávido por deixar o país para evitar a prisão e com o compromisso do presidente de indicá-lo para uma diretoria do Banco Mundial, Weintraub e Bolsonaro acertaram que a exoneração só seria oficializada após a fuga (não se sabe se nas asas da FAB) e o ingresso de Weintraub nos EUA, ainda com passaporte diplomático. Foi uma fraude, pois a isenção concedida aos portadores desse tipo de passaporte supõe o seu uso em serviço e não para fugir dele. Mas a sua exoneração foi republicada no Diário Oficial da União antecipando a sua data para a véspera, de modo a dispensá-lo da autorização formal para sair do país, que teria de ser publicada antes e não foi. Ao cobrir a fuga de Weintraub perante a lei brasileira, a republicação da sua exoneração o expõe perante a lei americana, pois o seu passaporte diplomático já estaria inválido quando foi apresentado ao entrar nos EUA. A fraude migratória pode gerar consequências.

Certo é que a indicação de Weintraub para uma diretoria do Banco Mundial, com salário anual de 280 mil dólares, o que equivale a um salário mensal acima de 100 mil reais, vai gerar indignação e protestos, e estará sujeita a chuvas e trovoadas. A indicação não é exclusiva do Brasil, mas de um bloco de países a serem representados por essa diretoria, que não foram consultados antes e já demonstram estranheza pela controversa indicação de alguém investigado pela Justiça e que deixou o Brasil na esdrúxula condição de fugitivo governamental. Centenas de personalidades e organizações da sociedade civil brasileira já enviaram às embaixadas desses países um documento pedindo a rejeição de Weintraub.

Outro rato foi preso! Estava informalmente foragido, para evitar a sua intimação pelo ministério público do Rio de Janeiro para depor no inquérito que apura a prática da “rachadinha” na Assembleia Legislativa e, em particular, no gabinete do senador Flávio Bolsonaro, quando era deputado estadual. Essa prática consiste na apropriação pelo parlamentar de parte dos salários dos funcionários contratados no seu gabinete, ou através da sua influência, para constituir uma espécie de caixa 2 e pagar despesas pessoais, de familiares ou relativas à sua atuação política. Sempre utilizada pela família, a “rachadinha” é uma evidência de que os Bolsonaro não são honestos como proclamam.

Fabrício Queiroz não era apenas um funcionário do gabinete do Flávio, mas o operador do caixa 2 da família Bolsonaro. Chocante, no caso, foi o primarismo do presidente, que resolveu escondê-lo do ministério público numa residência, fantasiada de escritório, pertencente ao seu próprio advogado. Queiroz não dispõe de inteligência emocional suficiente para suportar um interrogatório e, ao mesmo tempo, sabe demais sobre os Bolsonaro. Essa circunstância põe em risco a sua vida e também afeta a segurança da sua esposa, foragida, e das suas filhas, envolvidas por ele na operação “rachadinha”.

A circunstância da prisão de Queiroz revelou um terceiro rato. Frederick Wassef, o advogado de Queiroz, que até domingo passado era também o advogado da família Bolsonaro, que o chamam de “Anjo”. Ele reagiu à prisão de Queiroz dizendo que não sabia que Queiroz estava escondido no seu suposto escritório, em Atibaia (SP). Wassef, que esteve, só esse ano, 13 vezes com Bolsonaro (mais que a maioria dos ministros), falou pelos cotovelos com a imprensa, mas se negou a explicar porque Queiroz estava escondido numa propriedade sua. A única coisa que deixou clara foi que estava mentindo. Assim, acumulou a condição de investigado. Foi logo desconstituído como advogado de Bolsonaro, como se fosse possível afastar os ratos dos palácios.

Poderia Wassef se converter num rato-bomba? A princípio, sim. Ele mesmo andou comentando que seria o “homem-bomba” da história e não o Queiroz, pois sabe “de tudo o que tramita na família Bolsonaro”. Porém, enquanto Wassef frequentava palácios nos últimos 15 meses, uma empresa de tecnologia da informação pertencente à sua ex-esposa e sócia, realizou contratos com dez órgãos federais no valor de 41,6 milhões de reais. A empresa afirma que esse valor é o menor que recebe do governo desde 2017, mas o TCU diz que é maior do que obteve durante todo mandato anterior (Dilma + Temer). A empresa também foi anistiada pelo atual governo de uma multa milionária. Wassef também conseguiu contrato para prestar serviços ao consórcio que administra a concessão federal do aeroporto de Viracopos. Pode-se concluir que as chances de Wassef detonar Bolsonaro são inversamente proporcionais ao sucesso desses contratos.

Ao desconstituir Wassef como advogado, Flávio Bolsonaro disse, na cara dura, que o fazia a pedido do próprio, para lhe proporcionar uma saída supostamente honrosa. E anunciou a contratação de Rodrigo Roca, advogado de outro rato, Adriano da Nóbrega, miliciano envolvido no assassinato de Marielle Franco, que foi morto ao resistir a uma operação da polícia da Bahia, quando se encontrava foragido na cidade de Esplanada, no interior daquele estado. Adriano era amigo do Queiroz e da família Bolsonaro. Roca também foi advogado do Sérgio Cabral. Tira dos ratos o seu próprio sustento.

Mas quem já está preso é o próprio Queiróz, pelo que se supõe que seja dele o estopim mais curto. É difícil dizer se ele, solto, estaria mais seguro do que na cadeia. Além de ter sido o principal operador da “rachadinha”, ele também o foi em inúmeros outros “trâmites” extrajudiciais dos Bolsonaro. Isso que explica o seu esconderijo em Atibaia e a montanha de dinheiro vivo de que dispôs para tratamento de saúde, blindagem e outras despesas pessoais. No caso, são agravantes e também potenciais vítimas, a esposa e as filhas.

Fala-se numa possível delação premiada do Queiroz para poupar esposa e filhas. Para Wassef a hipótese pode ser de uma delação despremiada. E Weintraub? Também pode virar rato-bomba caso o seu prêmio de compensação – a diretoria do Banco Mundial – lhe fuja das mãos, ou se complique a sua situação jurídica aqui é lá. O alto custo para Bolsonaro manter os ratos sob controle só tende a crescer.

Os ratos já estavam por aí há tempo. A novidade é que eles ficaram nus e se revelaram a todos. Bolsonaro, a essa altura, já não governa os assuntos candentes no país, mas corre atrás de um pacote gigante de crises e de inquéritos, enquanto o país se afunda na violência, na miséria e na pandemia. Generais, ministros e autoridades jurídicas foram transformados em advogados de porta de cadeia. Quanto mais tempo durar esse desgoverno, maiores serão os danos causados pela epopéia dos bolso-ratos.

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