O Mito Marta e a acomodação brasileira

O Mito Marta e a acomodação brasileira

Por Marina Borges |  Copa FemiNINJA

Foto: FIFA / Divulgação

O Brasil tem a jogadora eleita seis vezes como melhor do mundo, a qual também é a maior artilheira da história da seleção canarinha, ultrapassando Pelé. Nem Cristiano Ronaldo nem Lionel Messi, Marta é a dona desse feito único. A alagoana representa hegemonia mundial tanto entre mulheres quanto homens, e fica cada vez mais difícil dimensionar o que a craque representa pro país, pro mundo e, principalmente, pro futebol feminino. Apesar de desvalorizada, a modalidade atingiu um outro patamar com a presença da brasileira, que vem deixando um legado de força e inspiração para milhares de meninas ao redor do globo.

Da consolidação à idolatria

Quando surge uma atleta como a Marta, o mundo para. Não porque não existem outras jogadoras talentosas, pelo contrário, há muitas “Martas” mundo afora, inclusive em território nacional. Porém, sobreviver do futebol feminino e conseguir se destacar por meio dele é tão raro que, quando acontece, caracteriza-se como um fenômeno. O Brasil ama a jogadora seis vezes eleita melhor do mundo, mas parece não querer ver outras figuras femininas no topo, simbolizando o sexo forte e não o frágil, que acompanhou as mulheres por tanto tempo. Este é um ponto a ser destacado: é muito importante ver jogadoras de futebol ganhando espaço, virando ídolas e se consolidando em um meio tão machista, mas, por outro lado, a falta de renovação no elenco é algo que persegue a seleção brasileira há um bom tempo e retarda o processo de desenvolvimento da modalidade.

Os reflexos de um ciclo vicioso

Formiga, Marta e Cristiane: para muitos, a tríade perfeita. Realmente, o Brasil tem o privilégio de poder contar com esse trio experiente e de extremo poderio técnico durante tantos anos. Entretanto, essa situação aponta para um agravante dentro da seleção: a falta de renovação no elenco como consequência de um ciclo vicioso.

A convocação para o Mundial deste ano trouxe ‘caras novas’, mas também mostrou a dependência que sofremos de craques antigas. O esforço que a Marta vem fazendo para se recuperar de uma lesão muscular na coxa esquerda, às pressas, ilustra essa situação. Para poder compor o time que enfrentará a Jamaica na estreia da Copa do Mundo, a camisa dez está submetendo a várias sessões diárias de fisioterapia. Obviamente, quando se tem atletas desse porte no time, há o desejo de poder contar sempre com eles, porém, a questão tem que ser analisada de forma mais profunda.

Foto: Raphael Alves | AFP

Se a equipe brasileira  tivesse tido uma renovação nas peças do time ao longo dos anos, Marta poderia respeitar seus limites físicos e até ser poupada no primeiro jogo, caso não estivesse 100%. No entanto, a presença da alagoana é mais que desejável, é imprescindível o que evidencia o quadro preocupante que vive a seleção canarinha.

O Brasil se deu ao luxo de abrir mão do investimento em novos talentos e da consolidação de novas peças-chave ao longo da última década e vem sentindo o impacto que essas ações estão gerando. Agora, não é mais possível fechar os olhos para um fato: o trio brasileiro já consagrado jogará sua última Copa junto neste ano e, mais do que só questionar, a pergunta “o que será da seleção brasileira sem Formiga, Marta e Cristiane?” tem que ser respondida. Por meio de atitudes que impulsionem o desenvolvimento do futebol feminino desde a base até a categoria adulta, a modalidade poderá colher frutos num futuro não muito distante e passar a ser mundialmente reconhecida e valorizada.

Como é ser uma mulher num estádio

Como é ser uma mulher num estádio

Por Laiz Marques | Copa FemiNINJA

Foto: reprodução twitter

Para as fissuradas e apaixonadas por futebol, ir ao estádio é um prazer difícil de explicar. A emoção já começa na ida ao estádio, a espera do lado de fora, até a alegria de ver uma vitória do seu time de coração, ou mesmo presenciar uma derrota.

O futebol é aquele esporte que esta diretamente ligado a paixão, emoção. Esse amor pelo esporte e as emoções que ele inspira, explica a origem do verbo torcer. A ação que melhor define o espírito do futebol tem sua origem exatamente nas mulheres.

No inicio do século 20, as moças que ficavam nas arquibancadas assistindo aos jogos de futebol, “torciam” seus lenços de nervoso. Essa passagem deixa claro como o esporte era elitizado na época, mas ressalta acima de tudo a maneira como as mulheres sempre se entregavam ao esporte. Sem esquecer logicamente que enfrentavam desde então a resistência de muitos para se fazerem presentes nas arquibancadas.

Um importante passo, para nós torcedoras, começou a tomar mais força no ano passado. Alguns clubes começaram a aderir a campanhas de combate à violência contra a mulher e contra o machismo. Com a intenção de enfatizar a importância das mulheres dentro e fora de campo, além de frisar seu valor como torcida e assim promover o aumento da presença feminina nos estádios. Essas campanhas tem sido presentes em clubes de diferentes estados do país.

Em 2018 as torcedoras do Grêmio e do Inter, levantaram a bandeira de que o “lugar de mulher é no campo, na arquibancada e onde mais ela quiser estar”; por meio da hashtag #deixaelatorcer pediam respeito às mulheres nos estádios.

Na cidade de São Paulo, o Corinthians, e sua campanha #RespeitaAsMinas também lançada em 2018 rendeu um programa que é exibido no canal da Corinthians TV toda sexta-feira, às 17h00.

Já nesse ano de 2019, no dia Internacional da Mulher, uma série de ações foram realizadas no mercado esportivo no Brasil e no mundo.

Em Minas Gerais, a equipe do Atlético Mineiro realizou no Mineirão uma campanha #repense. Encabeçado pelas funcionárias do Mineirão, a campanha tem o objetivo incentivar a luta das mulheres pelo combate ao preconceito, tornando o estádio um ambiente mais agradável e seguro para nós.

Números levantados em 2018 mostram a presença das torcedoras nos programas de fidelidade dos times. Comprovando que as mulheres se fazem presentes nos estádios, mas ainda há um bom caminho a ser percorrido na busca pela igualdade. Os resultados apresentados são os seguintes :

Atlético-MG: 9%
Botafogo: 10%
Corinthians: 20%
Cruzeiro: 10%
Flamengo: 8%
Fluminense 15%
Palmeiras: 12%
Santos: 17,5%
São Paulo: 10%
Vasco: 7%

Ainda hoje, no cenário mundial, há países onde as mulheres não tem o direito de frequentarem os estádios. No Irã, por exemplo, as mulheres foram vetadas desde 1981 de frequentarem os estádios, a interdição é um reflexo pós a revolução de 1979, que instituiu uma legislação islâmica ultraconservadora no país.

Um grande feito para as iranianas ocorreu ano passado, quando as autoridades locais liberaram as mulheres para assistirem a partida entre Irã e Espanha, pelo grupo B da Copa do Mundo, em um telão transmitido no Azadí, em Teerã.

Seguimos resistindo e lutando pela quebra de antigos preconceitos, para que nós torcedoras, que amamos nosso time, sejamos respeitadas, e possamos viver livremente a paixão pelo futebol.

Da arquibancada: As torcidas organizadas femininas

Da arquibancada: As torcidas organizadas femininas

Por Gabriella Brizotti | Copa FemiNINJA

Foto: Larissa Zaidan

Infelizmente o futebol ainda é um esporte machista, no qual dentro das quatro linhas, ou mesmo nas arquibancadas, nós mulheres devemos provar que o espaço é nosso também. Em ano de Copa do Mundo feminina, o assunto mulher e futebol fica mais em alta, afinal é a hora das garota ganharem o reconhecimento necessário e merecido, porém sabemos que não é isso que acontece. Uma das grandes conquistas desse torneio é a transmissão em grande rede nacional, fazendo com que mais pessoas acompanhem os jogos e torçam por nossa seleção.

Se dentro do campo as conquistas vão aparecendo, na bancada também temos avanços, como por exemplo o aumento do público feminino que frequenta estádios –  Uma pesquisa do IBOPE sobre a quantidade de torcedores aponta que, em 2003, cerca de 50% da torcida corinthiana, por exemplo, já era composta de mulheres. Por consequência disso, há também o surgimento de torcidas e movimentos organizados só por mulheres. 

Tais alianças femininas tem o intuito de ocupar o espaço que é majoritariamente masculino, lutar por igualdade, aumentar a produção e venda de produto feminino pelas marcas esportivas e também criar uma união entre as meninas que curtem futebol.

Em todo o Brasil já são inúmeros os movimentos, dentre eles estão Coletivo INTERfeminista, do Internacional, Movimento Alvinegras – Corinthians; São Pra Elas – São Paulo FC; Verdonnas – Palmeiras; Bancada das Sereias – Santos FC; Movimento Coralina – Santa Cruz e Mulherada Problema – Atlético PR.

Motivação

As motivações para a criação desses movimentos são variadas, alguns surgiram após episódios de machismo e rivalidade, como é o caso do movimento Verdonnas, por exemplo. Após um episódio no metrô paulista em 2018, em que torcedoras do Palmeiras foram expulsas de um vagão por homens de um time rival, somente por estarem uniformizadas com o time do coração. Se viu então necessário a criação de um movimento que representasse todas as palmeirenses.

Há também a motivação por luta de igualdade, como por exemplo a São Pra Elas, que surgiu após perceberem que não havia grande número de material esportivo feminino, contrastando com os materiais masculinos. Na briga pela equidade, a união das São Paulinas se tornou mais forte e foi criado então o movimento em questão.

Combate ao machismo

Na conversa com representantes dos movimentos, todas citaram episódios de machismo que vivenciaram, como conta o Verdonnas: “A mulher ainda é vista por muitos como acompanhante de namorado, como “maria chuteira” ou como alguém que está no estádio para embelezar o ambiente, e por causa dessa visão já passamos por cantadas desrespeitosas, assédio, e nossa opinião algumas vezes ainda é menosprezada porque, segundo alguns homens, não temos propriedade para falar, não entendemos sobre o assunto. Sendo que a única coisa que buscamos é igualdade, estamos no estádio pra torcer por nosso time do coração como qualquer outra pessoa”.

A opinião é compartilhada pela representante do São Pra Elas “Houve uma evolução mas ainda tem muita coisa pra mudar. Ouvimos incansavelmente que após sofrer um assédio, o principal deles verbal, que se estivéssemos em casa não teríamos passado por isso”. Você pode ler mais sobre a torcida feminina do  estado de São Paulo na matéria “Mulher Organizadas” da Vice.

Quero fazer parte, como faço?

Estar em uma torcida é como encontrar uma extensão da sua família. Vide o primeiro encontro dos grupos, realizado em 2017. E para se juntar a uma delas, basta entrar em contato com os movimentos por meio de suas redes sociais e pedir para fazer parte dos grupos de torcedoras. Não é necessário viver na cidade original do seu clube, mas para o próximo jogo que se planejar, você já tem companhia.

 

Como está o futebol feminino no mundo?

Como está o futebol feminino no mundo?

Por Laiz Marques | Copa FemiNINJA

Foto: Divulgação

Neste ano, no dia 7 de junho, em Paris, o futebol feminino dará mais um passo na luta pelo seu reconhecimento. A Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019 terá uma importância enorme para uma maior visibilidade da modalidade. Repleto de primeiras vezes, para diferentes nações, esse mundial será histórico.

É importante lembrar que a importância das mulheres para o desenvolvimento e evolução do futebol vem de muito antes.

Os primeiros indícios datam do período da Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.) onde as mulheres jogavam uma variação de um antigo jogo chamado de TSU Chu.

Há outros relatos que indicam que, na França e na Escócia em torno do século XV, já era normal ver as mulheres realizando alguns jogos e atividades com bola.

De acordo com informações da FIFA, a primeira partida oficial entre mulheres aconteceu em Londres – Inglaterra no dia 23 de março de 1885. O evento causou tumulto e protestos, mas começou a contribuir por igualdade de direito entre homens e mulheres.

O futebol feminino possui uma realidade completamente diferente do futebol masculino em diversos aspectos. Essas disparidades estão presentes desde as condições de treinamento e estrutura, até aos salários e patrocínios.

No Brasil por exemplo, o futebol feminino ainda precisa de mais visibilidade na mídia, incentivos, patrocínios e de apoios.

Fatores de caráter cultural e político, nos ajudam a entender essa situação.

Segundo relatos do livro “Futebol, Carnaval e Capoeira – Entre as gingas do corpo brasileiro”, de Heloísa Bruhns, no fim do século XIX os homens da elite brasileira começaram a jogar futebol, porém as mulheres que o praticavam pertenciam às classes menos favorecidas; e por isso eram vistas como grosseiras, pois as mulheres da elite frequentavam os jogos apenas para torcer.

A primeira partida de futebol feminino no Brasil data de 1921, em um jogo realizado entre senhoras dos bairros Tremembé e Cantareira, localizados na zona norte da cidade de São Paulo.

Além do mais, a prática do futebol pelas mulheres foi proibida durante 42 anos.

No dia 14 de abril de 1941, por meio do Decreto-Lei 3199, imposto durante o governo de Getúlio Vargas, as mulheres estavam proibidas de praticar qualquer esporte que fosse “contra a sua natureza”. Alegando preservar o corpo feminino, pois através desses esportes de impacto, a mulher corria o risco de ficar infértil. O decreto foi revogado apenas em 1979.

Porém, a regulamentação da categoria feminina de futebol só foi realizada quatro anos depois. Ao invés de trazer condições melhores às mulheres, as regras ainda reforçavam a ideia da mulher como sexo frágil. A bola utilizada nos jogos seria mais leve, e as partidas teriam duração de 60 minutos ao invés de 90 minutos. Já a seleção brasileira de futebol feminino foi montada em 1988, 70 anos após a criação da seleção masculina.

A CBF fez a primeira edição do Campeonato Brasileiro Feminino em 2013, contando com 20 equipes.Em 2017 a confederação alterou a formato da competição. Dividiu em Série A1 com 16 equipes e outras 16 equipes na Série A2, fazendo o acesso e rebaixamento entre as duas divisões.

A edição de 2019 será a maior de todas, contando com 16 equipes na Série A1, com clubes como Flamengo, Corinthians e Santos. Já a Série A2 terá 32 equipes, com times com Palmeiras, Vasco e Cruzeiro.

Uma importante decisão da Conmebol (entidade que comanda o futebol da América do Sul) determina que todos os clubes classificados à Copa Libertadores masculina a partir de 2019, precisarão apresentar uma equipe de futebol feminino; caso contrário serão eliminadas da competição.

O ano de 2019 trará outro avanço na popularização e divulgação do futebol feminino no Brasil. A Band, canal de TV aberta, irá transmitir o Campeonato Brasileiro feminino de 2019. E durante a Copa do Mundo de 2019 será a primeira vez que a maior emissora de canal aberto do país, a Rede Globo, transmitirá as partidas da Seleção Feminina. Assim como será também a primeira vez que as atletas jogarão com um uniforme desenvolvido especialmente para elas.

Pelo mundo

Já nos Estados Unidos o futebol feminino é mais desenvolvido e popular do que o futebol masculino, que começou a ter mais destaque nos últimos anos.

As americanas iniciam os treinos durante a infância, por volta dos 9 anos de idade. Vale destacar que a estrutura e suporte oferecidos às equipes na NWSL são excelentes.

A NWSL começa em abril e termina em setembro. E apenas 10 times participam do campeonato, eles estão: Boston Breakers, Chicago Red Stars, FC Kansas City, Houston Dash, North Carolina Courage, Orlando Pride, Portland Thorns, Seattle Reign, Sky Blue e Washington Spirit. No torneio não existe o sistema de rebaixamento ou acesso.

Falando de um pais próximo aos Estados Unidos, essa Copa do Mundo de 2019 terá um gostinho especial para a Seleção Feminina da Jamaica, as “Reggae Girlz”, como são conhecidas, que disputarão pela primeira vez o Mundial. Será o primeiro país caribenho a disputar essa competição.

O feito só se tornou possível graças a ajuda de Cedella Marley, a filha do Bob Marley, por meio do patrocínio da Fundação Bob Marley.

Já na Europa o futebol feminino vêm se fortalecendo e ganhando destaque em diferentes países. Os jogos de futebol feminino têm sido um grande atrativo na Europa, obtendo recordes de público em diferentes países.

Durante o jogo do Campeonato Italiano desse ano, o jogo entre as equipes do Juventus x Fiorentina, no dia 24 de março de 2019, alcançou um publico de 39 mil pessoas (o estádio suporta 41.507 pessoas).

Na França, pela 20ª rodada do Campeonato Francês 25.907 torcedores foram ao estádio Groupama, para conferir a goleada de 5×0 do Lyon sobre o Paris Saint-Germain.

Mas o maior público foi registrado na Espanha, no jogo entre o Atlético de Madri e o Barcelona no estádio Wanda Metropolitanos (com capacidade para 67.829 pessoas), que reuniu 60.739 pessoas no público.

Ainda no cenário europeu do futebol feminino, a França, país que sediará a Copa do Mundo de 2019 entre 7 de junho e 7 de julho, possui o time mais badalado do mundo, o Lyon e sua OL Academy, grande referência do futebol feminino na França e atual campeãoo da Champions League feminina. O clube se tornou uma potência na ultima década, conquistando 6 titulos da Champions League Feminina, o ultimo título veio em maio desse ano contra o Barcelona. A maior estrela do time e atual Bola de Ouro, a Norueguesa Ada Hegerberg marcou um hat-trick, garantindo a taça ao time francês numa vitoria por 4×1.

O Lyon reafirma a qualidade de seu trabalho entre as mulheres, e o investimento do clube é inegável.

O número de clubes franceses que apresentam uma equipe feminina dobrou nos últimos sete anos, o número atual está em torno de 3 mil equipes. Contudo, segundo análise da Federação Francesa de Futebol, ainda há margem para melhora, principalmente nas categorias de base, que apresentam atrasos quando comparadas a das equipes de futebol masculino.

A Noruega também apresenta uma estrutura adequada para as jogadoras, os times oferecem excelentes locais de treinamento, bons salários e a torcida realmente valoriza o futebol feminino. A Toppserien é a primeira divisão do futebol feminino norueguês e é composto por 12 times. O campeonato possui 22 rodadas e vai de abril até outubro.

Mudando de continente, temos na Coréia do Sul a WK League, onde somente 8 times participam. Times como: Incheon Hyundai Steel Red Angels, Icheon Daekyo, Gyeongju WFC, Seul, Boeun Sangmu, Suwon Facilities Management Corporation, Hwacheon Korea Sports Promotion Foundation e Gumi Sportstoto. Como o WK League é a única liga do país, não existe o sistema de rebaixamento ou acesso. No país o futebol feminino é bastante valorizado. Os clubes apresentam excelentes estruturas, treinos disciplinados e bons salários.

Uma curiosidade recente é a criação do primeiro time de futebol feminino do Vaticano. A equipe é formada em sua maioria por atletas amadoras que trabalham na sede da igreja Católica. As jogadoras do Vaticano realizaram seu primeiro jogo dia 26 de maio contra a equipe de Roma.

Notamos que investimentos e apoio são fundamentais para o desenvolvimento do futebol feminino no mundo. A estrutura oferecida para a prática do esporte em países da América do Norte, Ásia e Europa, estão à frente das encontradas na América do Sul.

No Museu do Futebol em São Paulo, vai rolar o até o dia 20 de outubro a mostra Contra Ataque, que relata com detalhes a história das minas no futebol.  A exposição pretende vislumbrar um olhar para o futuro da modalidade, além de fazer o público valorizar a história.

Seguimos resistindo, na luta pela mudança de antigos padrões e preconceitos. Empoderando as meninas na prática do esporte e afirmando que o lugar das mulheres é onde elas quiserem.

Impedidas – A Proibição do futebol feminino no Brasil

Impedidas – A Proibição do futebol feminino no Brasil

Por Beatriz Santos | Copa FemiNINJA

Barreira, cartão vermelho, impedimento, escanteio, cobrança são apenas algumas das palavras que fazem parte do cotidiano de qualquer pessoa inserida no mundo do futebol, seja por motivos profissionais, por entretenimento ou ambos. Mas a história que tenho para contar vai muito além do simples uso em uma partida de um campeonato qualquer, pois quero falar da barreira do preconceito, que toda mulher tem que derrubar quando foge do clichê do brincar de boneca/casinha para poder jogar bola na rua. Quero falar também do cartão vermelho, que Getúlio Vargas decretou ao impedir as mulheres de praticarem esportes. Isso fez com que a história desportiva das mulheres ficasse por anos de escanteio, de lado, e hoje, enquanto as mulheres lutam para escreverem uma bela história, elas precisam ainda ouvir cobranças de homens que não conseguem aceitar que o futebol não tem só um jeito de jogar. Então, vamos “Jogar como garotas?”

Se você for procurar no Google: Qual foi a primeira partida de futebol no Brasil? De cara, vai aparecer o ano, quais eram os times, quanto foi o placar e quem fez os gols. Se não der todas essas informações vai chegar bem perto, ou até mesmo vai dar mais de uma versão para o acontecimento. Fato é que vai ser bem tranquilo ter suas dúvidas sanadas, mas o que mais me deixa indignada é que o que vai aparecer será com certeza uma informação do futebol masculino. É pior ainda para encontrar sobre a história do futebol feminino no Brasil, vai demandar um bom tempo do seu dia. E mesmo com todo o tempo do mundo, eu te garanto que você ainda não vai conseguir saciar todas as suas curiosidades, pois mesmo após ler artigos acadêmicos, as informações estão bem nas sombras do conhecimento da história desportiva brasileira.

Se hoje, o futebol feminino brasileiro está bem atrasado com relação a países como Estados Unidos, Alemanha e França, isso se dá por que até pouco tempo as mulheres eram proibidas de praticar esportes, entre eles o futebol. Durante o Estado Novo, no governo Vargas (1937-1945), foi criado o decreto 3.199 em 1941, que proibia às mulheres a prática de esportes considerados incompatíveis com as condições biológicas femininas,  e dentre os esportes proibidos estavam, além do futebol, halterofilismo, beisebol e todas as modalidades de luta.

Na época, o discurso que mais se ouvia era o de que praticar atividades físicas, como o futebol, poderia deformar o corpo da mulher e trazer possíveis complicações quando fosse engravidar. Traduzindo, a mulher era apenas um órgão reprodutor, alguém sem desejos próprios, alguém com um único propósito dar um herdeiro para a sociedade. Nada mais normal, do que em uma sociedade patriarcal, esse discurso ser repetido para que os interesses do status quo fosse resguardado. Esse decreto só foi revogado 38 anos mais tarde, no ano de 1979 e o futebol feminino foi regulamentado quatros anos mais tarde, em 1983.

No artigo, “As narrativas sobre o futebol feminino: O discurso da mídia impressa em campo”, as autoras contam que durante as décadas de 70 e início de 1980, o futebol feminino começa a ganhar seu espaço na mídia, mas com uma abordagem totalmente preconceituosa, como essa manchete: O futebol depois da louça lavada. O texto também relata que os times de futebol de praia da época reuniam as garotas de classe média do bairro de Copacabana. Elas tinham como público seus namorados e tinham como companheiras de futebol suas empregadas domésticas, que depois do trabalho, se juntavam para bater bola.

Nos anos 80 e 90, as mulheres passam a poder praticar esportes legalmente e é também nesse período que a mídia esportiva trabalha na desmitificação da imagem masculinizada do ser esportista. É partir daí que começa o uso da beleza como um recurso midiático para atrair público ao futebol feminino. Esse discurso estético acabava colocando em dúvida a qualidade técnica das jogadoras.

As jogadoras foram da proibição ao status de produto em questão de pouco tempo e teriam que, como toda mulher, enfrentar o padrão estético social.

Na metade dos anos 90, para ser mais exata em 1995, o Joseph Blatter, que na época era secretário-geral da FIFA, discursou que por volta de 2010 o futebol feminino seria tão importante quanto o futebol masculino. Esse relato se dava por conta do crescimento do futebol feminino pelo mundo, a partir dos anos 80, mas não é o que vemos. Mesmo no mundo, o status do futebol feminino está ainda bem abaixo do masculino seja por visibilidade midiática, seja por ligas, campeonatos ou salários.

No Brasil, se hoje temos um campeonato brasileiro de futebol feminino, é pela obrigação imposta para todos os clubes de futebol da Série A: a exigência feita pela CBF a todos os clubes da principal divisão nacional de manter um time feminino de base e adulto. Como tinham que ter um time feminino para ontem, muitos times fizeram parcerias, por exemplo o Flamengo e Atlético PR, pegando uma estrutura já existente da Marinha do Brasil e do Foz Cataratas, respectivamente, arcando apenas com uniformes e estádio para mandar os jogos. Vale ressaltar, que dos 20 clubes, apenas 4 pagam salários: Santos, Corinthians, Grêmio e Internacional, de acordo com uma pesquisa de uma matéria do Globo Esporte do início do ano.

Chegamos em 2019, pela primeira vez a Copa do Mundo de futebol feminino consegue seu merecido espaço na grade do jornalismo esportivo com a transmissão de todas as partidas da competição. Todos os 52 confrontos serão transmitidos no Sportv, ainda vai ter uma jogada multiplataforma com os jogos da seleção brasileira no globoesporte.com com informações exclusivas do mundial. Terá uma equipe no local, ainda que humilde comparado a cobertura do futebol masculino, composta por Carol Barcellos, Lizandra Trindade, Raphael de Angeli e Guido Nunes.

Anteriormente, a única edição transmitida no Brasil foi a Copa de 2015, o que deixa bem evidente o recente interesse da mídia em dar espaço para o futebol feminino, já que o evento mundial acontece desde de 1991 e somente nos últimos três anos se abriu os olhos para elas.

A seleção brasileira feminina tem em sua história sete conquistas de Copa América, três pan-americanos e seu melhor resultado na Copa do Mundo foi em 2007, quando chegaram pela primeira vez em uma final e perderam para a seleção alemã por 2×0. Além de terem chegado a duas finais olímpicas em 2004 e 2008, conseguindo a medalha de prata em ambas edições. Como destaque da seleção atual e da história temos a Formiga, com mais de 150 participações com a camisa canarinha e a Marta, com 117 em 133 jogos vestindo o manto verde e amarelo. Ah, detalhe Marta foi 6 vezes eleita a maior jogadora do mundo pela FIFA. E só ela foi capaz de tal feito.

Essa é uma parte da história, que ousei contar, da nossa seleção de futebol feminino. De dribles que extrapolam as quatro linhas, pois a partida delas começa assim que acorda.
Jogue, lute, como uma garota!

Técnicas do Futebol Feminino no Mundo

Técnicas do Futebol Feminino no Mundo

Victória Amaro | Copa FemiNINJA

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Ano passado a FIFA divulgou a lista dos dez melhores técnicos de futebol da temporada (2018), e apenas o nome de quatro mulheres estavam presentes: Martina Voss-Tecklenburg, Sarina Wiegman, Asako Takakura e Emma Hayes.

Martina é técnica da seleção da Alemanha Feminino, e ficou conhecida por levar pela primeira vez as meninas da seleção da Suíça para a Copa de 2015 e logo após para a Eurocopa em 2017.

Sarina é técnica da Holanda, que levou a equipe a um feito histórico e inédito: foram campeãs invictas da Eurocopa 2017. Wiegman começou sua trajetória pela seleção em 2014 como assistente técnica e em 2016, recebeu a licença da UEFA para atuar como técnica.

Asako Takakura é técnica da seleção japonesa e a atual campeã da Copa Asiática Feminina. Primeira mulher a conquistar títulos a frente da seleção sub-17, sub-20 e principal.  Emma Hayes, técnica do Chelsea Ladies, é a única das mulheres citadas que comanda um clube e vem vencendo títulos importantes desde que chegou ao cargo como o campeonato inglês e a copa da liga inglesa. Além disso, levou as meninas dois anos consecutivos para as semifinais da Champions feminina.

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Por incrível que pareça, mesmo sendo a modalidade do gênero feminino, os homens ainda estão em maioria, e o pior é a insignificância com que eles tratam as mulheres quando estão em um cargo que eles pensam que somente eles podem ocupar. Pia Sunhage, uma das técnicas mais vitoriosas do mundo pelo futebol feminino, por exemplo, nunca foi convidada para treinar uma equipe masculina, feito esse que poucas mulheres conseguiram exercer. Apenas Patrizia Panico, ex-jogadora da seleção italiana, foi convidada para comandar o sub-16 da equipe masculina italiana em 2017. Corinnee Diacre foi a primeira mulher na França a comandar uma equipe masculina, o Clermont Foot que em 2014 que estava na segunda divisão. No Brasil, temos o caso mais conhecido de Nilmara Alves, técnica do Manthiqueira, que comandou o time na quarta divisão do campeonato paulista do ano passado.

No Brasil, em 2016, a CBF anunciou Emily Lima, que entrou para a história como a primeira mulher a comandar nossa seleção. Infelizmente ela durou somente 10 meses no cargo após uma sequência de derrotas, e algumas jogadoras indignadas com a forma que Emily foi demitida pela confederação resolveram não jogar mais pela seleção. No seu lugar, houve o retorno de Vadão, atual técnico, que faz sua segunda passagem no comando. Antes de sua primeira passagem, Vadão nunca tinha trabalhado com o futebol feminino.

O que é de se questionar são os números que levaram a demissão de Emily e o tempo de trabalho que ela teve no comparativo com os números que o técnico possuí hoje. O time obteve nove derrotas seguidas em competições e amistosos preparatórios para a Copa do Mundo, fazendo modificações pífias nas posições das jogadoras no decorrer de algumas partidas e sem uma transição da defesa para o ataque.

Infelizmente não será nesta Copa que veremos igualdade ou soberania do gênero feminino no comando, pois dentre as 24 seleções somente 8 terão técnicas mulheres, mas mesmo assim não deixaremos de prestigiar uma competição feminina que tem tudo para crescer nos próximos anos.

Assistam a Copa do Mundo! Tem tudo para ser uma das melhores Copas. A fase de grupos promete com grandes jogos como França x Noruega pelo grupo A. As atletas, técnicas e torcedoras do futebol feminino merecem a devida visibilidade!

História do futebol feminino do Corinthians

História do futebol feminino do Corinthians

Por Larissa Alcantara | Copa FemiNINJA

Foto: Bruno Teixeira/ Ag. Corinthians

Um dos principais clubes do Brasil, o Sport Club Corinthians Paulista, fundado em 1910, carrega em sua jornada 54 títulos oficiais pelo elenco masculino, tendo como maiores conquistas dois campeonatos mundiais. Porém, mesmo tendo uma longa história, só em 2016 que o clube alvinegro passou a ter um time feminino que o representasse. E essa talvez tenha sido, entre tantos títulos, uma das maiores conquistas proporcionadas: a representatividade feminina em campo.

O surgimento do time em 2016 ocorreu através de uma parceria com o Grêmio Osasco Audax, e foram duas temporadas jogando pelos dois clubes. Nesse período, elas conquistaram a Copa do Brasil em 2016 e em 2017 ganharam a Copa Libertadores da América. Com o fim da parceria em 2018, o time passou a ter uma gestão própria e com o comando do técnico Arthur Elias conquistaram o Campeonato Brasileiro de 2018

No início de 2019 o clube criou o sub-17, onde as garotas estão sob o treinamento da ex-jogadora Daniela Alves, que participou de 3 olimpíadas e 2 mundiais pela seleção. É possível notar que o trabalho de base no futebol feminino ainda é falho no Brasil, no caso do Corinthians por exemplo ainda falta criar o sub-11. Essa ausência das categorias de base nos clubes não proporciona um desenvolvimento técnico completo das jovens atletas, que pode refletir de maneira negativa no futuro profissional.

Mas mesmo que o futebol feminino do Corinthians possua 3 anos de existência e o trabalho de base ainda esteja em um processo inicial, o alvinegro emplacou jogadoras no elenco da seleção brasileira para Copa do Mundo Feminina 2019. As escaladas para representar o país foram Leticia Izidoro (goleira), Érika Cristiano (zagueira) e Mônica Hickmann (zagueira). Também foi convocada a atacante Adriana Leal, que infelizmente sofreu uma lesão no joelho esquerdo e acabou sendo cortada da seleção.

Campanhas de incentivo

Em abril de 2018 o Corinthians lançou a campanha #CaleoPreconceito, o objetivo era atrair patrocinadores para o elenco feminino e a estratégia para alcançar isso foi estampar frases machistas nas camisas. As frases foram retiradas de comentários feitos nas redes sociais do clube, entre as selecionadas estão os comentários: “Mulher é na cozinha e não jogando futebol” e “Futebol feminino só vai ser bom quando acabar”.

Recentemente, no início de 2019, o clube mudou a partida do campeonato brasileiro que ocorreria no Parque São Jorge para o Pacaembu. A ideia por trás de tal mudança era atrair mais torcida e juntamente com a Nike, o clube usou da campanha #UmSóCorinthians para demonstrar a importância do futebol feminino para a fiel.