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Olhando em retrospectiva, a primeira visão de nações que enfrentam processos inflacionários recorrentes ,crise cambial e incapacidade de alterar esta inércia é de recorrer a teoria da dolarização como antídoto. Em nosso continente se apresentam dois exemplos de desequilíbrio econômico mas com características diferentes: Argentina e Venezuela.

É importante ter em mente que a grave crise econômica pelo lado argentino tem razões ligadas a politicas de desregulação cambial e financeira. quando se discute a Venezuela, se aclara o reflexo do inconsistência do fluxo da renda petroleira, de uma sociedade partida e uma guerra econômica aplicada pelo capital financeiro representada por países líderes mundiais.

A Argentina depois de implementar as medidas neoliberais de abertura das importações, livre circulação de moedas e acentuado processo de privatização e desnacionalização viu sua liquidez esvair-se. O peso que no final do governo Cristina Kirchner (12/2015) tinha proporção de 9,5 para um dólar, saltou para 31 para um, pulando 226%. As reservas cambiais diminuíram para US$ 55,07 bilhões (bcra.gov.ar) computado um aporte do FMI de US$50 bilhões. A inflação anualizada chegou ao patamar de 35% para uma taxa básica de juros(LEBACS) de 45% a.a. embora se projete para 60%.

No sentido de ilustrar sua trajetória, a Venezuela sofre de uma guerra híbrida contra seu Estado e suas instituições como a petroleira PDVSA que representa 90% da economia. EUA e a União Europeia impedem qualquer ajuda do sistema financeiro internacional, incluso FMI, Banco Mundial e instituições de crédito privado. Esta realidade na prática inviabiliza qualquer ferramenta que possa financiar projetos de desenvolvimento. Em que pese a administração central se valer de emissão de moeda para cobrir o déficit fiscal, a manipulação do câmbio dólar-bolívar e o contrabando na extração do crudo e comercialização da gasolina geram descontrole das contas públicas.

Para melhor compreender esta dinâmica, existe a coexistência entre problemas de gestão e eficiência em paralelo com grande peso da sabotagem econômica acionada pelos oligopólios, monopólios,oligopsônios e monopsônios que origina redução de oferta ao passo que a distribuição de renda cresceu aumentando a demanda. A inflação que fechou em 2017 com taxa de 2616%(Assembleia Nacional)é reflexo do descontrole monetário e o descompasso entre a oferta e a procura com escassez de bens. A diminuta reserva cambial , no patamar de US$ 10 bilhões, deixa o governo sem muitas opções diante de praticamente uma fonte: venda de petróleo a China e Rússia.

De maneira mais geral, neste ambiente de instabilidade apresentam-se abordagens tecnocratas , como a dolarização da economia. O argumento principal é de que o risco cambial cessaria, entretanto o país perde a possibilidade de implementar políticas regulatórias. No mesmo caminho de raciocínio, esta escolha reduz a necessidade de remessa de dólares para fora, mas em contradição, dificulta as exportações possibilitando repetidos déficits comerciais, mantendo o fluxo financeiro negativo e um novo ciclo de falta da moeda estadunidense.

Deste modo, não se deve ter a escolha da retirada instrumentos de políticas fiscais e monetárias e sim se reportar as causas do desequilíbrio como fugas de capitais de grandes conglomerados para paraísos fiscais,regular monopólios e enfrentar o bloqueio financeiro paralelo a uma abertura das importações.

Esta mecânica insustentável da convertibilidade cambial, desmorona a cadeia produtiva nacional retirando o poder de concorrência com outros países desenvolvidos e de eficiência comprovada diante dos custos internacionais. Políticas inclusivas seriam impedidas pelos bancos internacionais com a preocupação única de gerar superavit nas contas públicas de forma garantir recebimento dos empréstimos. Programas de melhoria na condição de vida da população seriam inviabilizados pela dependência de recursos escassos em moeda estrangeira. Não é contraditório perceber que a Grécia, que enfrenta este processo, continua dependente da União Europeia com a dolarização. Os Estados Unidos , em situação de crise mundial, são os primeiros a sair exatamente por ter a capacidade de emissão de sua moeda e assim implementar políticas anticíclicas.

Uma conclusão realista é que mesmo possuindo trajetórias distintas , as duas nações enfrentam escassez cambial que pode levar a insolvência. A Venezuela, que sofre um bloqueio do sistema financeiro internacional com objetivo de romper o modelo petroleiro estatizado e assim participar majoritariamente da extração de uma reserva de 296 bilhões de barris, tem no lançamento da criptomoeda Petro a possibilidade de romper este cerco. Nesta ordem de ideias, se torna cada vez mais necessária o intercâmbio comercial e financeiro com a China, Russia, Índia e Turquia , beneficiando de créditos novos e produtos que são impedidos pelo lado dos EUA e UE.

A Argentina que cumpriu o receituário do neoliberalismo , enfrenta um vertiginoso caminho para o “default”. Mauricio Macri que recebeu uma nação com baixo endividamento segue o sentido de dependência do bancos estrangeiros e perda de soberania para o FMI. A desconstrução do Estado argentino seguiu com a liberalização extrema do mercado cambial, a abertura sem restrições do ingresso e saída de capitais especulativos bem como, a desarticulação do comercio exterior prejudicando a competitividades das companhias nacionais e a capacidade de gerar divisas. Durante anos ,bancos e fundos de investimento se saturaram de bônus da dívida argentina e ante ao fiasco da política de Macri começaram a liquidar suas posições nestes últimos 5 meses. O risco-país dobrou para 700 pontos e os títulos sofreram desvalorização entre 25% a 35% em dólar. Macri que prometeu o paraíso com a desregulamentação financeira , agora corre para pedir compaixão a Wall Street diante do estreitamento do crédito e de uma eminente insolvência.

A lição geral que se faz premente ,mesmo com a enfermidade cambial, é refutar a conversibilidade ao dólar, já que sem resolver a questão, gera uma situação ainda mais difícil e traumática. A melhor forma de se enfrentar a crise é não perder os instrumentos para realizar políticas fiscais e monetárias transformadoras. Abdicar de controlar a taxa de juros ou regular o câmbio é de fato terceirizar a gestão financeira ao Banco Central estadunidense. Simplesmente levar estes países as condições de um neocolonialismo.

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