Thomas fazendo a barba com 8 meses de gravidez.Foto: Reprodução/huffingtonpost

Thomas fazendo a barba com 8 meses de gravidez.Foto: Reprodução/huffingtonpost

Feminismo radical: aquele que pensa a condição da pessoa criada para ser mulher. Creio que essa podia ser a definição mais potente e revolucionária da vertente, seja porque nem todas as pessoas que prioritariamente interessariam a esse feminismo são mulheres (homens trans e pessoas transmasculinas, por exemplo), seja porque suas ações não visariam a todas as pessoas mulheres (em especial, as mulheres trans e travestis). E não é um problema mulheres trans e travestis não serem contempladas por suas ações.

O que minha irmã, minha mãe, minha avó viveram difere radicalmente do que eu vivi e isso não significa que o que eu passei seja irrelevante, mas que a prioridade dessa vertente seria entender o que significa “ser criada para ser mulher”, não exatamente o que é “ser mulher”, “existir mulher”. E assim é com as demais vertentes também, o transfeminismo focando suas atenções no grupo de pessoas trans, sem mulheres cis no escopo das suas reflexões, o feminismo negro no de mulheres negras, todas, cis e trans, mas sem homens trans negros ou qualquer mulher branca por exemplo, o putafeminismo pensando o mundo que existe para as trabalhadoras sexuais.

Oras, só quem faz parte do recorte e constrói a luta sabe quais as urgências, mas quando feministas radicais afirmam que só se interessam pela existência de “mulheres” e que mulher é nascer com vagina, com isso gratuitamente agridem tanto mulheres trans e travestis (já que somos mulheres), quanto homens trans (que definitivamente não o são). Consigo imaginar mil formas de contrapor-se ao conceito “cis” sem alimentar brigas terminológicas absolutamente desnecessárias, consigo inclusive pensar na possibilidade de alianças estratégicas entre os feminismos radical e trans, a começar pelo fato de homens trans potencialmente fazerem parte de ambos.

É necessário entender o que é ser criada para a fragilidade, para a feminilidade, para a vida doméstica, para a maternindade compulsória e aprisionante, para ganhar 30% menos, para ser sempre o segundo plano numa relação, para o tempo todo ter que proteger-se de investidas sexuais, criação que recebem todas as pessoas que, ao nascer, foram diagnosticadas com vagina. Minha mãe definitivamente foi criada assim, minha avó, minha irmã, mas também Buck Angel, Thammy Miranda, João W. Nery, e todos os homens trans e demais pessoas transmasculinas, pelo menos enquanto genital determinar a forma como pessoas são criadas.

No entanto, ao falar de homens trans e pessoas transmasculinas, esse feminismo o que diz? “São mulheres iludidas pelo patriarcado”, “acreditam que são homens porque se identificam com coisas que a cultura entende como masculinas”, “dizem que são homens para se proteger de violência misógina”, “cura lésbica”, “odeiam o próprio corpo”, etc. Não é preciso esforço para perceber que essa vertente jamais se dignou a ouvir o que seria prioridade para esse grupo de pessoas, jamais se permitiu respeitar a forma como se entendem e como existem para a sociedade, suas demandas mais urgentes, o direito ao mercado de trabalho, à escola, à família, mas também à retificação de documentos, à hormonização e às cirurgias que o mundo transfóbico e cissexista lhes fez acreditar necessárias.

Talvez seja o medo de queimar a língua e dar-se conta de que, para ser coerente, esse teria que ser um feminismo protagonizado também por pessoas com barba na cara, muitas vezes sem útero e seios, homens, homens que se nada dissessem ninguém jamais imaginaria serem trans, homens com vagina.

Homens que provam que “ser criado para ser mulher” não significa “ser mulher” (Beauvoir, lembram?) e que genital não está estampado na cara. Até porque as palavras “homem” e “mulher” cada vez menos dizem respeito ao genital que a pessoa tem ou ao que a pessoa se sente ser, uma vez que antes mesmo de abrir a boca, sem nenhuma certeza sobre o genital que ela possui, já vão tratá-la de acordo com algum predeterminado gênero.

É esse o medo, ver o movimento protagonizado por pessoas que existem para a sociedade como homens, ver a concretização do “não se nasce, torna-se”?

Feminismo com barba na cara?

Oras, esse feminismo, a despeito de acreditar que só fale de mulheres, poderia ser responsável, junto do transfeminismo, por criar a primeira geração de homens de fato feministas, homens que sabem o que é ser criado para ser mulher e que poderiam levar essa discussão a um outro patamar. O que não é possível é essa vertente, abrindo mão de seu evidente potencial transformador, seguir sendo apenas um movimento de ódio contra pessoas trans.

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