Ruy Tavares discute guerras culturais, tecnologia e os desafios da democracia na Feira do Livro
Historiador e deputado português, discutiu polarização política, regulação das plataformas digitais, inteligência artificial e os desafios da ação coletiva em tempos de guerras culturais
O historiador, escritor e deputado português Ruy Tavares participou do segundo dia da Feira do Livro de São Paulo para discutir seu mais recente livro, Hipócritas e Oligarcas: Passado e Futuro das Guerras Culturais. Em conversa mediada pelo jornalista Marcos Augusto Gonçalves, o autor refletiu sobre polarização política, identidade, tecnologia, democracia e os mecanismos que alimentam as chamadas guerras culturais no mundo contemporâneo.
Ao longo da mesa, Tavares apresentou uma das ideias centrais de sua obra: o papel da hipocrisia na política atual. Para o autor, muitos posicionamentos políticos deixaram de ser orientados por projetos concretos de sociedade e passaram a ser definidos principalmente pela oposição ao campo adversário. Nesse contexto, afirmou que “a hipocrisia tornou-se um dos maiores problemas da política quando deixa de ser tratada como um problema”. Segundo ele, esse processo cria uma dinâmica em que a identidade política é construída mais pela rejeição do outro do que pela defesa de objetivos comuns.
Um dos temas abordados por Ruy Tavares foi a regulamentação das redes sociais. Para o autor, ela é necessária porque a ideia de liberdade de expressão, frequentemente utilizada pelas plataformas para defender a ausência de regulação, acaba servindo para perpetuar discursos racistas, LGBTfóbicos e outras formas de violência. “Hoje certamente deve existir algum tipo de regulação, porque o que existe nas redes não é liberdade de expressão. Elon Musk fala de liberdade de expressão ao mesmo tempo em que o algoritmo define o que pode ou não aparecer na sua plataforma”, afirmou.
O deputado também citou casos extremos provocados pela ausência de regulamentação das plataformas digitais. “A liberdade de fazer bullying contra um adolescente e levá-lo ao suicídio por causa do que sofreu no TikTok, no Discord ou em qualquer outra plataforma não é liberdade coisa nenhuma”, afirmou. Para Tavares, há uma falha do poder público em relação às plataformas, que acumulam dados — uma das principais moedas do século XXI — sem transparência sobre como essas informações são utilizadas e, ao mesmo tempo, não garantem a segurança dos usuários em seus ambientes digitais.
Adentrando as discussões sobre tecnologia, Ruy Tavares demonstrou uma visão cautelosamente otimista em relação à inteligência artificial. Para o historiador, a tecnologia não deve ser encarada como uma solução automática para os problemas da humanidade, mas como uma ferramenta que pode contribuir para a construção de futuros mais democráticos e colaborativos.
“A humanidade ainda é forte e tem coisas que valem a pena ser preservadas. A gente pode usar a inteligência artificial para isso também, para criar uma política que transcenda as fronteiras. Não é um dado da tecnologia. Eu não acredito nesse tecno-otimismo de que surge uma tecnologia nova e ela vai resolver tudo. Isso não existe, mas a gente pode usá-la para tentar se aproximar disso”, comentou.

Durante o encontro, o autor também destacou as dinâmicas que alimentam as guerras culturais, fenômeno que, segundo ele, é intensificado em um mundo cada vez mais globalizado. Para Ruy Tavares, três elementos são fundamentais para o surgimento dessas disputas: uma forte polarização política, conflitos relacionados às identidades e embates em torno de valores e narrativas. Ainda assim, ele ressalta que compreender esses processos exige abandonar respostas simplistas.
“Entrar nas guerras culturais é entrar num labirinto da cultura. É preciso estar disposto a falar de cultura sabendo que essas ideias de certo e errado, de adivinhar o futuro ou de ter uma receita para acabar com as guerras culturais simplesmente não existem”, afirmou.
Ruy Tavares também fez críticas à incapacidade dos governos contemporâneos, especialmente na Europa, de formular políticas públicas capazes de produzir transformações concretas na vida da população. Para o autor, há uma crescente dificuldade das instituições públicas em construir projetos coletivos que mobilizem a sociedade.
“O governo contemporâneo, desde os anos 2000, esqueceu como fazer coisas”, afirmou. Nesse contexto, destacou que há muito tempo não via uma conquista da classe trabalhadora com o impacto da aprovação do fim da escala 6×1 no Brasil.
Ao comparar a realidade brasileira com a europeia, Tavares ressaltou que, apesar dos desafios, o Brasil foi capaz de implementar programas e políticas públicas que ampliaram direitos e oportunidades para milhões de pessoas.
“Vocês aqui não têm tanto esse problema. É engraçado porque, apesar de tudo, vocês tiveram coisas novas, novos programas: Bolsa Família, Pé-de-Meia, Minha Casa, Minha Vida, novas universidades federais. Isso nós, na Europa, não tivemos. Praticamente nada de novo foi criado. O que aconteceu aqui foi que, depois desses programas que tiraram milhões de pessoas da pobreza ou abriram novos horizontes para elas, veio o domínio da guerra cultural. Por isso, os objetivos políticos precisam vir acompanhados de uma política da memória. É preciso lembrar como as conquistas aconteceram.”
Na perspectiva do autor, os chamados “objetos de desejo político” são fundamentais para mobilizar a população e oferecer uma alternativa às guerras culturais. Esses objetivos precisam ser concretos, coletivos e capazes de produzir mudanças reais na vida das pessoas. Ele lembra que grandes conquistas históricas nasceram justamente da existência de metas compartilhadas, como o fortalecimento dos partidos populares, o movimento sufragista, a conquista do direito ao voto e diversas outras vitórias protagonizadas por grupos historicamente marginalizados.
“Um objeto de desejo político tem que ser tão concreto quanto possível. Tem que ser desejável, porque não adianta entrar na guerra pela atenção com o populista conservador. Aquele tipo de atenção que eles conseguem, que o Nikolas Ferreira e o Pablo Marçal conseguem, é útil para os propósitos deles, que são mais destrutivos do que construtivos. Para isso, basta ter o seu escândalo, a sua indignação, por cinco segundos, várias vezes ao dia, em um bombardeamento constante. Nós não queremos exatamente só atenção, a gente quer motivação”, afirmou.
Para Tavares, o desafio das forças democráticas não está apenas em disputar visibilidade, mas em construir projetos capazes de inspirar participação coletiva e engajamento duradouro.
Ainda recorrendo à história para pensar o cenário atual da política e das guerras culturais, o historiador salientou que as mudanças capazes de nos tirar desses labirintos não acontecem meramente no ambiente online ou de forma individual, mas em um contexto coletivo.
“O que importa é que, dia após dia, a gente se lembre de fazer coisas com os amigos e os companheiros que permitam avançar em direção a esse objeto de desejo político que, ao contrário do objeto de consumo, não é individual. Não é algo que você vai lá numa loja e compra. Ele só pode ser alcançado por meio da ação coletiva”, concluiu.
Ao caminhar para a finalização da mesa, o deputado abordou as tentativas de construção de uma guerra cultural entre Brasil e Portugal. Para o historiador, setores da extrema direita portuguesa, muitas vezes em diálogo com grupos semelhantes no Brasil, têm buscado criar divisões artificiais entre portugueses e brasileiros, especialmente por meio do debate migratório. Segundo ele, o endurecimento das políticas de imigração em Portugal segue uma lógica importada de movimentos da extrema direita europeia e tem afetado diferentes comunidades imigrantes, incluindo brasileiros.
“Há muita gente que quer criar uma guerra cultural entre Brasil e Portugal. A extrema direita em Portugal quer muito criar clivagens entre portugueses e brasileiros. Pioraram as políticas de imigração numa importação quase total das pautas da extrema direita francesa, alemã e de outros países. Primeiro tentaram criar conflitos com os novos imigrantes vindos do Paquistão, da Índia e de Bangladesh, mas os brasileiros também acabaram sendo prejudicados”, afirmou.
Apesar dessas tensões, Tavares destacou a profunda proximidade cultural entre os dois países e defendeu que as relações históricas e culturais entre brasileiros e portugueses são muito mais fortes do que as disputas alimentadas por setores políticos.
“Eu acho que a gente tem uma identidade muito consolidada. Nós nos conhecemos bem e nos damos bem. Vocês leem Fernando Pessoa como se fosse um poeta da casa. Eu aqui sinto-me como um peixe na água. Gostaria que em Portugal as pessoas lessem mais Clarice Lispector e Machado de Assis como autores da casa também”, concluiu, encerrando sua participação na Feira do Livro de São Paulo em um clima bem-humorado e deixando fortes reflexões sobre o cenário político contemporâneo.



