Por Mateus Felipe Silva

A lista de indicados ao Emmy 2026, anunciada na manhã desta quarta-feira (8), conta mais histórias do que os números deixam ver à primeira vista. Com 25 indicações, quase o dobro das 13 do ano passado, “The Pitt” amplia o fenômeno de 2025, quando venceu melhor série de drama ainda na primeira temporada. Das 25 menções, 13 são de atuação, um domínio de elenco raríssimo na história do prêmio. A série ocupa quatro das sete vagas de melhor atriz coadjuvante em drama (Taylor Dearden, Fiona Dourif, Sepideh Moafi e Katherine LaNasa, vencedora no ano passado), três das sete de ator coadjuvante e mais cinco vagas nas categorias de convidados. Ambientada em um único plantão de 4 de Julho, a segunda temporada expôs o colapso do acesso à saúde nos EUA, levou agentes de imigração para dentro do hospital e trouxe também debates sobre inteligência artificial na medicina. Noah Wyle, que venceu em 2025 depois de acumular cinco derrotas por “ER” nos anos 1990, defende o troféu de melhor ator e ainda concorre como diretor, pelo episódio “12:00 P.M.”, e como produtor da série.

“Hacks” e Jean Smart entram para a história

Nenhuma comédia havia alcançado 24 indicações em uma única edição do Emmy. Com a marca, a temporada final de “Hacks” supera “O Urso”, que chegou a 23 em 2024, e “O Estúdio”, que igualou o número no ano passado, além de desbancar “Schitt’s Creek” como a despedida mais indicada da história do gênero. O impacto desta temporada nos votantes foi tanto que cinco das sete vagas de melhor atriz convidada em comédia ficaram com participações na série (Leslie Bibb, Cherry Jones, Laurie Metcalf, Kaitlin Olson e Lauren Weedman).

Para Jean Smart, a despedida pode valer um lugar no panteão do prêmio. Vencedora pelas quatro temporadas anteriores como Deborah Vance, a atriz busca a quinta estatueta pela mesma personagem, o que a deixaria atrás apenas das seis de Julia Louis-Dreyfus por “Veep”. Seria também sua oitava vitória de atuação na carreira, somadas as conquistas por “Frasier” e “Samantha Who?”, número que igualaria o recorde histórico de estatuetas de atuação no Emmy, dividido justamente por Louis-Dreyfus e Cloris Leachman. Mas a vitória não está garantida. Lisa Kudrow, vencedora por “Friends” em 1998, volta à disputa pela mesma Valerie Cherish de “The Comeback”, que lhe rendeu indicações em 2006 e 2015, um raro caso de reconhecimento pela mesma personagem em três décadas diferentes.

Zendaya pode fazer história em despedida melancólica

A temporada final de “Euphoria” foi recebida com frieza pela crítica e terminou com sete indicações, concentradas nas categorias técnicas. Nas atuações, restaram Zendaya, cujo desempenho foi elogiado mesmo em meio às críticas à temporada, e Colman Domingo, lembrado como ator convidado. Ainda assim, a protagonista chega à cerimônia com a chance de um feito histórico. Zendaya venceu por Rue em 2020, quando se tornou a mais jovem campeã de melhor atriz em série de drama aos 24 anos, e repetiu a dose em 2022, já como a primeira atriz negra a vencer a categoria duas vezes.

Uma terceira vitória a colocaria no seleto clube de Michael Learned (“Os Waltons”) e Tyne Daly (“Cagney & Lacey”), as únicas a somar três ou mais troféus da categoria pela mesma personagem, e faria dela, aos 30 anos, a mais jovem a alcançar a marca, vencendo por todas as temporadas da série. Mas a vitória pode estar ameaçada por Rhea Seehorn, que saiu de mãos vazias das indicações por “Better Call Saul” e finalmente disputa como protagonista pelo fenômeno “Pluribus”, enquanto Chase Infiniti carrega sozinha a única indicação de “Os Testamentos”.

Revelações, dobradinhas e retornos

A grande surpresa em volume foi “O Segredo de Widow’s Bay”. Com 19 indicações, a comédia registra a terceira maior estreia da história do gênero, atrás apenas de “O Estúdio” (23) e “Ted Lasso” (20). A Apple TV+, aliás, viveu uma manhã histórica, com três comédias na categoria principal (“Falando a Real”, “O Segredo de Widow’s Bay” e “Margô Está em Apuros”), feito que só o FX havia alcançado em 2024, além das 18 menções de “Pluribus”.

O anúncio também consagrou as dobradinhas. Jason Bateman saiu com quatro indicações, como ator e diretor em “Black Rabbit”, além de coadjuvante e produtor em “DTF St. Louis”. Matthew Rhys conseguiu a raríssima indicação dupla como protagonista, nas categorias de comédia (“O Segredo de Widow’s Bay”) e minissérie (“O Monstro em Mim”). Nick Offerman concorre como coadjuvante em dois gêneros, por “Margô Está em Apuros” e “Death by Lightning”; Laurie Metcalf soma vagas como convidada em “Hacks” e coadjuvante em “Monstro: A História de Ed Gein”; e a diretora Salli Richardson-Whitfield ocupa sozinha duas das seis vagas de direção em drama, por “A Idade Dourada” e “Task”. Há ainda um caso de família. As irmãs Fanning somam quatro menções, com Elle indicada como protagonista e produtora de “Margô Está em Apuros” e Dakota como coadjuvante em “All Her Fault” e produtora executiva da série estrelada pela irmã.

As categorias de participações especiais concentraram as histórias mais humanas da manhã. A mais comovente foi a indicação póstuma de Rob Reiner como ator convidado por “O Urso”. Morto em dezembro, aos 78 anos, em um caso que chocou Hollywood, o veterano viveu o consultor Albert Schnurr na quarta temporada da série e não concorria como ator desde os tempos de “All in the Family”, nos anos 1970. Na mesma leva, Michael J. Fox, que havia anunciado a aposentadoria em 2020 em razão do avanço do Parkinson, retorna à disputa por “Falando a Real”, sua primeira indicação de atuação desde a era “The Good Wife”, e Jamie Lee Curtis, vencedora da categoria em 2024, volta como a matriarca Donna Berzatto em “O Urso”. Em “A Diplomata”, Bradley Whitford, eterno assessor de “The West Wing”, agora disputa como primeiro-cavalheiro dos Estados Unidos. E a vaga mais curiosa ficou com Connor Storrie. Impedido de concorrer pelo fenômeno “Heated Rivalry”, inelegível por ser uma produção canadense, o astro da série entrou na disputa pela porta dos fundos, com sua participação como apresentador do “Saturday Night Live”.

Política, inteligência artificial e produções esnobadas

A nova categoria de melhor série de variedades, que fundiu os talk shows e os programas de esquetes, condensa o embate entre a televisão americana e o poder. Estão lado a lado a temporada final de “The Late Show with Stephen Colbert”, cancelado pela CBS sob suspeita de motivação política e dono de nove menções em sua despedida, o “Jimmy Kimmel Live!”, suspenso no ano passado após comentários do host sobre a morte do republicano Charlie Kirk, o “Saturday Night Live”, com 11 indicações, o veterano “Last Week Tonight” e o “The Daily Show”. Pelo novo formato de votação, qualquer indicado com 90% de aprovação leva o prêmio, o que abre a possibilidade real de a categoria coroar mais de um vencedor em setembro, um desfecho poético para o fim de uma era dos late shows.

Entre as ausências, “Task” talvez seja a mais dolorida. O drama policial de Brad Ingelsby somou seis indicações, incluindo Mark Ruffalo, Tom Pelphrey, direção e roteiro, mas ficou fora de melhor série de drama. A despedida de “Stranger Things” se limitou às categorias técnicas, “Industry” foi ignorada mais uma vez e “Pela Metade”, o aguardado retorno de Richard Gadd após “Bebê Rena”, se resumiu à indicação do próprio criador.

Outro esnobado, “The Chair Company” emplacou direção e roteiro sem conseguir vaga para a série ou para Tim Robinson como ator, e Steve Martin assiste de fora à quinta campanha consecutiva do parceiro Martin Short por “Only Murders in the Building”. Já “Os Testamentos”, que retoma o universo de Gilead em meio às discussões sobre o retrocesso de direitos reprodutivos nos EUA, precisou se contentar com a vaga de Chase Infiniti. A inteligência artificial, tema que, além de provocar discussões nos bastidores de produções como “Stranger Things”, apareceu ainda dentro das tramas, do aplicativo médico que divide o pronto-socorro de “The Pitt” ao investidor que tenta comprar o acervo de Deborah Vance em “Hacks”. Acompanhando as discussões da indústria, a Academia oficializou que se reserva o direito de questionar o uso de inteligência artificial nas produções, afirmando que o reconhecimento segue centrado na criatividade e na narrativa humana.

O ano de Bad Bunny

O show do intervalo do Super Bowl LX confirmou o favoritismo e saiu do anúncio com nove indicações, o maior número já alcançado por um halftime show na história do Emmy, superando as seis do especial de Lady Gaga em 2017. Primeiro artista solo de língua espanhola a comandar o palco mais assistido dos EUA, Bad Bunny foi alvo de ataques da direita americana desde o anúncio da apresentação e agora pode transformar a polêmica em estatueta. Como o porto-riquenho assina o especial também como produtor e performer, uma vitória colocaria um Emmy nas mãos do próprio Benito e lhe daria a segunda letra do EGOT, meses depois dos três Grammys conquistados por “Debí Tirar Más Fotos”.

A presença latina se completa com o colombiano Carlos-Manuel Vesga, coadjuvante por “Pluribus”, enquanto a sul-coreana Youn Yuh-jung, vencedora do Oscar por “Minari”, pode se tornar a primeira atriz de seu país a levar um Emmy de atuação, quatro anos depois de Lee Jung-jae abrir caminho com “Round 6”. Wagner Moura, cotado até a véspera, ficou de fora, com “Star Wars: Maul — Lorde das Sombras” restrita a uma vaga em edição de som.

Os vencedores serão conhecidos em 14 de setembro, em cerimônia transmitida pela NBC e, no Brasil, pela TNT e HBO Max, apresentada por Mariska Hargitay, a primeira mulher a comandar o Emmy em 15 anos. Até lá, resta a dúvida se “The Pitt” repetirá a dose do ano passado, ou se a despedida de “Hacks” roubará a noite.

Confira a lista completa de indicados aqui.