Por Hyader Epaminondas

Os 80 anos da Cinemateca Brasileira reforçam a importância de preservar não apenas a memória do cinema nacional, mas também obras que seguem relevantes para compreender o Brasil. Um dos filmes que tive a oportunidade de conhecer durante uma das programações do espaço foi “Ladrões de Cinema”, de 1977.

Lançado em plena ditadura militar, “Ladrões de Cinema” expõe, de forma corrosiva, as contradições de um país que insiste em negar voz e imagem aos mais pobres. Ambientado nos bastidores de uma produção cinematográfica, a narrativa acompanha um grupo de personagens periféricos que rouba uma câmera para registrar sua própria versão de mundo, e é nesse gesto que o filme se torna mais do que uma trama: ele inaugura uma insurgência simbólica contra o monopólio da representação, para se tornarem autores da própria imagem.

O roubo deixa de ser apenas um crime dentro da história e se converte em metáfora política, um ato de resistência contra a exclusão, um modo de afirmar presença diante de uma ordem social que prefere invisibilizar aqueles que sustentam o cotidiano do país. Essa violência estrutural, que ainda atravessa o Brasil, encontra ressonância em uma leitura lacaniana. A disputa pela representação não se restringe ao cinema.

Ela se manifesta sempre que determinados grupos permanecem ausentes dos espaços de maior visibilidade. Basta observar as imagens das arquibancadas durante os jogos da Seleção Brasileira nesta Copa do Mundo, marcadas pela predominância de torcedores brancos, em contraste com a composição racial do país, majoritariamente negra.

O Real se manifesta na miséria que escapa à linguagem, um trauma social que a ditadura tentava ocultar sob camadas de censura. O Imaginário surge quando esses sujeitos projetam sobre si mesmos a capacidade de filmar, buscando um espelho que nunca lhes foi concedido, um reflexo capaz de ressignificar sua condição.

O Simbólico se realiza no próprio ato de filmar, no desejo de inscrever imagens no tecido da história nacional e de disputar espaço em uma narrativa que historicamente os exclui. “Ladrões de Cinema” transforma a câmera em instrumento de reivindicação social, e o gesto de tomá-la representa a apropriação de uma linguagem negada.

O objeto roubado não é apenas uma câmera. Em um período em que os meios de produção audiovisual estavam concentrados nas mãos do Estado e de grandes produtoras, apropriar-se desse instrumento significava reivindicar o direito de construir imagens sobre si mesmo. O gesto dos personagens não nasce da ambição artística, mas da necessidade política de romper o silêncio. Antes de registrar a realidade, eles precisam conquistar a possibilidade de existir dentro dela.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Entre reconhecimento internacional e invisibilidade interna

Revisitar o filme hoje, dentro do programa Revisão Crítica do Cinema Brasileiro, revela que essas tensões permanecem. Passadas quase cinco décadas, a precariedade da produção cultural segue sendo um obstáculo, e a pergunta central do filme continua sem resposta: quem tem o direito de filmar e de ser visto?

A exibição ocorreu em um momento em que o cinema brasileiro voltou a ocupar espaço de destaque no cenário internacional. O país vivia um novo ciclo de reconhecimento, impulsionado pelo sucesso recente de cineastas como Kleber Mendonça Filho com o seu “O Agente Secreto”, em plena campanha para o Oscar de Melhor Filme. Enquanto nossas obras conquistam espaço nos principais festivais e premiações do mundo, a preservação da memória audiovisual continua dependendo de instituições frequentemente ameaçadas por cortes e desvalorização.

Essa oscilação entre reconhecimento e repressão se reflete na simbologia lacaniana. O Real da desigualdade insiste em reaparecer como fenda irredutível. O Imaginário do prestígio internacional alimenta a ilusão de reconhecimento. O Simbólico da linguagem cinematográfica permanece o campo de disputa definitiva, entre o cinema brasileiro se inscrever como protagonista de sua própria narrativa ou ser silenciado.

A força de “Ladrões de Cinema” está exatamente nesse ponto: ao roubar a câmera, os personagens antecipam o gesto maior do cinema nacional. Para existir, ele precisa constantemente disputar espaços de poder, reivindicar legitimidade e arrancar reconhecimento de um sistema que raramente concede espaço de forma espontânea.

Quase cinquenta anos depois, essa disputa não acontece apenas nas telas, mas também nos próprios espaços de exibição e preservação da cultura. Em um momento em que cinemas de rua e outros equipamentos culturais são cada vez mais pressionados pela especulação imobiliária, como acontece com o anexo do Espaço Petrobras de Cinema e o Café Fellini, na Rua Augusta, que dará lugar a mais uma caixa de sapato residencial, o direito à imagem também passa a ser o direito de preservar a memória coletiva. Nesse cenário, a Cinemateca Brasileira reafirma sua importância ao preservar a história do cinema brasileiro e garantir que essas obras continuem acessíveis, sendo vistas, discutidas e reinterpretadas pelas próximas gerações.

O filme antecipou, de certa forma, debates que hoje se refletem no mundo digital. Assim como os personagens tomam a câmera para afirmar sua presença, na contemporaneidade a circulação de imagens e conteúdos define quem ocupa espaços de visibilidade. Quem controla a representação continua determinando quem é reconhecido e quem permanece à margem.

Em 1977, roubar a câmera era resistência contra a repressão militar. Em 2025, disputar o Oscar foi um roubo simbólico, a tomada de um território global que tradicionalmente nos exclui. Entre esses gestos permanece a mesma pulsão: inscrever-se no mundo contra uma lógica que insiste em apagar o que mais define o país. A Cinemateca Brasileira lembra que nenhum país consegue projetar seu futuro se abandona os registros de seu passado. “Ladrões de Cinema” continua atual porque entende que filmar nunca foi apenas produzir imagens. É disputar quem tem o direito de existir na história.