Daniel Ribeiro fala sobre o legado de Hoje eu quero voltar sozinho e comenta seu novo longa, Eu vou ter saudade de você
Cineasta reflete sobre diversidade, representatividade, financiamento público e o futuro do cinema brasileiro
Por Kaio Phelipe
Um dos principais nomes do cinema brasileiro, o diretor e roteirista Daniel Ribeiro construiu uma filmografia conectada às experiências LGBTQIA+. Ao longo da última década, seus filmes ajudaram a ampliar o espaço de personagens queer no audiovisual nacional, sempre apostando em narrativas capazes de dialogar com públicos muito diversos.
Seu trabalho mais conhecido, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, tornou-se um marco para uma geração de espectadores. O longa acompanha a descoberta amorosa entre dois adolescentes e conquistou o público ao abordar a descoberta da sexualidade com sensibilidade. Mais de dez anos após o lançamento, o filme continua sendo lembrado como uma das obras mais importantes da representatividade LGBTQIA+ no cinema brasileiro.
Agora, Daniel prepara o lançamento de Eu Vou Ter Saudade de Você, nova obra protagonizada por um casal trans e estrelada por um elenco inteiramente formado por pessoas trans. O filme acompanha o desgaste e a separação de um relacionamento. Depois de passar por festivais internacionais em Londres e Guadalajara, a produção deve chegar aos cinemas brasileiros no fim do ano.
Você esperava que Hoje Eu Quero Voltar Sozinho se tornasse um sucesso?
Na verdade, não esperava. Quando fiz o filme, tudo foi uma surpresa desde o começo. Primeiro veio o curta, em 2010. Era um curta super simples, com uma história um pouco parecida com a do longa. Aí ele foi parar no YouTube e bombou. Foi a primeira vez que sentimos que aquela história se comunicava com muita gente.
E esse sucesso na internet ajudou muito a gente a conseguir fazer o longa, e até na divulgação depois. Foi uma maneira de mostrar, ainda em 2010, que uma história sobre um adolescente se descobrindo gay e um adolescente com deficiência visual podia tocar muita gente. Tudo foi muito surpreendente naquele começo.
Agora já são 16 anos desde o curta, então dá para entender um pouco melhor o que conectava essa história com as pessoas. Acho que existia um aspecto muito universal ali, que era a descoberta do primeiro amor. Isso funciona para muita gente, inclusive para quem é hétero. Mas, para quem era gay, para a comunidade LGBTQIA+ como um todo, aquilo tinha um peso ainda maior, porque, naquela época, existiam muito menos histórias, principalmente histórias com final feliz.
Então, acho que o que tornou tudo tão especial foi muita gente se vendo representada e dentro de uma história de esperança. Quando você é adolescente numa sociedade homofóbica, existe muito esse pensamento: “Será que eu vou ser feliz? Será que vou encontrar alguém? O que vai acontecer com a minha vida?”. E o filme apontava para uma possibilidade de felicidade. Acho que muita gente se agarrou a ele por causa disso.
O filme chegou a sofrer alguma forma de censura?
Na época do curta, existia um programa em algumas escolas que usava curtas-metragens para discutir temas sociais em sala de aula. Eles selecionavam filmes com diferentes temáticas e os exibiam para os alunos.
O curta entrou nesse programa experimental em lugares como o Acre e outros estados que agora nem lembro exatamente quais eram. E aí aconteceu uma polêmica: algumas pessoas acharam um absurdo, associaram o filme ao chamado “kit gay”, que era um debate muito forte naquela época, e acabou surgindo uma reação conservadora. Houve reclamações, e o programa foi cancelado, junto com os outros curtas que participavam.
Mas isso foi muito pontual. Porque, no geral, aconteceu infinitamente mais o contrário. Muitos professores, alunos e pessoas que assistiram ao filme me escreveram dizendo que ele tinha sido exibido em sala de aula de uma maneira muito positiva, para discutir sexualidade, diversidade, deficiência e todos aqueles temas que atravessavam o curta.
Então, acho que, no mundo em que a gente vive, é impossível não existir algum ruído ou reação desse tipo. Mas, sinceramente, diria que 95% da recepção foi muito acolhedora.
E acho que o filme também surgiu num momento importante. Ele veio junto de uma onda de novas histórias começando a aparecer. Depois vieram os streamings, a Netflix e outras plataformas, que passaram a apostar mais nessas narrativas que não tinham espaço antes. Até então, a televisão trabalhava muito dentro de uma lógica mais segura, tentando contar histórias que agradassem todo mundo e evitassem qualquer risco. Os streamings começaram a arriscar mais, a abrir espaço para outras vivências, outras experiências. E o filme acabou fazendo parte desse movimento.
Então, houve uma combinação de fatores muito positiva. O filme se beneficiou desse novo momento cultural, até para conseguir financiamento, encontrar público e reverberar nas discussões da época.
Construir narrativas LGBTQIA+ é também uma forma de ativismo?
Ah, eu acho que é totalmente político, sim. É engraçado porque muita gente dizia que o filme “não levantava bandeiras”. Existia muito esse discurso, principalmente vindo de pessoas que têm certa resistência ao ativismo. E eu sempre respondia: “Gente, esse é um filme completamente de bandeira”.
A diferença é que essa bandeira está meio camuflada dentro de uma história que consegue se conectar com todo mundo. E acho que esse era o objetivo. Existem muitas formas de militar, muitas formas de atuar politicamente por meio da arte. E eu nunca vi a militância como algo negativo, embora muita gente veja.
O importante, para mim, é desmontar um pouco o estigma em torno do que as pessoas entendem por militância. Porque, no caso desse filme, ele faz parte da nossa luta enquanto comunidade LGBT.
Essa história chegou a muita gente porque era contada de uma maneira delicada, com personagens muito humanos, que não provocavam aquele choque imediato que algumas pessoas têm até diante de coisas banais. E acho que isso ajudou muito. Foi uma forma de levar essa temática para públicos que talvez nunca estivessem abertos a ouvir sobre isso de outra maneira. Então, para mim, o filme é muito militante. E acredito que tudo o que fiz até hoje também é.
Existe diferença entre lançar um filme LGBTQIA+ em 2010 e em 2026?
Eu acho que sim.
Ironicamente, tenho a sensação de que, em 2010, era mais fácil lançar um filme gay do que hoje. E isso tem muito a ver com a transformação política e social que o país viveu, principalmente depois de 2014.
O curta surgiu naquele começo da década de 2010, e o longa foi lançado justamente em 2014, num momento em que o Brasil ainda não tinha explodido nessa polarização que viria depois. Existia uma sensação de avanço. A comunidade LGBTQIA+ estava ocupando mais espaços, mais pessoas estavam saindo do armário, o casamento homoafetivo tinha sido reconhecido pelo Supremo, várias conquistas importantes estavam acontecendo e, de certa forma, sendo melhor absorvidas pela sociedade.
Ao mesmo tempo, acho que a extrema direita e os setores mais conservadores estavam mais retraídos. O Brasil tem um histórico muito forte de conservadorismo, de repressão e de ditadura, mas, naquele momento, essas vozes estavam menos à vontade para expor publicamente seus preconceitos e discursos de ódio.
E aí vem 2014, a radicalização política cresce muito e tudo muda. Acho que, desde então, houve um endurecimento enorme do debate público. Hoje existe muito menos constrangimento em ser abertamente preconceituoso, em atacar a comunidade LGBTQIA+ ou em tentar inviabilizar certas narrativas.
Então, nesse sentido, acho que lançar um filme hoje é mais difícil. E nem precisa ser uma obra considerada “ousada”. Às vezes, só o fato de existir uma história queer já desperta resistência. Tenho a impressão de que, se o filme fosse lançado hoje, ele não circularia de maneira tão tranquila quanto circulou naquela época.
A repercussão de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto tem levado mais gente para assistir a filmes nacionais no cinema?
Eu acredito que sim. Mas também fico com a sensação de que essas coisas são muito temporárias. Vem uma onda, todo mundo se empolga, vai ao cinema, descobre certos filmes… e, de repente, passa um ano sem surgir nada parecido. Então existe um certo desânimo, às vezes.
Mas acho que isso também faz parte da própria história do cinema brasileiro. Quando a gente olha para trás, percebe que ele sempre funcionou com essas ondas. Tem momentos de explosão, de grande visibilidade, e depois períodos mais difíceis. Acho que, de certa forma, a gente aprende a lidar com essa dinâmica.
E, no fim, acho que o impacto não está só em transformar o cinema brasileiro num sucesso gigantesco de público o tempo inteiro. Talvez não seja uma questão de, de repente, todos os filmes passarem a levar milhões de pessoas ao cinema. Mas, se centenas de milhares de pessoas que antes não assistiam a filmes brasileiros começam a descobrir esse cinema, se interessam por ele e vão atrás de outras obras que perderam nos últimos dez ou vinte anos, isso já é enorme.
Porque isso também forma público e novas gerações de espectadores. Às vezes, é uma construção menor e mais silenciosa, mas também é muito importante. Claro que existem esses momentos de boom, em que um filme chama atenção internacionalmente, leva milhões de pessoas ao cinema e todo mundo olha para o Brasil. Mas também existe esse trabalho contínuo de criar um público que gosta de cinema brasileiro, que vai acompanhar os próximos filmes e pesquisar o que veio antes.
Então, acho que ajuda, sim. Mas isso só se sustenta com investimento contínuo, com filmes sendo feitos todos os anos, o tempo inteiro. E, de certa forma, o Brasil já tem um pouco disso, embora viva constantemente esses altos e baixos no apoio público ao cinema. Às vezes existe mais incentivo, às vezes menos, e isso acaba criando essas ondas meio irregulares.
No meu caso, tudo o que consegui fazer só existiu porque houve financiamento público para o cinema, desde os curtas. Foi isso que permitiu que eu começasse a filmar ainda na faculdade, sem ter um grande currículo, e que, depois, eu pudesse continuar fazendo outras coisas.
Como surgiu a ideia de transformar Hoje Eu Quero Voltar Sozinho em HQ?
Tinha uma coisa que acho que nasceu muito do momento em que comecei a trabalhar nisso, em 2022, durante a eleição. Existia uma insegurança enorme sobre o que aconteceria com o cinema brasileiro, principalmente por causa da ameaça constante à cultura e ao financiamento público. Cinema é uma arte que precisa de investimento. Sem apoio, a produção morre.
Então eu estava muito angustiado naquele período. Acho que todo mundo da área artística estava fazendo planos meio desesperados sobre o que faria da vida caso o Bolsonaro fosse reeleito. Existia um sentimento geral de incerteza, muita gente pensando em sair do país, mudar de área, procurar outros caminhos.
E uma das coisas em que pensei foi: “Preciso diversificar o que faço”. Naquela época, Heartstopper tinha acabado de explodir, e isso ficou na minha cabeça. Aí pensei: “Nossa, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho talvez funcionasse muito bem como HQ”. É uma história que conversa com um público adolescente, que consome muito esse formato.
Além disso, durante anos muita gente me perguntava sobre uma continuação do filme. E eu sempre pensava que fazer outro longa seria muito complicado. Primeiro porque já se passaram mais de dez anos desde o lançamento, então não faria sentido continuar com aqueles personagens da mesma forma, já que os atores cresceram e estão em outra fase da vida.
Na HQ, por outro lado, dava para continuar contando essa história livremente, fazer o volume 2, o volume 3, sem depender da idade dos atores ou das limitações de produção de um filme.
Então surgiu dessa mistura de coisas: de imaginar novos caminhos para a minha carreira naquele momento de insegurança e da vontade de continuar esse universo em outro formato.
Pode nos contar um pouco sobre Eu Vou Ter Saudade de Você?
É um filme que conta a história da separação de um casal. É um casal hétero, mas formado por uma mulher trans e um homem trans, que estão juntos há sete anos. Eles decidem morar juntos e, aos poucos, a vida real começa a se impor. As diferenças aparecem, o desgaste também, e os dois vão se afastando.
Eu brinco muito que esse filme forma uma espécie de trilogia afetiva com outros trabalhos meus. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho seria o começo, a descoberta do primeiro amor. Eu Vou Ter Saudade de Você é a primeira separação, o fim daquele amor da juventude que, quando a gente vive, parece que vai durar para sempre, cheio de esperança e idealizações. E O Melhor Amigo, que lancei em 2024, acaba funcionando como o pós-término: o que acontece depois do fim de um relacionamento longo, como você se reorganiza e para onde vai depois de dividir tanto tempo da vida com alguém.
Esse novo filme foi muito especial de fazer. Eu escrevi o roteiro com a Alice Marcone, que também atua no filme e interpreta a Amanda. O Gabriel Lodi faz o Caio. E, desde o começo, existia uma decisão muito clara: o elenco seria 100% trans. Absolutamente todas as pessoas que aparecem em cena, inclusive a figuração, são pessoas trans. Isso era uma regra fundamental para a gente. Também tínhamos pessoas trans na equipe técnica, então foi um processo muito coletivo.
Isso deu ao filme uma energia muito especial, principalmente no contexto dos dias de hoje. Porque lançar um filme com personagens trans ainda é algo que desperta tensão no Brasil, mesmo que o filme não seja sobre identidade de gênero. A temática principal não é essa. É uma história sobre separação e desgaste afetivo. E, por isso, espero que ele consiga furar a bolha e dialogar também com pessoas que não tenham familiaridade com o universo LGBTQIA+. É um filme que convida para um lugar de identificação emocional.
Acho que qualquer pessoa consegue se reconhecer nessa experiência do fim de um amor.
A gente estreou o filme em Londres, no fim de março, e passou pelo Festival de Guadalajara, no México, que foi a estreia latino-americana. Agora estamos vendo a possibilidade de estrear em algum festival brasileiro antes do lançamento comercial.
A ideia é lançar o filme oficialmente nos cinemas no fim do ano.



