Por Clayton Nobre

Em Bonito (MS) tivemos mais um encontro com “Honestino”, o novo longa-metragem de Aurélio Michiles, que faz sua pré-estreia nacional na programação do 4º Bonito CineSur. O filme já havia percorrido uma temporada de festivais: estreou mundialmente no Festival do Rio, onde levou o Troféu Redentor de Melhor Montagem, passou pela Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e chega finalmente aos cinemas brasileiros em 13 de agosto. A sessão em Bonito contou com a presença do diretor e do ator Bruno Gagliasso, protagonista das cenas ficcionais do filme, em uma conversa com o público que acabou por iluminar várias das escolhas de linguagem do longa.

Honestino Guimarães foi presidente da União Nacional dos Estudantes, estudante da UnB e uma das figuras centrais da geração de 1968. Preso por cinco vezes por sua militância política, foi sequestrado pelo regime em 1973, aos 26 anos, e até hoje integra a extensa lista de desaparecidos políticos da ditadura militar brasileira. É essa trajetória que Michiles reconstrói a partir de cartas, poemas, imagens de arquivo e dezenas de depoimentos de familiares, amigos e ex-militantes que conviveram com Honestino, entrelaçados a cenas ficcionais interpretadas por Gagliasso.

Antes da exibição, o produtor Nilson Rodrigues antecipa ao público: “Vocês vão entender por que deveria ser Aurélio Michiles a dirigir esse filme”. E logo compreendemos. Aurélio também aparece como personagem, amigo de Honestino, entre outros colegas que estudavam em Brasília, o que revela um ensejo pessoal por uma história que merece sair dos corredores subterrâneos da Universidade de Brasília ou da Esplanada dos Ministérios.

A hibridação entre documentário e ficção não é novidade na obra de Michiles: o diretor recorre a procedimento semelhante desde “Cineasta da Selva”, usando imagens encenadas como forma de ilustrar e adensar aquilo que os depoimentos narram, dando corpo visual ao que só existe hoje em palavras e memória. Em “Honestino”, esse recurso atinge um resultado especialmente maduro, muito por conta do trabalho de montagem, reconhecido, não por acaso, com o prêmio no Festival do Rio.

Foto: Fotografando Bonito / Bonito CineSur

É a montagem que costura, com uma naturalidade importante, os depoimentos, as imagens de arquivo e as cenas ficcionais, criando um fluxo em que raramente sentimos o corte entre um registro e outro. O efeito é o de um retrato construído em camadas, quase arqueológico, em que passado e presente se sobrepõem para que o espectador não precise decodificar o real e o encenado. Até porque o real oralizado se constrói a partir de um pacto com o espectador que deve ser frágil, e uma prova são as belas imagens que a filha de Honestino traz em seu depoimento e que nem ela mesma sabe se são reais ou frutos de sua imaginação.

Brasília é protagonista. Do desenho vazado dos cobogós aos espaços subterrâneos, a arquitetura da capital é usada não como pano de fundo, mas como elemento ativo de construção de sentido: uma cidade planejada para a transparência e a modernidade que também guarda, em seus porões e passagens, as marcas físicas da repressão e do esconderijo.

Esta lenta redemocratização

Foi justamente sobre essa camada ficcional que perguntamos diretamente a Aurélio Michiles, em Bonito: se a ficção aparece em “Honestino” com uma intencionalidade diferente da que teve em seus filmes anteriores, já que as cenas encenadas se conectam de forma muito direta com o presente. É o caso da sequência em que Bruno Gagliasso, como Honestino, caminha pela UnB de hoje, onde é possível ver cartazes de Marielle Franco. Em outros momentos, mesmo o figurino revelava mistura de diferentes épocas, algo que o próprio diretor relatou durante a conversa. Aurélio responde que vivemos um processo de redemocratização inacabado, e cita que os quatro anos de governo autoritário vividos recentemente pelo país foram um reflexo direto desse processo incompleto. Um fato recente, construído sob uma estrutura dada como democrática, com governantes que se inspiraram no regime da ditadura, evocando seus torturadores e o uso da repressão.

De fato, a redemocratização brasileira segue sendo um processo, e não um episódio encerrado: não houve uma ruptura brusca com a ditadura e com seus artefatos institucionais, e um dos fatores que mais alimentam essa lentidão é justamente a falta de memória, o desaparecimento de dados, de arquivos, de corpos. “Honestino” cumpre um papel importante nesse sentido: devolve substância e rosto a uma história que corre o risco permanente de se apagar, trazendo de volta à memória coletiva a figura de Honestino Guimarães e o custo humano da luta estudantil daquele período.

Foto: Luciana Melo

Por outro lado, há perguntas sobre essa lenta e inacabada redemocratização cujas respostas não aparecem nas lentes de Aurélio Michiles, que traz a história do regime ditatorial do Brasil sob uma perspectiva, que é a de Honestino e do movimento estudantil daquela época. E como espectadores e como pessoas que pensam essa história a partir do presente, é difícil não sair da sala com questionamentos cujas respostas estão além da tela. Por que a tortura segue sendo, ainda hoje, uma prática recorrente das forças policiais brasileiras? Por que continuamos vendo mortes no campo e nas florestas, praticadas por agentes militares ou a eles vinculadas? E, numa provocação que o filme não faz, mas que ele nos convida a fazer: como se explica que o movimento negro tenha crescido e resistido justamente nesse processo pós-ditadura, marcado por uma anistia que, na prática, se restringiu a artistas e lideranças políticas? Qual é, afinal, a distância real entre a tortura sistematizada da ditadura e a violência racial brutal que segue vitimando corpos no Brasil de hoje pelos próprios aparatos policiais?

Por óbvio, nem Honestino nem Aurélio precisariam responder a todas as questões sobre a ditadura e sobre nossa lenta redemocratização. Mas há que se criticar, do nosso ponto de vista, um apontamento que se fez nos corredores de Honestino como “a cara do Brasil”. Seu mérito e resistência estão em outro lugar e Michiles faz bem ao evitar a divinização do personagem. A cultura e o cinema continuam com um papel fundamental de desvelar o complexo sistema de repressão que, digamos, conquistou sua plenitude durante o período de regime militar, mas se consolida para além do centro, dos muros da universidade, das grandes cidades.

“Honestino vestiria hoje a camisa da Mídia NINJA”

Bruno Gagliasso manda um recado à comunidade NINJA para conferir Honestino nos cinemas com a frase: “Honestino vestiria a camisa NINJA”. O chamado é um gancho para pensarmos sobre o papel do ator ao conduzir a imagem de Honestino ao tempo presente. E já que fomos citados, abrimos uma reflexão sincera sobre o papel das juventudes no período de horrores da nossa geração, seja nos movimentos estudantis, mas também fora deles. Pois, além de entender que o racismo também foi estruturante para o regime de tortura no Brasil, há que se compreender as novas formas de fazer política que cresceram inclusive nos subúrbios candangos.

Honestino também vive em uma multidão multifacetada que grava em tempo real os graves atentados policiais, que ganha protagonismo nas redes, que expõe a cara contra a violência no campo, sobe drones contra invasões nas florestas e disputa o poder em esferas que estão fora dos partidos políticos.