A apropriação abusiva que Jair Bolsonaro faz dos símbolos e das datas nacionais produziu mais um absurdo. O presidente quis transferir o desfile militar de 7 de setembro, tradicionalmente realizado no centro do Rio de Janeiro, para Copacabana, que é mais acessível para os seus apoiadores, numa estratégia para envolver o Exército numa mobilização golpista. O novo despropósito de Bolsonaro acabou provocando o cancelamento do desfile na cidade, diante de informações obtidas pelo Ministério da Defesa e tornadas públicas de que bolsonaristas radicais planejavam se infiltrar e tumultuar o evento. Trata-se de um constrangimento inédito, justo quando se comemora o bicentenário da separação do Brasil de Portugal. 

Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

 

 

Afinal, a cerimônia oficial será em Brasília, na manhã do feriado, com a presença do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Souza. Apesar disso, Bolsonaro manteve a convocação de um ato político para Copacabana, à tarde. 

Assim sendo, trata-se de um evento de caráter privado e eleitoral. Significa dizer que esse ato privado, em plena campanha, deve ser enquadrado na legislação eleitoral, como qualquer comício, inclusive quanto às despesas inerentes à sua realização. 

Hoje, a lei proíbe o financiamento privado de campanhas. Portanto, qualquer pessoa só poderia ajudar a pagar uma mobilização dessa natureza em caráter individual, nos limites legais de doações em cada caso, com o devido cômputo de todos os custos envolvidos pela campanha reeleitoral do Bolsonaro.

Empresários golpistas

O financiamento do ato bolsonarista ganhou mais importância e atenção após a denúncia de que o golpismo presidencial foi acolhido em um grupo de whatsapp composto por empresários que apoiam a reeleição.

“Prefiro golpe do que a volta do PT. Um milhão de vezes. E com certeza ninguém vai deixar de fazer negócios com o Brasil. Como fazem com várias ditaduras pelo mundo.” Essa declaração canalha do José Koury, dono do Barra World Shopping, vazou pela coluna do jornalista Guilherme Amado, do site Metrópolis, apesar das investigações sobre o grupo pela PF estarem sob sigilo da Justiça, determinado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF. 

Não deve ter sido a única apologia ao golpe, já que também estão sob investigação Luciano Hang (Havan), José Isaac Peres (shopping Multiplan), Ivan Wrobel (Construtora W3), André Tissot (Grupo Serra), Meyer Nirgri (Tecnisa), Marco Aurélio Raimundo (Mormai) e Afrânio Barreira (Coco Bambu).

Bolsonaro, Michele Bolsonaro e Luciano Hang (ao alto), em Marcha para Jesus, Balneário Camboriú (SC), junho de 2022. Foto: Alan Santos/PR

 

 

Os empresários bolsonaristas foram surpreendidos com o vazamento e alegaram que o seu golpismo foi, apenas, de caráter digital, não envolvendo ações efetivas, o que eles consideram tratar-se do mero exercício de liberdade de expressão. Também orquestraram críticas à decisão de Moraes, alegando que ela só se fundamentou na notícia publicada pelo Metrópolis, motivo insuficiente para justificar a quebra dos sigilos fiscal e telefônico dos investigados.

Apesar do sigilo da investigação, há sinais de que ela não se limita à expressão de opiniões golpistas, mas envolve justamente o financiamento de atos e ameaças de constrangimento físico ao STF e a outras instituições, inclusive por meio de vultosos depósitos feitos em favor de Mauro César Cid, ajudante de ordens do presidente, que também já vinha sendo investigado por envolvimento com fake news.

Sete de setembro

Acredita-se que alguns desses empresários estejam de fato envolvidos no financiamento dos atos convocados por Bolsonaro para a comemoração, no 7 de setembro, dos 200 anos da Independência do Brasil. 

Que ninguém se surpreenda com a eventual revelação de que empresários foram muito além de uma expressão de desejo por um auto-golpe, o que, por si só, já é deplorável. Os caminhos do dinheiro poderão indicar casos concretos em que as providências legais requeridas para a defesa do regime democrático poderão ir além das medidas de caráter investigativo já executadas. É prudente aguardar o curso da investigação antes de comprar a versão de que se tratou de mera manifestação de opinião.

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