Por Paulo César Guimarães – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Após a experiência da Copa do Mundo em três países diferentes, a FIFA dobra a aposta e sediará o principal torneio de futebol entre seleções em três continentes ao mesmo tempo. Esta pode ser uma das formas que Gianni Infantino, o atual presidente da FIFA, encontrou para agradar mais Confederações continentais e se manter no poder da entidade por mais tempo.

Para entender onde Infantino quer chegar, é preciso revisitar o inverno de 2016. A entidade máxima do futebol se afundava em denúncias até cair Josph Blatter, o então presidente da FIFA, e Michel Platini, chefe da UEFA e herdeiro natural da cadeira. Gianni, até aquele momento, era apenas um burocrata de segundo escalão, reconhecido na maioria das vezes por sortear bolinhas nos eventos da Champions League.

O então secretário-geral da UEFA, Gianni Infantino, no sorteio de oitavas de finais da Champions League 2015/2016. Pouco depois seria eleito presidente da FIFA (Foto: Getty Images para a UEFA)

Ele se vendeu como o “gestor técnico” capaz de pacificar a entidade, venceu a eleição extraordinária de 2016 e não saiu mais do topo do poder do futebol. Gianni Infantino revelou-se um político habilidoso e aproveitou uma brecha legal do Conselho da FIFA para poder disputar a eleição de 2027, alegando que os primeiros 39 meses no poder da entidade, completando o tempo de Blatter, não contavam como um mandato completo.

Sua grande aposta de movimento neste tabuleiro atende pelo nome de “Copa do Mundo de 2030”. Após satisfazer três países ao mesmo tempo em 2026 e cair nas graças da CONCACAF, entidade responsável pelo futebol na América do Norte e Central, a ideia agora é fatiar o torneio por seis países e três continentes diferentes. Infantino quer vender uma ode à união dos povos, mas está estava pavimentando, voto a voto, sua permanência no trono da FIFA.

O Sistema de Decisões da FIFA

O poder da FIFA é formalmente democrático, baseado no princípio de “um país, um voto”. Desse modo, as 211 associações membros têm gigantes como o Brasil ou a França com o mesmo peso político que ilhas do Pacífico ou pequenas nações caribenhas. Infantino entendeu perfeitamente essa engrenagem de como satisfazer os aliados e neutralizar toda e qualquer oposição ao seu mandato.

Gianni reforçou de forma substancial o programa FIFA Forward, prometendo injetar bilhões no desenvolvimento do futebol global, e expandiu a Copa do Mundo de 2026 para 48 seleções, reduzindo o tom das críticas que sua gestão vinha recebendo. Afinal, quem ousaria ir contra o homem que está multiplicando as receitas do futebol e possibilitando a diversidade no maior torneio de futebol do mundo?

Anúncio da Copa do Mundo de 2030 em seis países e três continentes (Foto: Divulgação/Fifa)

As denúncias de compras de votos na escolha das sedes das Copas de 2018 e 2022 quase extinguiram a entidade. Infantino redesenhou este processo e deu poder ao Conselho da FIFA, que é acompanhado de perto pelo presidente, de afunilar candidaturas antes que cheguem ao Congresso aberto.

O Tabuleiro Geopolítico

O ápice dessa movimentação ocorreu com o anúncio da Copa do Mundo de 2030. Assim, pela primeira vez na história, o torneio será jogado em três continentes distintos, tendo como sedes Marrocos (África), Portugal e Espanha (Europa) como os anfitriões principais e, em “homenagem” ao centenário da primeira Copa (1930), Uruguai, Argentina e Paraguai receberão as três partidas que abrem a competição.

Com a justificativa oficial de “unir o mundo através do futebol”, concedendo os jogos de abertura para a América do Sul (CONMEBOL) e deixar o todo do torneio para ser dividido pela Europa (UEFA) e pela África (CAF), Infantino realizou um xeque-mate político triplo, deixando o caminho livre para a chegada do dinheiro saudita.

O TABULEIRO GEOPOLÍTICO DE INFANTINO
ConfederaçãoRegiãoMoeda de Troca a ser Oferecida
CONCACAFAmérica do Norte e CentralSede da Copa em 2026
CONMEBOLAmérica do SulJogos em três países na abertura da Copa 2030 (Comemorativo ao Centenário das Copas)
UEFAEuropaSedes Principais da Copa 2030 (Espanha e Portugal)
CAFÁfricaSede Principal da Copa 2030 (Marrocos)
AFCÁsiaCaminho livre para a Arábia Saudita em 2034
Resultado Esperado: Grande apoio a Infantino na reeleição em 2027

*Tabela 01: Tabuleiro Geopolítico de Infantino – Fonte: Autor

Ele conseguiu agradou a CONMEBOL, entregando uma fatia do sonhado torneio centenário aos sul-americanos e conquistou a UEFA e a CAF ao contemplar o eixo luso-espanhol, anexando Marrocos como sede principal.

Assim, com a América do Norte contemplada em 2026 e Europa, África e América do Sul em 2030, Infantino acionou as regras de rotação da FIFA, permitindo que apenas a Ásia e a Oceania pudessem pleitear o torneio em 2034. E em um passe de mágica, a Arábia Saudita emergiu como candidata única e levou a Copa por aclamação.

Infantino anunciando a Arábia Saudita como anfitriã da Copa do Mundo FIFA 2034 (Foto: Harold Cunningham – FIFA via Getty Images)

O Impacto na Escolha do Novo (Antigo)

Infantino percebeu que, para se manter no poder absoluto, não é mais necessário que se compre os cartolas, ele encontrou uma maneira mais sutil: Basta lotear o maior patrimônio do futebol mundial em parcelas continentais, distribuindo vagas Copa e ampliando o número de sedes.

E o plano, ao que parece, funcionou perfeitamente, mas a certeza só teremos em março de 2027, na votação que será realizada no Marrocos, uma das nações beneficiadas pelo arranjo, e indicará o novo (antigo) presidente da entidade.