Por Alan Barros – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Durante a Copa do Mundo, torcedores argentinos protagonizaram dois episódios de racismo que viraram caso na FIFA. O primeiro, em 3 de julho, teve como alvo o streamer norte-americano Speed, de 21 anos, que vestia a camisa da seleção de Cabo Verde. O segundo, no dia 7, ocorreu contra o Egito, onde torcedores teriam imitado macacos durante a comemoração do terceiro gol, confirme informado pela delegação egípcia. Diante da ofensa, o técnico egípcio Hossam Hassan cruzou os braços em “X”, ativando o sinal oficial de denúncia de racismo pela primeira vez na história das Copas, mas a arbitragem não interrompeu o jogo.

Assim como em episódios anteriores, o capitão da Argentina, Lionel Messi, não se pronunciou sobre os casos.

O silêncio

Para muitos, Messi, é um extraterrestre. A forma como domina a bola, lê o jogo e decide partidas o colocou no ápice da pirâmide do futebol mundial. Contudo, há uma dimensão onde o “ET” se apequena diante de outros gigantes do esporte: a coragem social.

O silêncio de Messi diante do racismo da torcida argentina não é uma simples omissão, é o atestado de que, no legado humano, ele corre o risco de ser o menor dos gigantes. Afinal, de que vale a influência de um ídolo global se ela se cala diante da intolerância que ecoa em nome de sua própria nação?

Padrão histórico

O que a Copa escancarou sobre a torcida argentina, a Libertadores já registrava. Em 2022, Corinthians x Boca Juniors virou pauta policial: em abril, um torcedor argentino foi preso na Neo Química Arena por imitar macaco na direção da torcida brasileira. No jogo seguinte, na Bombonera, mais torcedores foram flagrados repetindo o gesto. Nas oitavas, de volta a São Paulo, novas detenções por gestos de macaco e uma saudação nazista na arquibancada. A CONMEBOL multou o Boca em R$ 143 mil.

Em 2023, na semifinal contra o Palmeiras, um torcedor do Boca exibiu na Bombonera um celular com a palavra ‘macaco’ escrita na tela, de frente para os brasileiros, enquanto outros faziam gestos em grupo. A punição veio meses depois: multa de 100 mil dólares, redução de quase 3 mil lugares num setor do estádio argentino e a obrigação de hastear uma bandeira com a frase ‘basta de racismo’. Antes do jogo de volta, o próprio Boca publicou recomendações de segurança pedindo que sua torcida não cometesse atos racistas em São Paulo, sob risco de prisão imediata. Um clube alertando os próprios torcedores sobre o crime que costumam cometer. Não mudou.

Em abril de 2024, torcedores do Estudiantes imitaram macacos na direção de gremistas em La Plata. No mesmo ano, uma torcedora do San Lorenzo fez o gesto de macaco contra a torcida do Palmeiras, o clube foi multado em 120 mil dólares pela CONMEBOL e, meses depois, torcedores do mesmo San Lorenzo repetiram o gesto contra a torcida do Atlético-MG. Em abril de 2025, um torcedor do Talleres foi flagrado imitando macaco para a torcida do São Paulo em Córdoba. Em abril de 2026, um torcedor do Boca Juniors foi preso no Mineirão fazendo gestos de macaco durante Cruzeiro x Boca.

O Observatório da Discriminação Racial no Futebol registra a recorrência. A CONMEBOL elevou a multa mínima para 100 mil dólares em 2022. Cinco anos seguidos de casos dizem quanto adiantou. 

Quando a própria federação tentou, a torcida respondeu. Em março de 2025, antes de Argentina x Brasil no Monumental, a AFA publicou uma campanha contra o racismo dirigida “a todos os torcedores”. Nos comentários do post, torcedores argentinos responderam com emojis de macaco e imagens nazistas. Durante o jogo, um homem levantou do assento, imitou um macaco na direção da torcida brasileira e sentou de volta, sorrindo. Ninguém ao redor reagiu. A torcida da seleção chegou à Copa de 2026 já punida por racismo pela FIFA.

E a cultura não ficou na arquibancada. Depois do bicampeonato da Copa América de 2024, a live de Enzo Fernández, dentro do ônibus da delegação, flagrou jogadores da seleção argentina cantando a música racista de 2022, criada por torcedores argentinos mirando os jogadores negros da seleção francesa: “Jogam pela França, mas são todos de Angola”. Além de atacarem a origem da mãe e pai de Mbappé, levantaram pautas transfóbicas. Essa canção virou hino “informal” da campanha do título. O flagra na live não mostrava mais a torcida, desta vez, eram os “campeões” da seleção argentina cantando.

Após o episódio, a Federação Francesa denunciou à FIFA e à Justiça, e o Chelsea abriu procedimento disciplinar. Do outro lado, Enzo apenas pediu desculpas, enquanto Rodrigo De Paul minimizou: “Cantamos mais como brincadeira.”

Em fevereiro de 2026, o atacante Gianluca Prestianni, revelação argentina, cobriu a boca com a camisa durante uma discussão com o brasileiro Vini Jr., em partida da Champions League. O francês Mbappé, que também estava em campo, contou o que ouviu: “Ele disse ‘macaco, macaco, macaco, macaco, macaco’. Eu ouvi. Jogadores do Benfica também ouviram”. Na investigação da UEFA, Prestianni se defendeu dizendo que não chamou Vini de macaco e que teria proferido um insulto homofóbico. O caso rendeu ao argentino uma suspensão global por seis jogos determinada pela UEFA e validada pela FIFA, ficando fora da convocação para a Copa do Mundo. O episódio também resultou na criação da Lei Vini Jr., aplicada pela FIFA no Mundial, que prevê a expulsão direta do jogador que cobrir a boca durante uma discussão em campo.

Então, veio a Copa de 2026, e as ofensas discriminatórias reapareceram. 3 de julho, Miami, Argentina 3 x 2 Cabo Verde: o streamer IShowSpeed, um homem negro, de 21 anos, com 50 milhões de seguidores, vestindo a camisa cabo-verdiana, foi hostilizado e alvo de insultos racistas de torcedores argentinos. A FIFA abriu investigação. 7 de julho, Atlanta, Argentina 3 x 2 Egito: Speed, agora com a camisa egípcia, foi alvo de novo. O gesto de macaco foi filmado, sem qualquer constrangimento por parte do criminoso que o reproduzia. Copos de cerveja voaram sobre torcedores egípcios. O técnico do Egito cruzou os braços em X, gesto que aciona o protocolo antirracista, mas não houve interrupção da partida.

Até a data desta matéria, não houve impedimento ou qualquer forma de punição. A FIFA divulgou nota condenando “veementemente o racismo” e afirmando que quem compromete esses valores “não é bem-vindo em nosso esporte”. Essa foi a única resposta.

Da arquibancada para o ônibus da seleção. Do ônibus para dentro de campo. Do campo para o palco máximo.

Os que falaram 

Racismo no futebol nunca foi só sobre futebol. O estádio é onde um país aparece sem filtro e foi dos gramados que saíram alguns dos gestos políticos mais importantes do esporte. 

No Brasil da Ditadura, Reinaldo, maior artilheiro da história do Atlético-MG, comemorava cada gol de punho cerrado erguido, o gesto dos Panteras Negras. Foi perseguido pelo regime, difamado, cortado da Copa de 1982 e anistiado. Em 2025, décadas depois, o jogador foi indenizado. Aos 64, no palco do Bola de Prata, subiu com o mesmo punho e declarou: “Devemos sempre lutar, lutar e fogo nos racistas”. Na mesma década, Sócrates fazia do Corinthians a Democracia Corintiana. “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia” estampava a camisa, em plena Ditadura.

Em 2006, Samuel Eto’o, então companheiro de Messi no Barcelona, parou de jogar na Romareda sob gritos de “macaco”. “No más!”, gritou em resposta e caminhou para fora do campo. Da revolta dele nasceu, em 2007, a lei espanhola contra a violência e a xenofobia no esporte.

Lilian Thuram, campeão do mundo em 98, dedicou o pós-carreira a uma fundação de educação antirracista e escreveu “O pensamento branco”.

Para os maiores, posicionar-se sempre fez parte do ofício.

13 de setembro de 2020, Parque dos Príncipes. Neymar avisa o quarto árbitro aos 37 do primeiro tempo: “Racismo, não”. O brasileiro relata ter ouvido “mono hijo de puta” de Álvaro González. Ninguém age. No fim do jogo, dá um tapa no zagueiro, é expulso e sai apontando: “Racista”. No dia seguinte, ele voltou a se pronunciar: “Achei que não poderia sair sem fazer nada, porque percebi que os responsáveis não fariam nada.”

Na época, a liga francesa absolveu González por “falta de provas convincentes”. O denunciante ficou com o vermelho.

21 de maio de 2023, Mestalla. Vini Jr interrompe o jogo, aponta o torcedor que o chama de macaco e aciona o árbitro. Quem acaba expulso é ele. Naquela noite, escreve: “O campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi, hoje é dos racistas”. Dois dos quatro respondem: Ronaldinho posta apoio; Ronaldo escreve “enquanto houver impunidade e conivência, haverá racismo” e fecha com “conte comigo”; Messi, nada. A imprensa registra o silêncio do “ET”.

Seguindo com a luta, Vini consegue a primeira condenação criminal por racismo em estádio na história da Espanha e leva a pauta à FIFA e à ONU. E Pelé, o homem que virou sinônimo da palavra futebol, cobrado a vida inteira por não falar mais, escolheu uma das últimas mensagens públicas da vida, três meses antes de morrer, para defender Vini: “O futebol é alegria. É uma dança. E nós continuaremos combatendo o racismo desta forma: lutando pelo nosso direito de sermos felizes”. O maior de todos gastou uma das últimas palavras que tinha com isso.

Mbappé fechou o ciclo nesta Copa. Alvo nominal da música argentina de 2022, foi dele a denúncia pública no caso Prestianni. E em 4 de julho, depois de eliminar o Paraguai nas oitavas, virou alvo da senadora paraguaia Celeste Amarilla, que atacou sua origem e sua aparência comparando-o a animais. A resposta dele, dois dias depois, correu o mundo: “Você é uma mulher desprezível e indigna de sua função. Você não representa o Paraguai”. Chamou o ataque de “racismo descomplexado” e encerrou: “Eu nunca deixarei que pessoas como ela tenham a liberdade de propagar seu ódio e seu racismo pelo mundo”. A Federação Francesa denunciou a senadora ao Ministério Público e a ministra do Esporte da França se manifestou. Até o governo do Paraguai repudiou a própria parlamentar.

Diante de um único ataque, um capitão falou e três instituições de dois países se pronunciaram na sequência. É assim que funciona quando o capitão abre a boca.

O capitão

A omissão de Messi o torna pequeno diante dos verdadeiros gigantes.

Em 2022, a canção racista virou hino do título. Messi não comentou o episódio. Dois anos depois, em 2024, os companheiros dele cantam a letra discriminatória no ônibus da delegação argentina, a França denuncia, a FIFA investiga, mas “Messi se cala”, como registrou a Placar. Julio Garro, subsecretário de esportes, pede que o capitão se desculpe e, dias depois, é demitido pelo governo Milei. Na Argentina, cobrar o capitão custa o emprego.

E o silêncio do camisa 10 se repete em 2026, enquanto duas investigações da FIFA, entre 3 e 7 de julho, investigam as acusações de racismo por parte de torcedores da Argentina na Copa do Mundo.

Messi é o capitão da torcida de onde saíram as ofensa. Nenhum ser humano vivo tem mais autoridade sobre essa arquibancada do que ele. Nem mesmo a AFA, qualquer multa ou qualquer campanha têm esse poder. Uma frase dele poderia encerrar qualquer cântico, gestos e ofensas. Mas, não há qualquer posicionamento do “ídolo”. Quando o capitão se cala, o silêncio vira permissão.

Grandeza se mede em dois campos. No gramado, Messi pode ser tratado como o melhor. Fora dele, Reinaldo ergueu o punho contra uma Ditadura; Sócrates votou; Eto’o saiu de campo; Pelé parou guerras, deu diversas declarações; Neymar entrou em confusão; Vini parou o jogo; e Mbappé não se calou.

No final, nunca foi só sobre futebol e é exatamente por isso que o silêncio de Messi não é neutro. Um dos maiores de todos escolheu ser o menor dos grandes. Os braços cruzados e punhos cerrados estão aí, coisas das quais o Messi nunca se propôs.