Egito renasce pelos pés de Mohamed Salah
Liderando uma geração que quebrou tabus de quase um século, Salah transformou o futebol nacional e tornou-se um pilar de união social
Por Luan Chechi – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
O momento que redefiniu a história esportiva do Egito aconteceu em 21 de junho de 2026, no gramado de Vancouver. Após mais de nove décadas de espera, desde sua estreia em mundiais em 1934, a seleção egípcia conquistou sua primeira vitória na história das Copas do Mundo ao bater a Nova Zelândia por 3 a 1 e o protagonista foi Mohamed Salah, servindo uma assistência para o gol de empate e, logo depois, marcando o gol da virada em uma jogada individual. Ao ser ovacionado por um estádio inteiro de pé, Salah não apenas quebrou um tabu secular, mas tornou-se o jogador africano mais velho a marcar e dar assistência em um mesmo jogo de Mundial.
A jornada de Salah com a seleção principal começou em 3 de setembro de 2011, em uma partida contra Serra Leoa. Seu primeiro gol veio logo em outubro do mesmo ano, contra o Níger, mas foi nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, que ele brilhou globalmente ao marcar em todos os jogos da fase de grupos. No entanto, sua consagração como herói nacional ocorreu em 8 de outubro de 2017. Diante de 85 mil torcedores, Salah marcou os dois gols da vitória por 2 a 1 contra o Congo, selando a classificação para a Copa de 2018 com um pênalti dramático aos 95 minutos, encerrando um hiato de 28 anos sem participações em mundiais.
A “Quarta Pirâmide”
Para além do brilho nos estádios europeus, Salah é reverenciado no Egito como o “Criador de Felicidade” e a “Quarta Pirâmide”, títulos que refletem sua profunda ligação com o povo e seu papel como motor de mudança social. Ele nunca esqueceu suas raízes em Nagrig, onde financiou a construção de uma escola para meninas, um centro de juventude e uma estação de tratamento de esgoto para servir a região de Basyoun. Sua generosidade também alcançou a saúde pública, com doações milionárias para o Instituto Nacional do Câncer no Cairo e a renovação de unidades de terapia intensiva no hospital de sua província natal.
Ele personifica a união em um país muitas vezes dividido. Como muçulmano devoto, enviou uma mensagem de tolerância ao doar 3 milhões de libras egípcias para a reconstrução de uma igreja copta atingida por um incêndio em Giza. Sua conduta ética manifesta-se até em gestos pessoais, como quando convenceu o próprio pai a não prestar queixas contra um assaltante que roubou sua casa, preferindo dar o dinheiro e ajudá-lo a encontrar um emprego. Esse compromisso com o próximo, transformou-o em um modelo de reciprocidade ética para toda uma nação.

A consagração de um ícone
Na Copa de 2026, Salah liderou uma geração sob o comando de Hossam Hassan que superou todas as marcas anteriores. Além da vitória inédita na fase de grupos, o Egito avançou pela primeira vez para as fases eliminatórias de um Mundial. Nos 16 avos de final contra a Austrália, o capitão demonstrou nervos de aço ao converter sua cobrança de pênalti com uma cavadinha, garantindo a vaga nas oitavas de final. O sonho terminou em um duelo contra a Argentina, em Atlanta, onde os egípcios chegaram a abrir 2 a 0 antes de sofrerem uma virada controversa por 3 a 2 nos acréscimos, saindo de campo aplaudidos por mais de 70 mil espectadores.
Números pelo Egito
- 118 jogos
- 68 gols (!)
- 35 assistências (!)
Com esses números, Salah é o segundo maior artilheiro da história da seleção atrás da lenda nacional Hossam Hassan, que marcou 69 gols ao longo de sua carreira e, curiosamente, é o atual treinador da seleção egípcia.

O impacto de Salah é tão profundo que o governo egípcio formalizou sua trajetória no currículo escolar nacional, ensinando aos jovens sobre seu sucesso esportivo, sua humildade e seu compromisso ético. Mais do que um goleador, ele provou ser uma figura que representa a mudança social, associado a uma redução comprovada de crimes de ódio e islamofobia na Inglaterra. Ele encerra este ciclo como o “Criador de Felicidade” que devolveu ao seu povo o orgulho e a esperança em sua própria identidade.



