Trump tenta influenciar o rumo da Copa como Mussolini
Da anulação de cartão à era Mussolini: como a política e a tirania moldaram e interferiram em Copas do Mundo
Por Giuseppe Capaldi – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
No dia 1º de julho, Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina entraram em campo no Levi’s Stadium, na Califórnia, buscando a classificação para as oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Os donos da casa dominavam o jogo e abriram o placar com Folarin Balogun, ainda no primeiro tempo, e fecharam com uma bela falta de Tillman. Porém, o destaque do duelo foi a expulsão de Balogun, aos 64 minutos de jogo, após o árbitro brasileiro Raphael Claus ser chamado pelo VAR, do venezuelano Juan Soto, e advertir corretamente o camisa 20.
Dias depois, em 5 de julho, a FIFA divulgou que o cartão vermelho dado ao atacante não iria acarretar na suspensão automática para a partida contra a Bélgica, além de abrir um prerrogativa enorme para que todo e qualquer cartão possa ser questionado pelas demais federações, ainda se abriu a suspeita de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, poderia estar utilizando de sua influência e suspeita amizade com o presidente da FIFA, Gianni Infantino, para benefício de sua seleção. E foi justamente isso que se confirmou horas depois, com Trump afirmando na Casa Branca que ligou para Infantino pedindo uma revisão da punição, a qual foi prontamente atendida.
Balogun entrou em campo contra a Bélgica, e nada pôde fazer para evitar a sonora goleada dos belgas por 4 a 1. Mesmo com os Estados Unidos não conseguindo a classificação com um empurrão fora das quatro linhas, novamente a Copa do Mundo foi utilizada para benefício político de um tirano. Há 92 anos, outro fascista se utilizava do maior torneio de futebol do mundo.
A Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália, ocorreu justamente por conta de Benito Mussolini, e com aval do então presidente da FIFA, Jules Rimet, por conta do massivo investimento econômico feito pelo fascista italiano, que bancou os gastos necessários para que ocorresse o torneio, vencendo a disputa contra a Suécia para sediar a competição.

Um dos primeiros passos para benefício dos anfitriões foi a flexibilização para a naturalização de jogadores de origem italiana, prática muito comum nos dias de hoje, mas incomum na época. Os argentinos Luisito Monti, Raimundo Orsi, Atilio Demaría e Enrico Guaita, vice-campeões na edição de 1930, e o brasileiro Anfilogino Guarisi, conhecido por aqui como Filó, com passagens por Portuguesa, Corinthians e Palmeiras, fizeram parte do elenco do técnico Vittorio Pozzo.
Além das mudanças de regras, Mussolini também interferiu nas arbitragens das partidas, tendo poder de escolha nas partidas da própria Itália. O árbitro sueco Ivan Eklind, com apenas 28 anos na época, foi escolhido para apitar a semifinal contra a Áustria e também a final, contra a extinta Tchecoslováquia, ambas partidas terminaram com a vitória dos italianos e, como esperado, com decisões de arbitragem questionáveis.
No Estádio Nacional de Roma, demolido em 1957, a Itália conquistou a sua primeira Copa do Mundo, com gols de Orsi, um dos argentinos naturalizados, e Schiavio, concluindo o objetivo de propaganda fascista de Benito Mussolini.
Décadas depois, a história parece se repetir.
Em março de 2018, durante tensões entre Irã e Arábia Saudita, o atual presidente da FIFA, Infantino, declarou: “Está muito claro que a política deve permanecer fora do futebol, e o futebol, fora da política”. Fala que demonstra profunda hipocrisia diante das situações que se evidenciam na Copa do Mundo de 2026.
Em 2022, em carta destinada às seleções que disputariam o Mundial, divulgada pela emissora britânica Sky News, o dirigente rebateu protestos de luta de Direitos Humanos para profissionais que foram vitimados em obras de preparação do evento.“Por favor, não permita que o futebol seja arrastado para todas as batalhas ideológicas ou políticas que existem”, escreveu.
Mesmo com exemplos do século passado, e atuais, com aval do próprio Gianni Infantino, o presidente da FIFA ainda insiste na velha premissa de que “futebol e política não se misturam”, a não ser, é claro, que os seus aliados queiram determinar o curso da bola.



