Além do esporte, Copa do Mundo impulsiona a identidade nacional
O futebol contemporâneo traz novos contextos, mas a relação entre o Mundial e o nacionalismo continua pulsando
Por Gabriel Felipe Silva Coelho – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Na última segunda-feira, 29 de junho, a seleção nacional do Paraguai fez história após eliminar a seleção da Alemanha em uma partida eletrizante pela Copa do Mundo de 2026. Com o final do tempo normal e da prorrogação, a insistência do placar igualado em 1 a 1 levou a decisão para os pênaltis, onde o Paraguai venceu por 4 a 3. Em paralelo, algo chamou a atenção de brasileiros não tão imersos no mundo do futebol: o jogador Maurício, de 25 anos, camisa 11 da seleção paraguaia e o primeiro a balançar as redes na disputa por pênaltis. Maurício nasceu em São Paulo, capital do estado, e defende atualmente as cores do Palmeiras — tendo atuado também por Cruzeiro e Internacional.
Alguns dos espectadores estranharam ao ver um brasileiro jogando pela seleção paraguaia ou, em casos ainda mais curiosos, questionaram como um paraguaio falava português soando tão proximamente como um nativo. Maurício optou por se naturalizar paraguaio devido à ligação existente entre o país e parte de sua família paterna.

Esse não é o único exemplo de jogadores que se naturalizaram para disputar essa Copa do Mundo em países diferentes dos que nasceram. Aliás, como já foi ressaltado na cobertura colaborativa do Ninja Esporte Clube, em matéria de William Pessoa (Mundo sem fronteiras: Copa bate recorde histórico de jogadores naturalizados – Mídia NINJA), a edição atual bateu recorde com relação ao número de jogadores que se enquadram nessa situação (mais de 250, no total).
Para alguns torcedores mais tradicionalistas, entretanto, essa não é uma estatística que agrada. Ela poderia significar que a relação entre a Copa do Mundo e a identificação dos jogadores e torcedores com suas nações estaria se perdendo, e o futebol estaria deixando de ser uma arena de expressões de sentimentos nacionalistas.
Outro contexto que se conecta e amplia a discussão sobre futebol, nacionalismo e identidade na contemporaneidade diz respeito à relação entre a seleção francesa de futebol e fluxos migratórios que acontecem no país. Diferentemente dos casos de jogadores naturalizados, a maior parte do elenco francês nasceu, de fato, no país, mas essa mesma maioria possui pais que migraram de outros países, especialmente de antigas colônias francesas na África e no Caribe.

No Brasil, a relação entre a população brasileira e a seleção nacional é histórica, onde existe um sentimento atrelado à ideia de que a seleção pertence aos brasileiros, e ela, por sua vez, seria um produto da nossa identidade e da maneira com a qual significamos o futebol. Isso se expressou recentemente, quando a contratação do italiano Carlo Ancelotti para o comando técnico da seleção não foi unânime — mesmo com seu currículo badaladíssimo.
Essas situações acendem um debate sociológico: o futebol contemporâneo está, de certa maneira, colocando em risco a relação entre o futebol — especialmente no que tange a eventos globais como a Copa do Mundo — e a expressão de identidades nacionais?
Por mais que a intensificação do número de jogadores naturalizados seja uma pauta quente, o debate que levantei no parágrafo anterior não é novidade na Sociologia do Esporte. Escher e Reis (2006), por exemplo, discutiram isso na literatura nacional há 20 anos, no contexto da Copa do Mundo de 2006. Para o autor e a autora, o que vem colocando essa discussão em pauta ao longo do século XXI são as transformações recorrentes do que o sociólogo do esporte britânico Richard Giulianotti sinaliza como a transição do futebol moderno para o futebol “pós-moderno”.
O estabelecimento do futebol “pós-moderno”, segundo Giulianotti (1999), se dá através de transformações provocadas por processos como a globalização e a transnacionalização, e, especialmente, a hipercomercialização do esporte. Devido a essas transformações, houve uma potencialização dos fluxos migratórios de jogadores de todo o planeta para jogar nas chamadas equipes transnacionais — sendo essas aquelas que possuem um elenco multicultural e um alto potencial de alcance global. Podemos citar como exemplos equipes localizadas majoritariamente na Europa, como o Real Madrid, Barcelona, Manchester City, Bayern de Munique, Paris Saint-Germain e outras. Esse contexto de transnacionalização estaria transformando as relações entre jogadores, clubes e torcidas, influenciando diretamente nas expressões de sentimento nacionalista.
Essa perspectiva de “pós-futebol” pode ser um fundamento para compreender, no contexto de 2026, a flexibilização das diretrizes e o aumento do número de jogadores naturalizados, que atingiu seu ápice na edição atual. Ressalta-se também o alto número de jogadores de seleções de todos os continentes que atuam em clubes das grandes ligas europeias, algo que já não é uma novidade em Copas do Mundo.
Por outro lado, o que Escher e Reis já ressaltavam é que as relações entre futebol e nacionalismo não estão se apagando totalmente no contexto futebolístico do século XXI, mas sim, passando por transformações a partir de novas lógicas, estruturas e significações desse esporte. Afinal, o sentimento nacionalista, assim como outros aspectos da identidade humana, é construído, não fixo, e se transforma a partir de influências sociais e culturais que mudam com o tempo.
Se olharmos com cuidado para a Copa do Mundo de 2026, ainda podemos observar as expressões nacionalistas pulsando nos estádios e nos outros ambientes em que tem se vivido o evento. Quem não se atentou à remada viking norueguesa? Uma prática que ritualizou elementos da identidade nacional da Noruega no contexto futebolístico. E quanto ao sentimento de união latino-americana, observável nas mídias sociais, para celebrar a vitória do Paraguai contra a Alemanha? Ou ainda, o novo protocolo de execução dos hinos nacionais determinado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), que envolve trazer todos os jogadores das seleções para o centro do gramado nesse momento pré-jogo, facilitando a visualização e o destaque a símbolos nacionais para todos os torcedores presentes nos estádios.
Mesmo após as transformações e resignificações do futebol, a Copa do Mundo continua sendo uma competição de disputa entre nações, e não entre jogadores ou clubes. A FIFA não extinguiu rituais nacionalistas como o canto de hinos e cânticos locais, ou a utilização de cores e bandeiras que remetem às nações. Muitos torcedores brasileiros continuam pintando as ruas de verde e amarelo, desfilando no dia a dia com a camisa da seleção e torcendo contra a seleção da Argentina.
A transmissão dos jogos da copa, mesmo após ter se transformado significativamente nos últimos anos com a ascensão dos veículos digitais, continua, ao menos no Brasil, ainda sendo fortemente marcada por expressões nacionalistas dos narradores e comentaristas esportivos, que demonstram intensamente sua torcida pela seleção brasileira. Marcas comerciais ainda utilizam narrativas nacionalistas para potencializar o alcance e venda de seus produtos durante a Copa.
Portanto, o contexto é bem mais complexo do que a ideia de que as identidades nacionais estão sendo apagadas do futebol. Ainda que a transnacionalização do esporte e o fluxo de jogadores com destino à Europa possam, de fato, operar em favor de uma padronização do esporte em todo o planeta e um crescimento descontrolado da popularidade dos clubes que fazem parte das principais ligas europeias, ainda existe uma heterogeneidade de significações sobre as práticas futebolísticas, e a Copa do Mundo é ainda, talvez, o maior espaço de florescimento dessa diversidade.
O futebol é um fenômeno complexo e multifacetado, ou seja, é possível compreender, como bem aponta Damo (2005), que existem múltiplos futebóis, com significados diversos assumidos na prática e no consumo desse esporte. O futebol que se assiste na Copa do Mundo é interpretado de diferentes formas nos diferentes cantos do planeta e possui percepções particulares. É justamente essa uma das características essenciais que tornam a Copa do Mundo um evento de tamanha magnitude e tão marcante na vida dos espectadores.



