Por Karoline Naeyli – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

A cada quatro anos, a Copa do Mundo transforma a vida de milhões de pessoas. Horários são reorganizados, encontros são marcados em torno dos jogos e, durante noventa minutos, a atenção de boa parte do país se volta para uma mesma partida. Em um evento que mobiliza multidões e atravessa gerações, acompanhar os jogos parece quase uma experiência coletiva. Mas essa não é a realidade de todos. Enquanto torcedores se reúnem em casas, bares e praças para assistir às partidas, milhares de trabalhadores continuam em atividade. Entregadores cruzam a cidade com pedidos feitos para acompanhar os jogos, motoristas seguem realizando corridas e profissionais de diferentes áreas mantêm suas rotinas normalmente. Para eles, a Copa acontece entre uma tarefa e outra.

A imagem de um país que paralisa para assistir ao Mundial faz parte do imaginário brasileiro há décadas. No entanto, mesmo durante os jogos mais aguardados, uma parcela da população continua trabalhando para manter serviços essenciais e atender a uma demanda que costuma crescer justamente nos momentos de maior mobilização. Levantamentos mostram que 49% dos brasileiros decidem o que consumir durante a partida. O dado ajuda a explicar o aumento no consumo de alimentos e bebidas durante os jogos e, consequentemente, o crescimento da demanda por entregas e outros serviços ligados ao setor. Enquanto milhões acompanham a transmissão, há quem passe os noventa minutos entre entregas e deslocamentos.

A Copa que chega em fragmentos

Essa relação entre trabalho e Copa não é recente. Em outras edições do torneio, reportagens já mostravam caminhoneiros acompanhando partidas pelo rádio enquanto percorriam estradas brasileiras. Muito antes dos aplicativos de placar em tempo real e das notificações instantâneas, o rádio era uma das principais formas de manter contato com os jogos sem interromper a jornada de trabalho.

Mais de uma década depois, a tecnologia mudou, mas a lógica permanece semelhante. Para muitos trabalhadores, a Copa continua chegando em fragmentos, seja em um placar consultado rapidamente no celular, na narração escutada por alguns minutos ou em vídeos assistidos durante um intervalo. Até mesmo o gol descoberto pelo grito que ecoa das ruas ou pela comemoração que atravessa a janela de um estabelecimento se torna uma forma de vivenciar o momento. É uma experiência marcada por interrupções, em que os lances são acompanhados em pedaços e a emoção do jogo precisa dividir espaço com as exigências do trabalho.

Trabalhar também significa abrir mão

As transformações tecnológicas ampliaram as possibilidades de acompanhar a competição em movimento, mas não eliminaram a necessidade de escolher entre assistir e trabalhar. Em períodos de grande circulação econômica, como a Copa do Mundo, muitos profissionais enxergam nos jogos uma oportunidade de aumentar os ganhos, mesmo que isso signifique abrir mão da experiência de acompanhar as partidas do início ao fim.

Como relata Antônio Saraiva, garçom e morador de Maceió, em Alagoas: “Você abdica da maior parte desses momentos que poderiam ser curtidos com a família e amigos para suprir as necessidades.”

O cenário evidencia uma contradição comum em eventos de grande mobilização popular: enquanto milhões de pessoas compartilham uma experiência coletiva, existe uma rede de trabalhadores que torna esse momento possível. São eles que transportam passageiros para encontros entre amigos, entregam refeições para quem assiste aos jogos em casa e mantêm diferentes serviços em funcionamento durante as partidas. Em comum, compartilham uma experiência diferente daquela vivida pela maioria dos torcedores: a de acompanhar a Copa do Mundo sem poder parar completamente por ela.