Arte e Vivência: a cura como gesto artivista
Pintora e performer, Micaela Cyrino fala sobre soropositividade, negritude e o corpo como território de disputa dentro da prática artística
Por Isaac Urano
O Rio de Janeiro recebe, entre os dias 26 e 31 de julho, a 26ª Conferência Internacional da Aids, primeira edição do maior evento científico sobre HIV do mundo sediada na América Latina. Debates sobre financiamento, tratamento e estigma tomam o Riocentro nesta semana, mas um recorte específico segue à margem da programação oficial. A conferência coincide com o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, celebrado em 25 de julho, e o cruzamento entre as duas datas expõe uma ausência interseccional recorrente nesses espaços: o silêncio sobre mulheres negras vivendo com HIV.
É desse silêncio que fala o trabalho de Micaela Cyrino. Paulistana, 38 anos, formada em Artes Visuais, nasceu soropositiva por transmissão vertical, em 1988, ainda no início da epidemia, e cresceu em um abrigo para crianças com HIV depois de perder os pais para a doença. Sua produção atravessa pintura, performance e intervenção urbana, no cruzamento entre soropositividade e negritude. Integra o acervo da Pinacoteca de São Paulo com retratos de corpos negros e tem uma obra sobre soropositividade no Museu da Diversidade. Performances como Clube Positivo e Cura levam essa pesquisa para fora do circuito expositivo tradicional, ocupando o espaço e o corpo. Na conversa a seguir, Micaela fala sobre a origem da série Soropositiva, o gesto de transformar bulas de remédio em matéria-prima artística e o que significa, para ela, o descompasso entre a agenda global de combate à aids e o recorte racial que permanece no subliminar.

U: Antes de qualquer rótulo, quem é Micaela Cyrino quando fala de si sem precisar explicar HIV, raça ou qualquer outra coisa que os outros já tenham nomeado por ela?
M: Sou Micaela Cyrino, tenho 38 anos, sou formada em Artes Visuais. Meu trabalho artístico dialoga tanto com a minha soropositividade quanto com a minha negritude, e minha pintura fala sobre os atravessamentos dos corpos negros femininos. Essa prática vem desde a infância. Sempre tive acesso à pintura a óleo, à cerâmica, à escultura, ao circo, ao teatro. Depois do ensino médio, entrei na faculdade de Artes e me formei ali.
U: Sua obra atravessa pintura, performance e intervenção de rua. O que te leva a escolher uma linguagem em vez de outra para cada ideia? Existe alguma delas que te exige mais do que as outras?
M: Minha linguagem atravessa várias plataformas das artes, tanto quanto meu corpo também atravessa. Não tem como ser uma coisa só ou falar em uma linguagem só. Minha prática artística dialoga completamente com a minha existência.
U: Na série Soropositiva, você usa o corpo e a palavra de um jeito bem direto. Como chegou a essa escolha estética? E o que ela te permite dizer que uma pintura mais figurativa não daria conta?
M: A série surgiu primeiro em um trabalho de lambe, feito com as minhas bolhas de remédio. Foi uma reflexão sobre o lixo que eu gero com os remédios, com as embalagens, e a quantidade de bula que sobra, que é basicamente um papel de seda que dá para reaproveitar. Comecei a serigrafar a palavra “soropositiva” nessas bulas e colá-las próximo a secretarias de Saúde, ao CRT, que é onde faço tratamento, e a outros lugares de acesso à informação sobre HIV, dialogando com o corpo para além da medicalização.
Desse processo nasceu a performance Clube Positivo, uma contrarresposta à matéria que saiu no Fantástico sobre o chamado “Clube do Carimbo”, em que supostamente pessoas infectavam outras de propósito — algo que biologicamente não se sustenta, dado o tempo que o vírus sobrevive fora do corpo. No Clube Positivo, eu convido outros artistas, soropositivos ou não, para participar. A gente se uniformiza com uma camiseta escrita “soropositivo” na frente e nas costas e convida as pessoas a ouvir a história de alguém soropositivo, seja uma história de vida, seja de amor, sempre naturalizando essa existência. Quem aceita ouvir recebe um carimbo no braço e se compromete a fazer parte do clube e espalhar aquela história adiante.
M: É muito para naturalizar a existência soropositiva mesmo, entender a quantidade de pessoas que a gente tem que são soropositivas, porque o diálogo sobre isso ainda é muito distante e tem muita fake news dentro desse processo.

U: Muita gente vai olhar sua obra e ler primeiro a biografia, o HIV, a raça, antes mesmo de olhar a forma, a cor, a composição. Isso te incomoda enquanto artista ou você usa essa expectativa a seu favor na construção do trabalho?
M: Não me incomoda nem um pouco. Acho, até, uma oportunidade de estar em diálogo com as artes de forma mais ampliada. Tenho pinturas no acervo da Pinacoteca de São Paulo, retratos de pessoas negras, e um trabalho sobre soropositividade no Museu da Diversidade, também em São Paulo. Independentemente do olhar externo, esse trabalho tem me sustentado na carreira, me mantido nesses espaços, produzindo dentro do mercado de arte.
Tenho ainda a performance Cura, disponível no YouTube, uma pesquisa sobre cura para além da medicalização, que nasceu da convivência com minha avó e minhas tias, que sempre olharam para a medicina do quintal, para as ervas, para as plantas. Em 2015, fui selecionada para uma residência artística no Equador e foi lá que desenvolvi essa performance de fato. Fui ao mercado de ervas de Quito procurando plantas parecidas com as daqui para um banho de limpeza. Encontrei algumas equivalentes e outras que dialogavam com a mesma resposta energética. A performance nasceu naquela residência e depois circulou: apresentei no SESC e no Planetário de São Paulo.
U: Amanhã é o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, na mesma semana em que o Rio recebe a Conferência Internacional da Aids pela primeira vez na América Latina. Isso muda alguma coisa no jeito como você pensa a circulação da sua obra agora?
M: O tema do Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha não está tão inserido nos diálogos da conferência, mas acho interessante que as duas datas coincidam. Rolaram ações da ICW e da Marcha das Mulheres que dialogaram com isso. Para mim, pessoalmente, é importante trazer à tona o recorte das mulheres negras vivendo com HIV no Brasil e no mundo. Os avanços da medicina são cada vez maiores, mas as mulheres negras ainda têm a vida muito negligenciada quando se trata da sorologia positiva para o HIV.

Isso me leva a pensar o que pode ser feito com esse recorte para que as coisas sejam efetivas, para que a gente olhe o HIV para além do clínico, olhando também para a saúde mental, para a estrutura física, para o território. E acho que as mulheres negras trazem isso de forma muito ampla para qualquer discussão.
Onde está situado o corpo da mulher negra quando é atravessado por essas duas interseccionalidades? Onde ela é alcançada quando até mesmo o debate lhe sonega agência, discurso e representação? O corpo da mulher amefricana é território de disputa, como já nos adiantou Lélia Gonzalez, e essa disputa antecede qualquer olhar permeado por um “diagnóstico”. A obra de Micaela, que não se isola na denúncia nem na memória, fabula sobre o “aqui e agora” ao mesmo tempo em que nos oferece um vislumbre de um “então e lá”, um horizonte que ainda não chegou, mas que já se anuncia em fragmentos, em performances, em arte, em gestos coletivos que ensaiam um mundo ainda por realizar.
O Clube Positivo me parece uma estratégia desidentificante extremamente singular. Micaela é dona da própria narrativa. Não se trata de aceitar nem de rejeitar completamente a imagem que a cultura dominante lhe impõe, mas de trabalhar de dentro, com e contra essa imagem ao mesmo tempo, tomando os próprios reflexos estigmatizantes como matéria de criação. Micaela revoluciona porque responde com comunidade, com ritual de escuta. Ouvir a história de alguém soropositivo e receber um carimbo no braço nos ensaia para um mundo em que essa existência é naturalizada em vez de temida. E que maneira mais potente de transformar o objeto em signo: justamente o carimbo, símbolo do pânico moral, converte-se em marca de pertencimento.
Micaela, e toda a sua prática, nos fala sobre o futuro, sobre uma vida que escapa das solidões e potencializa, na vivência e no viés artístico, a retomada dos corpos invisibilizados. Há aí um campo de experimentação que emociona e preenche com arte uma lacuna historicamente invisibilizada — e o faz da melhor maneira possível: por nós e com a nossa linguagem. Micaela e sua arte movem o mundo com ela.



