Por Doiara Silva dos Santos e Fernanda Santos de Abreu

Quando a Copa do Mundo se aproxima, todas as atenções se voltam para os jogadores que vão entrar em campo. Porém, uma delegação é composta por uma ampla rede de profissionais, especialistas em diversas áreas, como preparação física, nutrição, comunicação, departamento médico, logística, psicologia, entre outras. A profissionalização no futebol se dá para além das quatro linhas. Requer, cada vez mais, especialidades preparadas que podem fazer toda a diferença nos resultados. Assim, observar a composição dessas delegações pode nos fornecer indícios de que, para além do espetáculo esportivo, a Copa do Mundo e a organização das equipes constituem um espaço em que relações sociais de gênero hierárquicas se reproduzem e persistem historicamente.

O regulamento oficial da Copa do Mundo de 2026 determina que cada uma das 48 seleções pode registrar até 11 membros em suas comissões técnicas para se sentarem no banco de reservas e atuarem junto às suas delegações, sendo que um deles deve ser, necessariamente, um profissional da medicina (Regulations – FIFA World Cup 2026). O Artigo 33 do regulamento da Copa do Mundo FIFA 2026 prevê, ainda, 20 assentos adicionais na arquibancada para profissionais de apoio técnico em diversas funções. Esses profissionais têm acesso aos vestiários mediante credencial válida. O regulamento não limita o tamanho total da delegação da seleção na Copa do Mundo, mas regula quem pode ocupar o banco de reservas, a área técnica e os assentos técnicos adicionais durante os jogos, ou seja, os espaços de visibilidade do espetáculo esportivo.

O futebol possui alta circulação de capital financeiro e simbólico e, por isso, é um espaço profissional disputado não apenas por treinadores, mas também por médicos, fisioterapeutas, preparadores físicos, analistas e outros especialistas que atuam nas delegações. Apesar da diversidade de funções, a presença de mulheres ainda é reduzida. Esse espaço permanece como um reduto masculino. Estudos demonstram que, no banco de reservas, nas coberturas midiáticas e no fotojornalismo esportivo, o que se vê é uma celebração da masculinidade e a atuação de dinâmicas de homossociabilidade masculina (O’Brien, 2025; Schlesinger; Weigelt-Schlesinger, 2013). Esse termo refere-se a redes de relações, confiança e reconhecimento entre homens que contribuem para a manutenção de sua predominância em determinados espaços profissionais (Sedgwick, 1985). Basta acompanhar os jogos e observar o banco de reservas ou as cerimônias de premiação — nas quais os membros da comissão técnica também recebem medalhas — para notar a ausência de mulheres como parte dessas comissões.

Um caso excepcional na Copa de 2026 masculina é o da Dra. Suzanne Huurman, única mulher chefe de um departamento médico nesta edição, integrando a equipe de Curaçao. Brasileira, ela possui um longo currículo profissional na medicina esportiva, com atuação na Copa do Mundo feminina e também nos Jogos Olímpicos. Tornou-se apenas a terceira mulher a ocupar o cargo de médica de uma seleção masculina em 96 anos de torneio. Sua presença evidencia avanços graduais na ocupação de espaços de liderança por mulheres no esporte de alto rendimento, historicamente marcados pela predominância masculina. Ainda assim, a trajetória profissional das mulheres segue atravessada pela persistência de barreiras estruturais.

Fotos: Luigino da Silva de Jesus

Isso ocorre tanto em competições de futebol masculinas quanto femininas, como na própria Copa do Mundo de Futebol Feminino. Nesse cenário, chama atenção o fato de que, mesmo no principal torneio do futebol de mulheres, foi necessária uma intervenção institucional recente da FIFA para ampliar a presença delas em cargos técnicos. A nova política, aprovada em março de 2026, exige que todas as equipes participantes de competições de futebol feminino — torneios de base, seniores, seleções e clubes — incluam pelo menos duas mulheres na comissão técnica sentadas no banco de reservas. A medida evidencia que a baixa participação feminina não decorre da ausência de qualificação, mas de barreiras estruturais historicamente presentes na organização do esporte.

Um estudo realizado na Espanha por Burillo e colaboradores (2023) investigou por que há tão poucas treinadoras no futebol feminino de elite. A pesquisa entrevistou 15 treinadoras experientes e identificou que essa ausência está ligada a uma combinação de fatores estruturais, como baixos salários, condições de trabalho instáveis, estereótipos de gênero, falta de referências femininas e estratégias limitadas de contratação, ou seja, processos de recrutamento e promoção baseados em indicações informais e na preferência por perfis tradicionais, o que tende a favorecer a permanência de homens em cargos de liderança. Os resultados indicam, ainda, que, dentro desse contexto, algumas decisões de carreira das mulheres também influenciam esse cenário, como a escolha de deixar o futebol ou migrar para outras áreas mais estáveis e melhor remuneradas, em razão da pouca segurança profissional. Há, também, aquelas que permanecem em funções de menor visibilidade, atuando na base ou como assistentes.

Isso se estende a outras modalidades. No voleibol, Fofão, em 2023, tornou-se a primeira mulher técnica da seleção brasileira sub-17. No basquete feminino, a estadunidense Pokey Chatman é a segunda mulher a dirigir a seleção brasileira, depois de um hiato de 22 anos.

Voltando ao futebol, a Seleção Brasileira levou à Copa uma delegação de 91 integrantes, dos quais apenas quatro eram mulheres: Andréia Picanço (médica assistente e nutróloga, presente também em 2018 e 2022), Claudia Schnabl Faria (gerente-geral, responsável pela logística), Marisa Santiago (psicóloga da Seleção desde 2024) e Priscila Mesquita (assessora de marketing, ligada a ações com patrocinadores). Trata-se do dobro de mulheres em comparação a 2022 (Confederação Brasileira de Futebol, 2026).

Ainda assim, trata-se de uma presença numericamente pequena e concentrada em funções de suporte. É justamente nesse ponto que a discussão se aprofunda. O espaço profissional no futebol permanece atravessado por uma estrutura histórica que serviu e segue servindo à reafirmação de uma masculinidade hegemônica.

Ao observar a presença das mulheres nas delegações da Copa do Mundo, é necessário refletir: quais são os espaços efetivamente ocupados por elas? Quais posições de liderança e tomada de decisão conseguem alcançar?

Funções ligadas ao comando técnico, à gestão esportiva e às instâncias de poder decisório ainda apresentam baixa participação feminina no futebol e no esporte em geral, inclusive nas modalidades femininas (Dadswell e colaboradores, 2023). Assim como a própria prática do futebol para elas, os avanços no que se refere às posições de liderança no esporte seguem lentos (Barreira e colaboradores, 2025).

Além disso, chegar a esses espaços não significa estar livre de obstáculos. Pesquisas sobre mulheres que atuam profissionalmente no esporte mostram que, mesmo quando conseguem romper as barreiras iniciais, seguem enfrentando práticas de sexismo, questionamentos constantes sobre sua competência e mecanismos sutis ou explícitos de discriminação e exclusão, que restringem sua atuação e limitam seu acesso às esferas de poder (McGinty-Minister, Whitehead e Champion, 2024). A presença delas, portanto, não apenas é numericamente minoritária, mas também ocorre em um ambiente que frequentemente deslegitima sua autoridade e reforça hierarquias de gênero profundamente enraizadas.

Nem todas as seleções disponibilizam publicamente a lista completa de profissionais que compõem suas delegações, o que limita a possibilidade de uma análise sistemática da Copa do Mundo de 2026 como um todo.

Nesse sentido, pensar sobre a presença de mulheres nas delegações é também refletir sobre os caminhos que percorreram para chegar até ali e sobre quais barreiras ainda precisam ser superadas para que sua presença se legitime na estrutura e na organização do futebol. Essas reflexões ampliam os debates sobre acesso, reconhecimento profissional, oportunidades e participação de mulheres nos espaços de poder do futebol. Observar quem está — e quem não está — nas delegações é, portanto, uma forma de compreender como as desigualdades de gênero se reproduzem desde a formação até os níveis mais altos de decisão, revelando que a transformação do esporte depende tanto da ampliação do acesso quanto da reconfiguração das estruturas que moldam essas trajetórias. Somente ao enfrentar essas camadas estruturais será possível vislumbrar uma Copa em que o espaço profissional do futebol seja, de fato, também delas.