Quem serve a Copa? Trabalhadores do estádio de Los Angeles lutaram por dignidade e venceram
Entre 2 mil trabalhadores, 96% votaram pela greve e, na véspera da Copa, venceram
Por Caique Costa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Cozinheiros, lavadores de pratos, garçons e atendentes de quiosques. As pessoas que fazem a Copa acontecer. Negociaram sem acordo com a Legends Global, empresa terceirizada responsável por gerenciar os serviços de alimentação, bebidas e hospitalidade. Na última sexta-feira (6), os trabalhadores aprovaram a greve com 96% dos votos
Não era só sobre salário.
Em um país onde Donald Trump transformou o Serviço de Imigração e Fiscalização Aduaneira dos Estados Unidos (ICE) numa máquina de deportação, os trabalhadores também exigiam que seus dados pessoais não fossem entregues às autoridades federais. O medo de ser preso dentro do próprio emprego, durante a Copa do Mundo, era concreto.
César Zamora, funcionário de bar no SoFi Stadium, disse: “A Copa do Mundo da FIFA vai gerar lucros enormes, mas ainda estamos lutando por respeito e segurança.”
Uma frase que resume a contradição inteira.
Na véspera da abertura, veio o acordo e foi histórico.
Reajuste salarial de até 40%. Proteção contra automação e terceirização. O direito de abandonar o posto se o ICE aparecer. E mais: a FIFA fica proibida de exigir número de seguridade social, status migratório ou país de origem para credenciamento. “Conquistamos todas as principais reivindicações”, declarou o sindicato Unite Here Local 11.
O SoFi Stadium receberá oito jogos da Copa, incluindo a estreia dos Estados Unidos nesta quinta-feira (12). O ingresso mais barato custa US$ 2 mil, quase sete salários mínimos brasileiros hoje. Quem não pode pagar esse valor são exatamente as pessoas que mantêm esse espetáculo de pé.
A luta se espalhou. Em Seattle, 113 trabalhadores do Embassy Suites, hotel próximo ao Lumen Field, que receberá seis jogos da Copa, também votaram pela greve. Exigiram salário, saúde e proteção contra o ICE. A Hilton rejeitou a demanda da proteção migratória. O que começou no SoFi revelou algo maior, uma classe trabalhadora que se recusa a ser o custo invisível do espetáculo.
O SoFi não está sozinho. Esse é o padrão dos megaeventos.
Isso não é novidade. É estrutura.
No Catar em 2022, trabalhadores migrantes morreram nas obras dos estádios, fato documentado pela Anistia Internacional. No Brasil em 2014, comunidades inteiras foram removidas para que a Copa acontecesse . Famílias expulsas de suas casas para que o mundo pudesse assistir ao espetáculo. O cenário muda, a lógica não. O lucro fica com poucos, o custo recai sobre os mesmos de sempre.
A diferença desta vez é que esses trabalhadores não deixaram passar.
Organizaram. Votaram. Pressionaram. E, na véspera da maior Copa da história, com o mundo de olho, fizeram a empresa sentar para negociar de verdade.
Isso também é parte da história da Copa de 2026.



