Por Lucas Farias Oliveira – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Em matéria publicada dia 10 de junho pelo The Athletic, o portal elegeu a camisa de Gana como a mais bonita da Copa do Mundo de 2026. Foram ranqueadas todos os uniformes principais de cada seleção. 

O uniforme da seleção ganesa chamou atenção pelo visual ousado. Além da estética, a peça despertou interesse pelos significados presentes em suas cores e formas. Inspirado no tradicional tecido kente e na figura de Anansi, personagem no folclore gânes, o uniforme transformou símbolos culturais em uma peça de identidade nacional, a aranha presente no folclore ganês, o uniforme transformou um símbolo cultural em uma peça de identidade nacional. O reconhecimento internacional do uniforme ganês reforça uma característica que se repete em diversas seleções africanas: as camisas vão muito além do futebol. Elas carregam histórias, tradições, referências ancestrais e elementos que ajudam a afirmar a identidade de países marcados por uma rica diversidade cultural. 

A relação entre cultura e futebol é uma característica marcante de diversas seleções africanas. Nos últimos anos, os uniformes de países como Marrocos, Costa do Marfim, Senegal e África do Sul passaram a incorporar elementos ligados à arte local, à fauna, à arquitetura e aos tecidos tradicionais.

A seleção da Costa do Marfim, por exemplo, frequentemente utiliza referências aos elefantes, mascotes e símbolos da equipe nacional. Já Marrocos tem recorrido a padrões geométricos inspirados na arte islâmica e na arquitetura do país. A África do Sul, por sua vez, costuma explorar as cores vibrantes e elementos associados à diversidade cultural que marcou o período pós-apartheid.

A força simbólica das camisas africanas está diretamente ligada ao papel que o esporte desempenha em sociedades que passaram por processos de colonização e de construção recente de identidades nacionais. Em muitos casos, vestir a seleção representa mais do que jogar e torcer. É uma forma de celebrar heranças culturais e reafirmar pertencimentos e soberania nacional.

Em uma Copa do Mundo que reúne 48 países e mais de uma centena de uniformes diferentes, Gana venceu uma disputa estética. Mas a escolha do The Athletic também evidencia que, em boa parte da África, os uniformes funcionam como uma espécie de tela, capaz de contar histórias, preservar tradições e apresentar ao mundo a riqueza cultural de um continente que se expressa dentro e fora das quatro linhas. Mais do que vestir jogadores, essas camisas vestem memórias. E talvez seja justamente por isso que algumas delas permanecem marcantes muito depois do apito final.

Referências presentes nas camisas:

Foto: Divulgação/Adidas

A camisa reserva da seleção da África do Sul aparece num tom de verde escuro e traz como destaque um padrão listrado. O tecido apresenta padrões geométricos em zigue-zague, criando uma sensação de entrelaçamento. Essa padronagem, de acordo com a Adidas, faz referência às doze línguas faladas oficialmente no país, simbolizando a diversidade cultural sul-africana. Esse modelo resgata os detalhes utilizados pelos Bafana Bafana na Copa de 2010, quando eles sediaram o torneio. 

Foto: Divulgação/Puma

O uniforme principal da seleção da Costa do Marfim traz tons de laranja vibrantes com detalhes no verde. O  principal destaque da camisa, porém, é a estampa que é aplicada por todo tecido. Segundo a fornecedora, a estampa representa a pele do elefante em diversos tons de laranja. O elefante africano é o elemento central do brasão nacional da república desde a sua independência, em 1960. Para o povo marfinense, o animal representa poder, soberania, sabedoria e longevidade.

Foto: Divulgação/Puma

A camisa titular da seleção egípcia vem inspirada na bandeira do país e nas pirâmides. A camisa titular da seleção egípcia é inspirada na bandeira do país e nas pirâmides. O uniforme traz o tradicional vermelho, com detalhes em preto e dourado  com detalhes no preto e também no dourado. O grande destaque da camisa é o grafismo aplicado no peito, que traz elementos tradicionais do país, mas que dá maior destaque principalmente para as pirâmides, um dos principais símbolos da identidade nacional. 

Foto: Divulgação/Puma

Marrocos exalta uma das principais expressões culturais do país: o artesanato. O uniforme traz o tradicional vermelho com detalhes em verde. O principal destaque está na gola e nas barras das mangas onde a fornecedora reproduz um padrão de bordado tradicional. Na camisa, a gola e as bordas das mangas recebem grafismos e padrões geométricos que remetem diretamente à tapeçaria marroquina e aos famosos tapetes Kilim. A herança cultural marroquina também é representada pela arte do Zellige. Trata-se de uma técnica ornamental secular baseada em mosaicos e ladrilhos coloridos de terracota, muito comum na decoração de palácios, fontes e edifícios históricos do país. O padrão geométrico desses mosaicos aparece sublimado na estrutura do tecido da camisa, integrando a arquitetura clássica ao design esportivo moderno.

Foto: Divulgação/Puma

A camisa principal da seleção senegalesa buscou inspiração nas ruas de Dakar, capital do Senegal. O uniforme é predominante branco, mas incorpora de forma sutil elementos inspirados nas cores da bandeira nacional. Segundo a fornecedora, os micro-ônibus que circulam por Dakar foram a principal inspiração para o uniforme. Esses transportes são pintados à   mão, por isso muitas vezes trazem diversas referências gráficas, uma verdadeira obra de arte sobre rodas.

Foto: Divulgação/Capelli Sport

Cabo Verde irá disputar sua primeira Copa do Mundo na história e estreará com um uniforme azul com detalhes em branco e vermelho. O uniforme traz um padrão triangular distribuído por todo o tecido, representando as rotas aéreas que conectam  as ilhas do arquipélago, um elemento que simboliza a integração e a união do país 

Foto: Divulgação/Puma

Eleita pela The Athletic como a mais bonita da Copa do Mundo de 2026, a camisa vem inspirada no kente, que é um tecido tradicional do país. A camisa traz grafismos de trás de aranha que partem da Estrela Negra de Gana, utilizando as cores da bandeira nacional. Essa teia é uma referência à lenda da Anansi, aranha mitológica do folclore local do povo ashanti, considerado uma figura associada às histórias, à sabedoria, ao conhecimento e à astúcia na tradição ashanti.

Foto: Divulgação/Kappa

A camisa reserva da seleção tunisiana traz tons de vermelho e grafismos inspirados em penas. O principal conceito do uniforme é inspirado no apelido  da seleção tunisiana, “Águias de Cartago”. Os grafismos presentes nos ombros e mangas simulam penas de águia e fazem referência à antiga cidade de Cartago, uma das civilizações mais importantes da Antiguidade no Mediterrâneo e rival histórica de Roma.

A seleção da República Democrática  do Congo, que não disputava uma Copa do Mundo  desde 1974, apresenta a camisa principal com um azul-clara  e uma estampa inspirada em  seu símbolo nacional, o leopardo. A seleção congolesa é conhecida como “Les Léopards”. Por isso, o uniforme incorpora de forma sutil uma estampa inspirada na pele do animal. De acordo com a Agence Congolaise de Presse, autoridades esportivas congolesas vêm associando os uniformes a elementos tradicionais da cultura do país, incluindo referências ao tecido Kitenge (Liputa) e a padrões culturais locais. A ideia é apresentar a seleção como representante da diversidade cultural congolesa.