Produtores de conteúdo ocupam espaço de jornalistas na cobertura da Copa do Mundo
Como a ascensão dos influenciadores digitais no Mundial ajuda a desvalorizar a profissão do jornalista
Por Júlia Ferro – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A Copa do Mundo, que começou há apenas alguns dias, trouxe uma inovação marcante: empresas de comunicação e marcas estão apostando fortemente em influenciadores digitais para a cobertura do evento nos países-sede (Canadá, Estados Unidos e México), visando expandir o alcance da competição. Em contrapartida, os jornalistas esportivos tradicionais vêm perdendo espaço e sendo cada vez menos requisitados para essas funções.
Em maio deste ano, por meio de uma notícia publicada no site do TikTok, a empresa tornou pública a parceria com a Federação Internacional de Futebol (FIFA). A iniciativa contratou 30 influenciadores de várias partes do mundo — incluindo três brasileiros — para trabalhar na produção de conteúdo durante a Copa. Deste total, apenas dois são jornalistas. Eles ficarão encarregados do registro dos bastidores, dos jogos, treinos, coletivas de imprensa e outros momentos do torneio.
Da mesma maneira, segundo a Folha de S. Paulo, a Rede Globo, em parceria com a empresa Play9, também investiu na estratégia e escalou 26 influenciadores para a cobertura do maior evento esportivo do mundo. A decisão causou grande polêmica nas redes sociais ao confirmar o nome de Virgínia Fonseca como correspondente da emissora em um quadro semanal no “Domingão com Huck”.
Esses acontecimentos demonstram as transformações que a mídia tradicional vem sofrendo nos últimos anos. Isso porque o trabalho antes ocupado quase exclusivamente por jornalistas esportivos agora amplia espaço para uma nova categoria de indivíduos, que adaptam notícias, entrevistas e debates sobre o evento para o formato e a linguagem das redes sociais.
Toda essa questão abre discussões sobre o papel do verdadeiro jornalista esportivo no meio dessa mudança. Profissionais que carregam diplomas e especializações na área vêm perdendo espaço para criadores de conteúdo que, muitas vezes, nem ao menos pertencem ao nicho de esportes.
Segundo publicação feita no LinkedIn por Rapha Avellar, CEO da BrandLovers (plataforma voltada ao marketing de influência), um levantamento feito na base de mais de 400 mil criadores da BrandLovers AI revelou que 74,2% desses influenciadores não têm o esporte como conteúdo principal. O executivo ainda reforça que a Copa do Mundo se tornou uma grande aliada da publicidade.
Esse número gera grande preocupação no que diz respeito ao futuro da imprensa tradicional. A preferência de empresas de comunicação na escolha de criadores de conteúdo em detrimento de jornalistas explicita a desvalorização que a profissão vem sofrendo nos últimos anos. Esse cenário minimiza a ética profissional, a experiência e o estudo, priorizando conteúdos rápidos que atendem à lógica de mercado ligada ao engajamento.
Em nota publicada no site oficial, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) expressou profunda apreensão quanto à substituição de profissionais jornalistas por influenciadores digitais na cobertura de eventos de grande magnitude, como a Copa do Mundo:
“A decisão expõe um processo cada vez mais evidente de sucateamento da cobertura jornalística de grandes eventos, marcado pela redução drástica das equipes profissionais, pelo corte de investimentos e pela substituição de jornalistas por figuras voltadas exclusivamente ao entretenimento e ao engajamento nas redes sociais.”
Diante desse cenário, a FENAJ reforça a urgência da aprovação da PEC do Diploma como um instrumento essencial para salvaguardar e valorizar o jornalismo sério, ético e de qualidade. Afinal, cobrir um evento da magnitude de uma Copa do Mundo exige mais do que carisma e visualizações; exige responsabilidade histórica, técnica e compromisso com o fato.
No final de tudo, a grande questão que fica não é apenas sobre o futuro dos jornalistas nos próximos anos, mas sobre o tipo de informação que a sociedade escolhe consumir: quando o entretenimento substitui a apuração profissional, a credibilidade é deixada de lado, e quem perde é a verdade.



