Charge: Junião

O caso do bairro de Paciência.

No último sábado, fui como de costume realizar mais uma vistoria pelo movimento Bairro a Bairro, movimento que conecta lideranças e organiza vistorias nos bairros do Rio para tratar dos problemas urbanos.

Dessa vez o bairro escolhido foi o bairro de Paciência, mais precisamente nas imediações de Divinéia e Nova Jersei.
Estações de BRT fechada, abandono, aumento horizontal de favelas e loteamento visivelmente irregulares fazem parte da paisagem local, e tem um dos piores índices de desenvolvimento humano da cidade (o 112º colocado entre 126 regiões).

Além disso, no trecho de 8 quarteirões foram contabilizados 32 obras irregulares, das quais 18 tratavam-se de verdadeiros empreendimentos imobiliários do mercado informal, vendidos num valor muito abaixo do mercado, com placas informando que a negociação era “direta com o proprietário”. Apartamentos vendidos por 40 mil reais com 60m², sem nenhuma placa de construção de informação, como responsabilidade técnica, permissão municipal, etc.

Curiosamente é também em Paciência onde a diretora do PSL, Alessandra Ferreira de Araújo, atua profissionalmente, no ramo irregular de venda de imóveis e terrenos, sendo investigada inclusive pela Polícia Federal por esses crimes. Em 2018, início da investigação, uma série de reportagens foram noticiadas sobre o caso e vejam vocês, fotos com Flávio Bolsonaro e Queiroz foram encontradas em suas redes sociais. Coincidência.

Mas o pior ainda está por vir.

É sabido que a milícia cobra uma série de taxas sobre serviços prestados localmente – gás, net, internet, segurança. Em Paciência, além da taxa padrão de segurança, os moradores são obrigados a pagar taxa extra para ruas com segurança “master”, denominação para ruas que possuem guarita e cancela, todos os equipamentos instalados pela própria milícia.

Outra aberração que acontece no bairro é a integração da atividade miliciana com o tráfico de drogas. Lá não é permitido a utilização de drogas nas imediações do bairro, mas é visível a movimentação de usuários e indivíduos fortemente armados em determinados locais, inserindo assim uma atuação diferenciada àquela estabelecida do grupo conhecido como “Liga da Justiça”, grupo miliciano anterior da região.

Seguindo a engenharia das arbitrariedades praticadas no bairro, uma intervenção na dinâmica urbana de Paciência: depósitos de carga contrabandeada que funcionam 24 horas, com trânsito intenso de camelôs e caminhões ao longo das ruas periféricas à Cesário de Melo. Barulho enlouquecedor e grupos armados observando o descarregamento de mercadorias de fonte duvidosa.

Enquanto isso, Paciência continua com problemas primários como atendimento de água e esgoto, recolhimento de lixo. Em alguns trechos como em Três Pontes, a Comlurb só passa uma vez por semana em algumas ruas de acordo com moradores.

Em relação à segurança, o caso é mais dramático: de acordo com a base de dados e aplicativo Onde tem Tiroteio, é recorrente o índice de disparos observados na região, mas as incursões policiais são raríssimas, indo na maioria das vezes até Vila Kennedy.

O que há por trás dessa lógica que “esquece” um território tão entregue às forças narcomilicianas como Paciência?

É nesse contexto de exclusão e abandono, figuras como o clã Jerominho ressurgem das celas direto para as páginas da política carioca. Jerominho, um conhecido chefe miliciano da zona oeste caminha ao lado de sua filha Carminha Jerominho, sob o slogan “Coração Valente, a chama não se apagou”. Ambos muito fiéis à Bolsonaro, começam a recrutar apoio para a empreitada em 2020: ele se lança a prefeito do Rio e a filha tentará uma cadeira na Câmara de Vereadores.

Vejam bem, a Liga da Justiça quer tomar o poder na cidade e a questão de fundo colocada é que em tese, ela já está no poder.

O cenário de um bairro da zona oeste é o retrato do Brasil: cidades inseguras e insalubres, afundadas em lixo, transporte precário e moradias irregulares. Tudo isso com chancela e apoio do Estado.

Nada mais natural do que o um prefeito miliciano numa cidade que inclusive exportou miliciano para a presidência de um país inteiro. A milícia já é a prefeita do Rio de Janeiro. Resta saber até quando não vamos assumir um pacto coletivo de expulsão desse poder da cidade. Que saiam os milicianos e seus comparsas, O Rio quer um [email protected] que faça um pacto com o povo e não com a barbárie.

Quem quer um Rio de paz? Eu quero.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Boaventura de Sousa Santos

Lula da Silva: a democracia entre o passado e o futuro

Renata Mielli

Que manchete um jornalista daria para essa notícia?

Manuela d'Ávila

Joice, eu sou sinceramente solidária a você porque sei o que você está vivendo

Mônica Horta

Moda contemporânea e seus múltiplos caminhos

Dríade Aguiar

Liberdade para todas as pretas

Colunista NINJA

Hey branquitude, o que você está fazendo para acabar com o racismo que você mesma criou?

Ivana Bentes

As cotas e a pesquisa do IBGE: conservador, não tem volta não!

André Barros

O porteiro do condomínio do Bolsonaro

Jean Wyllys

Carta a Dilma: Eu cuspi na cara dele por você, Dilma. Por nós.

André Barros

O fim do Bolsonaro

Daniel Zen

O equívoco liberal chileno

Victoria Henrique

Um (quase) final de ano de tantos retrocessos

Eduardo Sá

“Não colem em mim esse discurso da meritocracia”, diz Conceição Evaristo

Preta Rara

A senzala moderna é o quartinho da empregada

NINJA

A criminalização do aborto e o feminicídio de Estado