Foto: Fabio Teixeira

Pedro Gonzaga.

Homem negro inocente asfixiado por um segurança de supermercado.

Evaldo dos Santos.

Homem negro inocente fuzilado pelo exército com 80 tiros na frente dos filhos.

Clautênis José.

Homem negro inocente assassinado pela polícia dentro de um táxi.

E a lista continua: A cada 23 minutos um jovem negro é morto nesse país, boa parte deles pelas mãos de “agentes de (in)segurança”. De forma silenciosa e quase naturalizada, um povo é exterminado sem muito alarde, como se nossas mortes fossem um preço aceitável a se pagar pra que as elites se sintam mais seguras em seus condomínios.

É como se houvesse uma escala de vidas que importassem mais e outras menos: se um médico morre na área nobre o país pára, mas se um jovem negro morre na favela é só uma nota de jornal.

Porque isso acontece? Porque a melanina faz com que a violência em nossos corpos seja naturalizada? Porque o mundo não lembra que vidas negras importam?

Primeiro é preciso entender que quanto mais escura a sua cor, mais você é visto como suspeito. A sociedade racista vê o negro como marginal e esquece que foi a maior responsável pela sua marginalização. Após produzir riquezas em séculos de escravidão, pessoas negras foram jogadas ao relento sem direito a nada. Todo o produto do seu trabalho foi para mãos brancas que vem passando esse capital produzido por nós de geração em geração.

A liberdade sem oportunidades e reparação histórica serviu apenas pra nos acorrentar à miséria. Assim somos inseridos numa sociedade capitalista onde precisamos produzir muito mas não temos o direito de consumir nada, afinal os subempregos possíveis pra quem não teve educação de qualidade exigem esforço máximo e pagam salário mínimo. E você tem duas opções: achar esse sistema justo e lutar pra crescer dentro dele, através da sonhada meritocracia, ou se rebelar e buscar dinheiro sem ser explorado.

O crime é algo horrível e antiético, mas é preciso se questionar onde ele começa. A sociedade que constrói o criminoso não é tão culpada quanto ele?

Preocupadas com aqueles que se rebelaram contra o sistema, as elites contra atacam. Criam assim uma força de segurança para proteger seu patrimônio gerado pela exploração da mão de obra negra. E pra isso prometem ao pobre que, tornando-se parte desse escalão, ele terá chances de ascender socialmente e ter uma vida digna. O negro marginalizado vê nesse emprego público o fim da sua pobreza, sem notar que ela foi gerada pelo próprio Estado que o emprega. Esse homem muitas vezes não aprendeu a ter senso crítico, afinal sua escola pública não tinha nenhuma estrutura ou ensino de qualidade. Só o que ele recebe é treinamento pra matar suspeitos que são um reflexo dele mesmo.

E assim é cometido o crime perfeito: cria-se um sistema de segurança onde negros matam a si mesmos enquanto a branquitude segue com as mãos limpas de sangue.

Pra reforçar as engrenagens desse genocídio são criados mecanismos que transformam o assassinato de pessoas negras em meros acidentes de trabalho. Os chamados “autos de resistência” foram criados para justificar qualquer morte de quem resista a uma abordagem policial, dando carta branca pra matar e fazendo com que o assassino saia impune. É um padrão comum: os agentes de segurança declaram que sofreram uma “injusta agressão” de “suspeitos” e por isso tiveram que matar em “legítima defesa”. O problema é que muitas vezes a perícia comprova que as vítimas não tinham pólvora nas mãos, não carregavam drogas ou nada que justificasse esse assassinato.

O auto de resistência serve apenas como desculpa pra matar pobre sem ser punido, alimentando a violência policial.

Outro mecanismo que foi ativado por Temer em 2017 foi a transferência dos crimes militares para a Justiça Militar. Criou-se uma espécie de foro privilegiado para militares criminosos, eximindo-os de serem punidos pela Justiça comum e deixando seu julgamento na mão de seus próprios colegas.

Com tantas proteções do Estado, o agente de segurança ganha o direito de confundir bandido e inocente sem ser punido. Só o que não confundem é a cor da vítima.

Some tudo isso a desigualdade racial da sociedade, que historicamente faz com que o acesso a empregos privilegiados, bons salários e poder gire em torno de mãos brancas. E aí qualquer negro, policial ou não, aprende através da cultura, da história e da mídia a olhar para o branco de um local de inferioridade. Aprende que não se mexe com branco porque ele pode ser filho de alguém importante, porque pode dar processo, porque pode dar merda. E aprende também com a mesma cultura a se odiar, a ver o negro como alguém feio, ruim, suspeito e sem valor. E o resultado é esse: agentes de segurança que não vêem problema em matar gente preta mas dificilmente matam um branco por engano.

Em meio a tanto sangue derramado é impossível não ficar indignado. Protestos online e offline são necessários para mostrar que nenhuma vida negra passará em branco, mas precisamos transformar essa indignação em ações palpáveis.

Precisamos acabar com os autos de resistência, fazer com que todos os assassinos sejam julgados na justiça comum, treinar policiais e militares pra que eles entendam que vidas negras não podem ser destruídas por descuido sem maiores consequências. Mais do que isso, precisamos entender coletivamente como sociedade que morte é o oposto de segurança: Que bandido bom não é bandido morto.

Dá pra controlar criminosos, imobilizá-los e fazê-los responder pelos seus crimes na justiça sem precisar tirar suas vidas. Afinal, é isso que acontece quando o bandido é branco e mora na Barra da Tijuca. Quando é que isso vai valer pra todos? A polícia brasileira é uma das que mais mata e também que mais morre. Precisamos parar esse ciclo vicioso. Violência gera violência, e independente de etnia ou posição política, todos concordamos que precisamos de paz.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Cleidiana Ramos

Com inserção na literatura, ialorixás ensinam caminhos de resistência

Fátima Lacerda

Os Deuses estão em festa: Gilberto Gil em Berlim!

Daniel Zen

De aerolula a aeroína: as falhas na segurança institucional do presidente da República

Tainá de Paula

Não há mídia isenta, meus caros

Juan Manuel P. Domínguez

Ave Terrena: “a cultura enriquece debates quando as instituições os empobrecem”

Sâmia Bomfim

Reforma da Previdência: a luta não acabou

Jorgetânia Ferreira

Tenho depressão, quem não?

Daniel Zen

As mensagens secretas da Lava-jato: medidas antidemocráticas pairam no ar

Colunista NINJA

'A única coisa que salva um país é a cultura', afirma Moacyr Luz

Mônica Horta

Moda autoral brasileira presente!

Mônica Horta




Criadores autorais do Brasil... cadê vocês?

Fátima Lacerda

Milton e Gil fazem do verão berlinense, uma Delicatessen musical

Dríade Aguiar

Amarelo como o futuro que nós construímos pra nós mesmos

Fátima Lacerda

Por que, Berlim?

André Barros

Aperta a pauta, Toffoli