70.000 pessoas assistiram ao comício da França insubmissa. Em 16 de abril de 2017. Foto: Stéphane Burlot

70.000 pessoas assistiram ao comício da França insubimissa. Em 16 de abril de 2017. Foto: Stéphane Burlot

Oratória possante e clareza programática, de quem sabe que somente uma esquerda de verdade conseguirá deter a avalanche neofascista e vencer. São estas as duas qualidades da vertiginosa ascensão do candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélénchon, na reta final das eleições presidenciais francesas.

As eleições acontecem domingo (23/04). O jornal Le Monde publicou uma pesquisa sábado (15/04). Os dados da pesquisa revelam que Mélénchon (20%), que começou a campanha em quarto lugar, arrancou em definitivo do candidato do PS, Benoît Hamon (7,5%), o espaço de candidatura competitiva de esquerda e embolou com Marine Le Pen (extrema-direita, 22%); Emmanuel Macron (direita liberal, 22%); e François Fillon (direita conservadora, 19%).

Mesmo antes de se abrirem as urnas, o grande derrotado das eleições é o maior e tradicional partido de esquerda na França, o Partido Socialista.

O partido do presidente François Hollande, eleito em 2012 com um discurso de mudanças e crítico da administração Sarkozy. Mas, uma vez no governo, se prestou ao melancólico papel de desdizer tudo que disse na campanha; prometeu emprego e aprovou uma reforma trabalhista que aumentou a jornada de trabalho; dizia-se “adversário do mundo das finanças” e entregou as chaves do ministério da fazenda exatamente a esse atual candidato Macron, diretor do Banco Rothschild. Aplicou o manual do bom aluno do neoliberalismo.

Impopular a descer os níveis de um Michel Temer, Hollande desistiu de concorrer à reeleição. A bancarrota da gestão Hollande é tão profunda que o candidato de seu grupo, Manuel Valls, representativo da direita do PS, foi derrotado nas primárias, para surpresa geral, por Benoît Hamon. Jovem, ex-ministro da educação de Hollande que saiu rompido com o governo, Hamon, justiça se faça, até radicalizou o discurso, ensaiou uma viragem programática de reencontro do velho partido com tradições sindicais e neokeynesianas, avesso ao neoliberalismo de Hollande, mas já era tarde. O contágio de pertencer à legenda de Hollande inviabilizou qualquer possibilidade de ascensão.

Definitivamente, a contradição da política vem se deslizando para os pólos de direita e de esquerda no mundo.

O antigo centro neoliberal, que juntou por trinta anos, em um espaço de revezamento de poder e convivência comum, partidos liberais conservadores e social-democratas – exatamente o espaço de trânsito entre Hollande e Merkel, diga-se de passagem -, esvazia-se a olhos vistos nos países da União Européia e no mundo inteiro.

O esvaziamento não aconteceu por acaso: no plano econômico e social, esse espaço de convivência permitiu, para resumir, a consolidação do capitalismo financeiro globalizado, de um lado, e a precarização do trabalho, de outro. O mundo deixou de ser um espaço entre Estados nacionais autônomos e transformou-se num grande mercado.

Esse esquema de revezamento no poder entre o liberal conservadorismo e a social-democracia – embora sempre com resultados desastrosos para os trabalhadores – , por outro lado, incluía algumas políticas identitárias e de minorias. É o que ficou conhecido como neoliberalismo progressista.

Assim, a gerência do capitalismo se transformou no programa real executado pela maioria da esquerda, rebaixando o horizonte de expectativas. Deixamos de nos diferenciar.

Nos tempos de hegemonia do capitalismo financeiro, a margem de manobra da parte dos governos de esquerda passou a ser muito menor que no passado.

Desde a eclosão da grande crise do capitalismo em 2008 – ainda em curso – que corre água no bloco histórico do neoliberalismo. As vertentes neofascistas perceberam a questão e passaram a usar um discurso ofensivo e afirmativo.

A crítica de extrema direita ao neoliberalismo passou a ser contundente, evidentemente que combinada com chauvinismo e repressão social. Foi assim no Brexit e foi assim – em que pese a extraordinária campanha de Bernie Sanders – nos Estados Unidos com Donald Trump. Contudo, talvez, o avanço de Mélénchon na França, um grande país da Europa e um dos centros de poder capitalista do mundo, possam significar a possibilidade de uma esquerda com transparência programática sair da defensiva e disputar de fato o poder político contra seus adversários, seja o velho neoliberalismo ou a nova direita neofascista.

Mélénchon não é um candidato improvisado, nem um outsider.

Ele compõe uma articulação de novas construções da esquerda européia, a exemplo do Podemos e Esquerda Unida (Espanha), do Bloco de Esquerda (Portugal), ou mesmo as tentativas de lideranças como Jeremy Corbyn em renovar as práticas do Partido Trabalhista (Inglaterra).

Já nas eleições de 2012, Mélénchon obteve 11% dos votos por uma Frente de Esquerda. Agora, a frente chama-se “França Insubimissa”. Há uma linha política por trás do nome: constituir uma maioria popular para além do eleitorado tradicional de esquerda. Parece que vem dando certo.

O programa de Mélénchon é radical e sem subterfúgios. É exatamente por falar o que as pessoas querem escutar que sua candidatura cresceu e está às portas do segundo turno. Ela fala abertamente em sair da OTAN. Afirma que um em cada quatro franceses são filhos de imigrantes e o país deve continuar de portas aberta a receber refugiados. Propõe-se a reexaminar os contratos que beneficiam o rentismo na União Européia. Diz que a partir da sua eleição a posição da França muda na UE, e que se ela não mudar, o governo da “França Insubimissa” irá até a última consequência de propor a saída do bloco.

O passado recente de conciliação da esquerda tradicional está morto. É chegada a hora de abrir um novo ciclo, e no ciclo, uma guinada.

De surgir uma esquerda com mais nitidez programática, que fale mais de socialismo. Que seja social e de massas, mas pense mais em termos de economia política, de Estado e de estratégia. A ascensão de Mélénchon aponta neste rumo e pisa no solo fértil da França, um país de tradições revolucionárias e radicais. Como diz o primeiro verso do hino nacional francês, a belíssima e simbólica Marselhesa, “Allons enfants de la Patri” (Avante, filhos da pátria).

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