O meme presidente. Foto: Sergio Moraes/Reuters

O Capitão chegou! Mas o Mito tem pés de barro. Ouvindo os dois discursos de posse de Bolsonaro a vacuidade é o mais impressionante, em ritmo de memes, slogans e frases para o whatsapp. A expressão mais repetida por Bolsonaro é “sem viés ideológico”. Falou em livrar da “submissão ideológica” e que o “Brasil voltará a ser um país livre das amarras ideológicas”. Depois de “libertar o país do socialismo” e do “politicamente correto”, “da ideologia de gênero” e valorizar o “cidadão de bem” e ainda “retirar o viés ideológico das relações internacionais”.

Combater o “viés ideológico” para os bolsonarianos é simplesmente combater e reprimir a liberdade de pensamento. Impressionante como a mídia não consegue vocalizar que Bolsonaro chegou e foi eleito com um ideário e um “VIÉS IDEOLÓGICO” de extrema-direita e o que isso significa em termos de direitos e de liberdade. De ataque ao humanismo e mesmo ao liberalismo, para nem falar de esquerda, mas de valores civilizatórios e iluministas.

Com sua retórica ideológica contra as ideologias atacou os direitos humanos, vistos como ameaça: “É urgente acabar com a ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais.”

A segunda palavra mais citada é Deus e em nome de Deus se propõem todo um programa de intolerância que ameaça defender a família brasileira e a bandeira verde-amarela com “sangue”. Repetiu sob aplausos que “Nossa bandeira jamais será vermelha”. O verde-amarelismo da direita e da extrema-direita não tem nada de “técnico” e é um “viés ideológico” perverso que manipula o sentimento de país e de comunidade.

Na lógica delirante (um dos componentes fortes da grandeloquência bolsonarista, dos seus ideólogos como Olavo de Carvalho e de parte dos eleitores) surge a promessa de combater o “Brasil socialista”. E aqui o termo socialista, completamente fora de lugar, serve apenas para criar um “fantasma” e uma ameaça ficcional (leia-se, dizimar direitos e programas sociais, desmontar o Estado e vender seus ativos).

O General Mourão discursando parecia emitir um intenso urrar: como se pode passar tantos signos de truculência apenas com a voz?! Temer, o pusilânime, ao passar o cargo, parecia ter encolhido, portando uma enorme faixa presidencial que o diminuiu ainda mais.

A tradução para surdos (com seu gestual dramático) usando Libras poderia ser entendida sem o discurso de Bolsonaro, tal sua obviedade. Mas Michele Bolsonaro fez um show à parte e trouxe o tema da inclusão de uma minoria: os surdos e o ideário de uma primeira-dama que cuida dos “projetos sociais” do governo e apoia o marido com beijos.

Lembram da LBA? Legião Brasileira de Assistência? A LBA que acabou no governo Collor com denúncias de fraude e tinha as primeiras-damas do governo federal como presidentes.

O nível de expectativa criada é gigantesca. Agora veremos o desgaste e o peso da faixa presidencial. E se os memes e palavras de ordem, tão maniqueístas, são sustentáveis!

O tratamento dado a imprensa na cobertura da posse causou indignação: os jornalistas estrangeiros abandonaram a cobertura, acusando a organização de os manterem sem mobilidade e em cárcere privado, confinados em uma sala.

Justiçamento e Ressentimento

Mas afinal quem Bolsonaro representa no Planalto? Por que temos a impressão que elegeram o “tiozão do churrasco” para Presidente do Brasil? O tiozão e seus amigos reaças. Um grupo que fala diretamente a linguagem da classe média brasileira, do homem médio, mediano. Aquela figura sem feitos e sem qualidades que produz uma identificação imediata: “olha ali ele batendo um prato de macarrão com a faixa presidencial”, “olha ali ele puxando a caneta Bic”, “olha ali ele desajeitado com o terno que parece lhe incomodar”, “olha ai a mulher dele que simpatia!”.

Todo o ressentimento produzido nos últimos anos pela e para a classe média brasileira universal (que se estende por qualquer grupo que tenha os mesmos valores) reaparece em cada frase de Bolsonaro que promete ataque e vingança: destruir o Brasil que se ergueu nos últimos anos, retirar todos os “privilégios” (leia-se os direitos) dos mais pobres, das minorias, da cultura, de todos que afrontam essa maneira de ver o mundo simplificada.

Um mundo anacrônico, onde meninos são príncipes e meninas são princesas, onde menino veste azul e menina veste rosa, como discursou a Ministra da Disney, Damares Alves, ao assumir o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Bolsonaro é o homem sem qualidades, o catalisador de todo esses anacronismos e também o vingador que dá voz aos ressentimentos acumulados.

Eis ai alguns dos primeiros sinais emitidos pelo governo de extrema-direita que começa. Estejamos prontos!

P.S. Grande momento da posse: um cavalo rebelde dos Dragões da Independência tenta impedir o carro com Bolsonaro de avançar : ) #2019 #Bolsonaro #posse #FelizAnoBozo

Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Raull Santiago

O privilégio não aguenta ver um preto da favela no topo!

Daniel Zen

A prisão de Michel Temer

André Barros

Quem mandou o vizinho do presidente da República matar Marielle?

Colunista NINJA

HIV, prevenção, cura e políticas públicas: uma jornada a ser trilhada

Daniel Zen

Pequenos movimentos sociais de novo tipo

Movimento dos Pequenos Agricultores

Mulheres camponesas, resistência e as políticas do governo Bolsonaro

Gabinetona

Uma carta para Marielle

Benedita da Silva

Benedita da Silva: Quem mandou matar Marielle Franco?

Renata Mielli

Renata Mieli: A morte de Marielle Franco, o discurso de ódio e a desinformação

Maria do Rosário

Maria do Rosário: Quem mandou matar Marielle Franco?

Daniel Zen

Comitiva brasileira se porta como uma república de bananas em terras de Tio Sam

Preta Rara

Quando a dor é preta, não viraliza

Macaé Evaristo

Macaé Evaristo: Levante por Marielle

Raull Santiago

Raull Santiago: Um ano

Joana Mortagua

Joana Mortágua: O país que Marielle voltará a pisar