Terça, 06/08/2019. Com 370 votos a favor, 124 contra e 1 abstenção, a Câmara dos Deputados aprovou o texto principal da reforma da Previdência em 2º turno.

Quinta, 27/04/2017. Câmara aprova projeto da reforma trabalhista. Foram 296 votos a favor e 177 votos contra.

Quarta, 26/10/2016. Deputados aprovam a PEC do Teto dos Gastos Públicos em 2º turno, com 359 votos a favor e 116 contra.

Domingo, 17/04/2016. Com 367 votos favoráveis, 137 contra, 7 abstenções e 2 ausências, aprovaram a admissibilidade do processo de golpe contra Dilma Rousseff.

Essas quatro votações, que representaram grandes retrocessos para o povo brasileiro, aconteceram no Plenário Ulysses Guimarães. A sessão da Câmara que votou contra Dilma é lembrada até hoje como uma grande sátira, onde os representantes eleitos pelo povo votaram contra 54 milhões de pessoas que elegeram a presidenta. Mesmo que Ulysses Guimarães, o homenageado do espaço, tenha sido um dos principais opositores à ditadura militar, não é um lugar que evoca muita esperança quando se entra nele.

Neste ano, durante as coberturas do Congresso, fui me acostumando e entendendo entre os corredores, passagens e escadas da Câmara, mas o Salão Verde, seguido de Plenário, ainda são um universo à parte. Um universo cheio de buracos negros que nos remetem a tempos com menos direitos. Por isso, esta última semana foi tão importante.

Mazé Morais e Sonia Guajajara | Foto: Jaqueline Vieira

Terça, 13/08/2019. Com mais de 300 mulheres indígenas e campesinas, eis que o plenário reencontrou o povo.

Era mais um momento de cobertura – transmissão ao vivo no facebook, narração no twitter, stories das lideranças dos movimentos sociais, aspas das deputadas, olhares cúmplices entre outros midiativistas.

Mas também era um momento único – entre os ternos, gravatas e saltos altos estava uma maré lilás florescendo por Margarida Alves e nas galerias, Sônia Guajajara liderava indígenas de vários povos entre cocares e miçangas.

Enquanto Mazé Morais, secretária de Mulheres da CONTAG e coordenadora da Marcha das Margaridas falava, lembrei da minha tia. Margarida Firmina de Aguiar, nascida em 22 de fevereiro de 1957, na comunidade rural de Rio dos Couros em Mato Grosso. Em 1972 se mudou com minha avó e seus irmãos, incluindo meu pai, para Cuiabá. Aos 13 anos de casou com o pai dos seus 7 filhos, José Paz. Ele era alcoólatra, se separaram e Margarida, empregada doméstica, criou os filhos sozinha. Mesmo assim, a tia cuidou dele quando ele estava a ponto de morrer por conta de doenças acarretadas pelo vício.

Junto com a minha vó, tia Margarida era uma das pessoas da minha família que não conseguiam falar meu nome – cada vez saía uma versão. Mesmo assim, era uma das mais que pediam para eu voltasse logo a cada viagem para minha cidade natal. Minha tia Margarida morreu no começo deste ano, 04 de janeiro de 2019. Não fui ao seu funeral e acompanhei através do meu pai como as coisas andavam. Lembro de não ter chorado e sim de ter sentido muito pelo meu pai, que perdia mais uma mulher da sua família. Mas agora, entre tantas mulheres que representavam as lutas da Margarida nordestina, não consegui não chorar.

Foto Katie Mähler / @katie_maehler

Uma sessão solene da Câmara dos Deputados é realizada em comemorações ou homenagens especiais ou, ainda, para a a recepção de altas personalidades. Me pareceu o termo exato para traduzir o que aquele momento significava para minha tia, as campesinas e indígenas – era necessário comemorar sua luta, homenagear sua existência e receber suas grandes personalidades.

Enquanto o hino das margaridas ecova naquele salão, quase conseguia ver minha tia, tímida atrás de mim, acenando a cabeça, com vergonha de receber tanta atenção. Enquanto isso, do meu lado, gritavam as margaridas marchantes, demandando serem reconhecidas pela importância que tinham na sociedade brasileira. E foi esta sessão que me fez retomar a esperança pela capacidade do Plenário Ulysses Magalhães de tomar decisões pelo bem do povo.

Marcha das Margaridas toma Brasília | Foto: Mídia NINJA

Quarta, 7 da manhã, 14/08/2019. Cem mil mulheres, vindas de todos os estados saíam do Pavilhão de Eventos do Parque da Cidade em direção ao Congresso Nacional. Começava assim, a 6ª Marcha das Margaridas. Começava também a nossa transmissão ao vivo, em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura.

Esta é a segunda vez que vou a Marcha, a última que participei em 2015, ano da segunda posse de Dilma. Acompanhei a agenda como parte de seu governo, trabalhando para o Ministério da Cultura, enquanto me coçava para, na verdade, estar cobrindo para a NINJA toda a beleza das senhoras de chapéu de palha. Foi ali que entendi melhor o impacto de políticas públicas para o campo, mas mais que isso, entendi a força que era pra elas ver uma outra mulher sentada na cadeira da presidência.

Enquanto testamos o som do ao vivo, uma senhora do Maranhão ajeitou o chapéu e acenou pra gente. Ela tinha um terço na mão, que balançava de forma bem animada para quem tinha mais de 50 anos e tinha enfrentado mais de 36 horas de ônibus para chegar ali. E não teve como segurar a memória, lembrou a minha vó.

Foto: Eduardo Di Napoli

Anna Firmina dos Reis, nascida em 11/10/1923, na comunidade rural de Rio dos Couros. Lá ela tinha uma roça, onde plantava arroz, feijão, melancia, mandioca e criava galinhas e porcos. Quando sobrava, ia até a feira mais próxima e vendia os alimentos para comprar o que faltava, como óleo e temperos. Ficou viúva em 1969 e em 1972 passou a mão nos filhos e mudou-se para Cuiabá.

Lá trabalhou como empregada doméstica até morrer de derrame aos 83 anos, no quarto ao lado do meu. Uma das coisas mais difíceis foi ver desmontarem seu altar, que ela ostentava com orgulho dentro do seu quartinho. Mesmo que eu tenha sido expulsa da catequese, minha vó era uma beata, o que fazia com que as procissões de Nossa Senhora saíssem da sala da nossa casa. Tinha um terço muito parecido com o da senhora que marchava hoje de manhã.

Agricultora familiar que teve uma filha Margarida, entendi que se a sessão solene foi pela memória da minha tia, eu marchava hoje pela minha vó.

Célia Xakriabá passa urucum em uma das margaridas marchantes | Foto Douglas Freitas / @alassderivas

A simbologia do momento fez mais sentido ainda em num dos pontos altos da caminhada, onde a Marcha das Mulheres Indígenas recebeu as Margaridas pintando-as de urucum. O momento foi para simbolizar a passagem do sangue indígena para as campesinas e assim se tornarem irmãs de luta. Foi como ver a família do meu pai (as margaridas) serem recebidas pela família da minha mãe (as indígenas) e assim continuarem caminhando juntas. Lado do meu pai é negro, o lado da minha mãe é indígena e lembrei de novo da força que é a união através da dor.

E assim seguimos até meio dia, carregando essas histórias tão únicas e ao mesmo tempo coletivas, através desta centena de milhares de mulheres no Eixo Monumental em Brasília.

E é esta a força da uma ação como a Marcha das Margaridas – levar milhares para a capital do poder brasileiro, lembrá-los que somos muitas, que nossas mortas não sairão impunes, que saímos dos campos, das florestas e das águas, que estamos organizadas e que sem colheita não tem janta. É o momento onde a mais alta casta política não pode ignorar mulheres pobres, nordestinas, interioranas e hoje, de mais de 100 etnias. É um momento de florescer as margaridas.

É um momento para minha tia e minha avó.

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