Da série Reflexões de Domingo

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Essa semana veio à tona, em reportagem do jornalista Fábio Serapião, publicada no jornal O Estado de São Paulo, um suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo um ex-assessor do então Deputado Estadual e agora Senador eleito, Flávio Bolsonaro, o policial militar da reserva do Estado do Rio de Janeiro, Fabrício José Carlos de Queiroz, que teria movimentado R$ 1,2 milhões em uma conta bancária, no período de um ano, incluindo um cheque de R$ 24 mil destinado à futura primeira-dama do Brasil, Michelle Bolsonaro.

A esposa, duas filhas do ex-assessor e mais cinco colegas, todos também assessores ligados ao gabinete parlamentar de Flávio na Alerj teriam realizado vultuosas transferências bancárias para a conta de Fabrício, que atuava como motorista e segurança de Flávio.

Uma das duas filhas de Fabrício, Nathalia Melo de Queiroz, também fora nomeada no gabinete do então Deputado Federal e agora Presidente eleito, Jair Bolsonaro, um dia depois de ser exonerada do gabinete de Flávio Bolsonaro.

De início, a “famiglia” presidencial silenciou sobre o caso. O patriarca procurou por seus médicos – coisa que faz todas as vezes em que se sente acuado – e se valeu de um “atestado” que justificasse o cancelamento de sua agenda pública. O mesmo não fez na semana anterior, quando teve de enfrentar cansativa viagem de carro para levantar um troféu de mais de 15kg, na cerimônia de premiação do clube vencedor do Campeonato Brasileiro de Futebol de 2018. Até então, sua saúde estava muito bem, obrigado. Teve uma recaída com as notícias.

48 horas, um chilique do futuro Ministro Onyx e um calado como resposta do futuro Ministro Moro depois é que vieram a tona as primeiras explicações: o cheque em nome de Michelle Bolsonaro teria sido dado em pagamento de dívida de um empréstimo dado por Jair Bolsonaro a Fabrício Queiroz, que além de motorista/segurança do filho do Presidente eleito, seria também seu amigo pessoal. O Presidente não teria recebido o pagamento, diretamente, em sua conta, porque, segundo ele, não tem tempo de ir ao banco e, por isso, o pagamento houvera sido feito em nome da esposa.

Explicação chinfrim, que mais complica do que explica. Afinal, por que alguém que movimenta R$ 1,2 milhão ao ano precisaria de R$ 24 mil em empréstimo? E essa história de não ter tempo de ir ao Banco? Não precisa ir ao banco pra receber um pagamento. Quem tem de ir ao banco é quem paga, sobretudo em tempos de aplicativos eletrônicos. E se tal empréstimo de fato foi feito, por que não foi declarado no IR?

Para aqueles que, em campanha, diziam ser contra a “corrupissaum” e que tinha que “mudar issodaê, táôquêi”, sobrou, além do inicial silêncio e das inverrosímeis explicações, o cinismo. Também, pudera: antes disso, pressionado pela opinião pública, cabreira com às escolhas feitas para composição de seu gabinete ministerial – cujos nomes também estão, em grande parte, envolvidos em investigações sobre esquemas de corrupção – o Presidente eleito teria afirmado a seus asseclas que “a corrupção é um problema menor que a questão ideológica”. Também teria afirmado que seus futuros ministros “não são réus ainda, apenas investigados ou indiciados”, em
resposta às constantes e insistentes indagações da imprensa a esse respeito e em uma tentativa de justificar a incongruência de suas escolhas com seu discurso moralizador.

Fora a cara de pau, o Presidente eleito tem razão em um ponto: o maior problema do Brasil não é e nem nunca foi a corrupção de seus políticos. Isso a grande imprensa familiar, tradicional, conservadora e sonegadora de impostos do país planta, para esconder a própria podridão.

Os grandes e mais graves problemas são outros: é uma Rede Globo, por exemplo, chegar a dever mais de R$ 800 milhões para a Receita Federal; ou o dono da Havan, que tenta vender uma imagem de bom moço empreendedor, mas gastou R$ 12 milhões para custear envio ilegal de mensagens de WhatsApp para a campanha de Bolsonaro e deve R$ 168 milhões para o INSS; é a classe média – que acha que é rica – se unir aos ricos e poderosos, que vão para as ruas de verde e amarelo para bater panelas e seguir patos de borracha infláveis, supostamente contra a corrupção, mas sonegam impostos, ocultam patrimônio, praticam elisão fiscal e evasão de divisas e não querem repartir as riquezas do país com os mais pobres; são as grandes empresas deverem a Previdência e o Governo Federal insistir – e querer que acreditemos – que a solução para o défict previdenciário passa apenas por aumentar a idade mínima de aposentadoria ou elevar a alíquota de contribuição do trabalhador; é “vender” – na verdade, entregar de bandeja – as riquezas do país para as multinacionais, enricando os bolsos de gente de fora, tirando a possibilidade dos brasileiros usufruírem das próprias riquezas; é manter privilégios da magistratura, ministério público, deputados. Não tem corrupção maior do que essa.

Mas, daí desviam o foco, de modo que todos achem que o grande problema da nação é a corrupção dos políticos. Há muita corrupção no meio político sim. Mas, há vários políticos sérios também. E, do jeito que a imprensa “empacota” as notícias, parece que são todos farinha do mesmo saco.

Ao Presidente eleito, por hora, cabe o benefício da dúvida e da presunção de inocência. Que as investigações prossigam e que respeitem o devido processo legal e a ampla defesa.

Ao Fabrício Queiroz, que não receba o mesmo destino de Adélio Bispo: a clausura e o silêncio, ambos muito suspeitos.

E a nós, resta-nos saber se o futuro Ministro da Justiça também permanecerá silente ou agirá com a implacável fúria que lhe é peculiar e que sempre o motivou a combater os supostos casos se corrupção… Dos outros! Porque quando a corrupção é dos aliados, o ex-Juiz Federal é mais dado a “perdoar”…

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