Foto: Mídia NINJA

Por João Tancredo, advogado das famílias de Marielle Franco e Anderson Gomes

Hoje completam-se 100 dias sem Marielle Franco e Anderson Gomes. Até o momento, as investigações não trazem nada de concreto sobre a autoria e a motivação do crime. Por trás do afinco de investigadores policiais realmente comprometidos, há apenas demagogia e omissão dos governos estadual e federal. Frente a assassinos altamente profissionais, vemos especuladores irresponsáveis apresentarem suspeitos antes das provas, invertendo o processo.

Os familiares das vítimas preferem um culpado solto a um inocente preso. Inadmissível, porém, é a displicência diante da brutal execução que continua a assombrar nossas cabeças. Todos os dias. Sem arrego. Essa é a vitória parcial dos assassinos. Mas, desgraçadamente, é também o combustível que impulsiona a busca por justiça. Essa era a tradição de luta, secular, que Marielle seguia e reinventava. Cotidiana e coletivamente. Esse é o seu legado e ele grita: basta! Mova-se! Quem é capaz de ignora-lo?

Favelada, mulher, negra, feminista, lésbica, íntegra, militante de esquerda, defensora dos direitos humanos, revoltada contra as injustiças e indignada contra todas as opressões, Marielle obteve 46 mil votos e conquistou o posto de vereadora para dar lugar a essas falas historicamente negligenciadas. Dona de um espírito coletivo que a distanciava das mazelas do personalismo, fez de seu gabinete uma rede, um exercício de participação popular com forte protagonismo de mulheres, a mandata. Marielle era semente e personagem concreta da inovação política que tantos idealizam por aí.

Graduada e pós-graduada, Marielle era uma intelectual orgânica do seu tempo e do seu povo. Inconformada com as tragédias que predominantemente atingem pretos e pobres, geradas em nome da guerra às drogas e da privatização dos territórios do Rio de Janeiro, Marielle agia na ponta e lutava para transformar o todo. Ao mesmo tempo, acolhia as vítimas nas emergências, denunciava as estruturas que fabricam a “guerra” – a qual definia como política sistemática de exclusão e punição de pobres – e propunha políticas alternativas para a segurança pública e a garantia de direitos.

Ainda assim, Marielle não conseguiu escapar do genocídio do povo negro e do extermínio de defensores de direitos humanos que assolam o Brasil. E que ela denunciava.

Ainda assim, Marielle não foi protegida pela segurança militarizada que avança pela cidade. E que ela advertia não funcionar para o povo.

Ainda assim, há quem tergiverse ou se mantenha displicente quanto ao significado da execução de Marielle. Por má-fé, conveniência, antipatia política ou mesmo inocência.

A quem interessa?

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Dríade Aguiar

Pretas, Gordas, na Praia!

Fatine Oliveira

Acessibilidade nos afetos

Luiz Henrique Eloy

Povos indígenas e acesso a justiça na pauta do Supremo

Caetano Veloso

Caetano Veloso entrevista Baco Exu do Blues

Juca Ferreira

Juca Ferreira: É difícil ficar calado diante deste horror

Ivana Bentes

A Classe Média no poder

Juca Ferreira

Levanta, Brasil!

Daniel Zen

A falácia do projeto de “lei anti crimes” de Sérgio Moro

André Barros

André Barros: Brumadinho não foi tragédia

Daniel Zen

Daniel Zen: Milícias e Facções

NINJA

“O samba está muito bem representado”, afirma Rubem Confete

Daniel Zen

Daniel Zen: O que esperar do Governo Bolsonaro?

Gabinetona

Tem um rio no meio do caminho

Ricardo Targino

Começou a Recolonização do Cinema Brasileiro!

NINJA

Opinião: Cai de vez a máscara de Moro