#15M Salvador | Foto: Jonas Santos / Mídia NINJA

Eu participei em Salvador do movimento intitulado Dia Nacional de Luta em Defesa da Educação. Estaria presente, possivelmente, mesmo que não tivesse tantos motivos para envolvimento: toda a minha formação acadêmica- da graduação ao doutorado- foi realizada na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Além disso, atualmente, sou professora da Faculdade 2 de Julho, da rede particular, onde coordeno dois cursos de especialização em Comunicação e professora visitante no Campus XIV da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), localizado no município de Conceição do Coité, na região sisaleira da Bahia.

A Uneb, assim como as outras universidades estaduais – UEFS, UESC e UESB – estão em greve, com uma pauta que vai desde a reivindicação a aumentos salariais estacionados a cortes que impedem a total dedicação à vocação destas instituições como centros de pesquisa e apoio a programas como o de permanência de estudantes.

O que vi durante as quase quatro horas em que uma multidão – bem parecida àquelas dos dias de festa de largo na capital baiana – tomou as ruas do centro da cidade, a partir do Campo Grande, um roteiro emblemático das manifestações de movimentos sociais em Salvador, me encheu de esperança.

A educação ainda é uma pauta capaz de nos unir como uma nação. O que eu percebi foi um grande desfile de 2 de Julho antecipado, a nossa festa cívica que tem uma configuração carnavalesca, pois mistura a prática da cidadania a uma espécie de humor engajado e que a faz única no país. Palavras de ordem se uniam ao som do samba de roda, de paródias e de performances artísticas.

Foi gratificante observar a interação de grupos tão diversos : secundaristas, inclusive os das escolas mais caras no segmento da educação particular baiana; professores aposentados das mais variadas redes e até de instituições de nível superior que têm mensalidades acessíveis para poucos dos que estavam ali. Isso mostra que a tal da polarização que nos persegue desde 2014 tem algumas brechas. Daí a minha surpresa quando, jornalista que sou, fui acompanhar as coberturas da mídia hegemônica, especialmente os chamados colunistas políticos: a narrativa que apareceu, especialmente entre os que atuam no eixo Rio-São Paulo é de que o movimento foi “contaminado” por bandeiras da “esquerda” de “sindicatos” ou do “petismo”, como o Lula Livre.

Percebi este movimento narrativo entre articulistas da Folha de S. Paulo e da Época. Não acompanhei os comentários de TVs como a Globonews, pois em tempos bicudos minha assinatura de TV a cabo já foi para o espaço.

Chantagem

Este tipo de narrativa que apresenta os movimentos sindicais e progressistas como “penetras” nos protestos de rua é um estelionato noticioso, o que significa que parte da mídia hegemônica não aprendeu nada e, embora cobre autocrítica do PT, de Lula, do PSOL e de todo mundo que destoa dos seus programas, continua a incorrer nos mesmos erros.

Para começar, quem chamou e organizou o protesto foram os movimentos sindicais. O tema era o combate à reforma da previdência. Com os ataques destrambelhados do titular do MEC ao sistema universitário federal, a pauta foi ampliada e a educação ganhou mais protagonismo.

O que parece é que grupos das elites econômicas, a quem uma banda significativa da mídia hegemônica segue e defende, só agora tomaram consciência de que o governo Bolsonaro é um desastre ambulante. Uma porta de saída para o incêndio que se prevê foi o levante em forma de aviso que ocorreu no último dia 15. Mas para estes grupos, o apoio a este movimento de forma mais explícita passa pelo afastamento de qualquer característica que lembre os programas do que eles chamam de “esquerdas”. Grupos midiáticos aderiram à candidatura de Jair Messias Bolsonaro na esperança de que Paulo Guedes, depois o ex-juiz Sérgio Moro e o núcleo militar segurassem a tendência à estupidez do capitão reformado. Descobriram em menos de um mês de governo que o desconhecimento do presidente sobre qualquer coisa que signifique governança, sua incapacidade nata para o diálogo com quem quer que seja e o gosto por usar o Twitter já como chefe de estado como se estivesse em uma campanha política de péssimo gosto formam um iceberg capaz de afundar o navio- Brasil, inclusive sem a tão sonhada reforma da Previdência que o mercado- este ente que não tem cara conhecida, mas manda e desmanda neste país- deseja a todo custo.

Todos os grupos progressistas necessitam, portanto, realizar uma leitura dessa queda de braço subterrânea e, diferentemente de 2013, não se deixar surpreender por movimentos conservadores que desejam sequestrar as pautas que sempre moveram as ruas, mesmo porque as alas progressistas não praticam o autoritarismo como esses falsos liberais.

Dificilmente, num ato da CUT, do MST ou do MTST alguém vai dizer que o centro acadêmico de uma universidade dita de elite não pode participar. É nisso que está a força e o motor, me parece, do que se viu no último dia 15.

As lideranças políticas progressistas não podem perder esta narrativa. A educação é um dos inimigos que este governo definiu para alimentar sua guerra virtual e seus “minions” teleguiados. Estes não estão muito dispostos a pensar, mas apenas estrebuchar no ódio sobre algo que não compreendem e nem fazem questão de entender. Não podemos perder um grande e inesperado presente que, mesmo com as desarticulações dos grupos que se opõem à barbárie em que desejam transformar o Brasil, chegou até nós.

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