Por: Alan Barros

A bola voltou a rolar nesta quinta-feira (11), quando México e África do Sul abriram a Copa do Mundo no Estádio Azteca. O Brasil estreia no sábado (13), contra o Marrocos, e o país inteiro vai parar para assistir. Mas dentro de muitas casas, o jogo é outro. Em dias de partida, os registros de ameaça contra mulheres sobem 23,7%. As agressões físicas, 20,8%. E o agressor quase nunca é um estranho. É o companheiro ou o ex.

Os números são da pesquisa Violência Contra Mulheres e o Futebol, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Natura, que analisou os boletins de ocorrência de todos os dias de jogos do Brasileirão entre 2015 e 2018, em cinco capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Quando o time joga em casa, como mandante, a alta chega a 25,9%.

O que o Anuário escancara

Para entender o tamanho do problema, basta abrir o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o retrato mais completo da violência no país, publicado todo ano pelo FBSP. Na última edição, com dados de 2024, a polícia recebeu 1.067.556 chamados de violência doméstica pelo 190. Faz a conta: são duas ligações por minuto. No tempo de leitura desta matéria, o telefone tocou de novo. Mais de uma vez.

E os casos mais graves não param de crescer. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, o maior número desde que o crime virou lei, segundo levantamento do FBSP divulgado em março. Oito em cada dez mulheres foram mortas pelo companheiro ou pelo ex. A maioria, dentro da própria casa. Para muitas brasileiras, o lugar mais perigoso do país não é a rua. É a sala.

O Anuário ainda traz um dado que dói: mais de 100 mil medidas protetivas foram descumpridas pelos agressores em 2024, uma alta de 11% em um ano. A proteção existe no papel. Na prática, o agressor atravessa a porta.

Foto: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL 

A Copa concentra tudo

Se em dia de jogo comum o risco já sobe, imagina um mês inteiro de jogo. É isso que a Copa faz: transforma 39 dias seguidos em dia de partida, com bebida desde cedo, casa cheia e emoção no talo. O padrão já foi medido em Mundiais anteriores. Na Inglaterra, pesquisadores da Universidade de Lancaster acompanharam as Copas de 2002, 2006 e 2010 e viram a violência doméstica subir 26% quando a seleção ganhava e 38% quando perdia. No dia seguinte, vitória ou derrota, os casos seguiam 11% acima do normal.

No Brasil de 2026, tem um agravante: os jogos da seleção são à noite. A estreia contra o Marrocos é às 19h, e a partida contra o Haiti, no dia 19, começa às 21h30. Na prática, é a tarde inteira de bar e churrasco antes de a bola rolar, e a madrugada depois do apito final. Justamente o horário em que os casos mais graves acontecem.

Não é o placar

Se fosse só frustração com a derrota, a violência não subiria quando o time ganhasse. Mas sobe. Um estudo da Universidade de Warwick cruzou dez anos de ocorrências policiais na Inglaterra e encontrou o dado que resolve a discussão: depois de uma vitória, os casos de abuso doméstico ligados ao álcool cresceram 47%. Sem bebida no meio, nada mudou. O gatilho não é o resultado. É o que se acumula em volta dele.

A bola não bate em ninguém

O futebol não cria a violência doméstica. O que ele faz é juntar, no mesmo dia, o que já estava na mesa: a ideia de que homem de verdade não pode perder, horas de bebida, e a sensação de posse sobre a mulher que espera em casa. Todo mundo vê o placar. Quase ninguém vê o que acontece quando a TV desliga.

A vítima não vestiu a camisa de nenhum adversário. Ela só estava em casa.

O jogo também pode virar a chave

Se o futebol concentra o risco, também concentra o alcance. 81% dos brasileiros declaram interesse pelo esporte, segundo o FBSP. Pouca coisa fala com tanta gente ao mesmo tempo, e já existe movimento para usar essa força a favor: tramita no Congresso o Projeto de Lei 4842/23, que prevê campanhas contra a violência à mulher em eventos esportivos com mais de 10 mil pessoas.

Na Inglaterra, a polícia reforça o patrulhamento nas horas seguintes às partidas, quando o risco de fato aumenta. Por aqui, em dia de jogo, a estrutura pública ainda mira o estádio e esquece o que vem depois, dentro das casas.

Enquanto o Mundial rola, vale repetir o que ainda precisa ser dito: nenhum placar justifica uma agressão. Torcer não pode terminar em boletim de ocorrência.

Onde buscar ajuda

Em caso de violência doméstica, ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), que funciona 24 horas e a ligação é gratuita. Em situação de emergência, ligue 190. As denúncias também podem ser feitas em qualquer Delegacia da Mulher.

Fontes: pesquisa Violência Contra Mulheres e o Futebol (Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Instituto Natura), Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, Universidade de Lancaster, Universidade de Warwick e Câmara dos Deputados.