Por  Larissa Cristovão – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Para muitos jovens a paixão pelo futebol começou em frente à televisão, mas outro meio vem ganhando espaço: o videogame. Antes mesmo de assistir às partidas de campeonatos internacionais ou de uma Copa do Mundo, eles já conheciam jogadores, clubes e seleções pelos games, realidade que tem transformado a forma de consumir o esporte.

Esse universo é maior do que parece. Segundo a Pesquisa Game Brasil 2025, o percentual de brasileiros que afirmam jogar jogos digitais chega a 82,8%, o maior índice já registrado pelo levantamento realizado anualmente desde 2013.

Guilherme Araújo Nobre, de 19 anos, faz parte dessa geração. A relação com os games começou ainda na infância quando passava horas jogando Bomba Patch no PlayStation 2, versão modificada do Pro Evolution Soccer (PES) que marcou uma geração de brasileiros.

“Jogo videogame desde moleque. O Bomba Patch marcou muito minha infância. Era aquele tempo do PS2, dos CDs comprados na banquinha e da música ‘100% atualizado, é ruim de aturar’. Foi uma época muito boa”, relembra o jovem.

Com o passar dos anos, os jogos ficaram mais realistas e despertaram uma nova curiosidade: conhecer melhor atletas e clubes do futebol mundial. Um dos casos mais marcantes para Guilherme foi o do alemão Marco Reus, ídolo do Borussia Dortmund.

“Eu conheci o Marco Reus através do FIFA e fui procurar saber mais sobre a história dele. Descobri que ele ficou muitos anos no Borussia Dortmund, recusou propostas de outros clubes e virou um jogador muito identificado com a torcida. Depois comecei a acompanhar mais o Borussia Dortmund, a Inter de Milão e a Juventus”, conta.

Segundo ele, o realismo dos games também contribui para esse interesse. “Hoje o jogo é muito realista. Você vê os dribles, as comemorações e o jeito que cada jogador atua. Isso faz a gente gostar mais do futebol de verdade”, afirma.

A experiência é parecida com a de Thalysson Amaral, de 18 anos, que joga games de futebol há quase 12 anos. Foi no videogame que ele conheceu o atacante francês Ousmane Dembélé, ainda quando defendia o Borussia Dortmund.

“Comecei a gostar dele jogando videogame. Depois fui procurar vídeos no YouTube, acompanhar os jogos e conhecer mais sobre a história dele”, relata.

A curiosidade despertada pelos jogos também fez Thalysson conhecer atletas de gerações que ele nunca viu em campo. “Conheci muitos jogadores das décadas de 1980 e 1990 pelo videogame e depois fui pesquisar sobre eles. Quando você gosta de um jogador no jogo, quer saber onde ele nasceu, por quais clubes passou e em qual seleção joga”, diz.

Para ele, a experiência de assistir às partidas muda quando o atleta já é conhecido do universo virtual.

“Quando você vê aquele jogador jogando na vida real, já conhece as características dele porque aprendeu isso no videogame. O eFootball é muito realista nesse sentido”, completa.

Para Anderson Santos, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e pesquisador de Futebol e Comunicação, esse comportamento faz parte de um processo de convergência entre diferentes formas de consumir o esporte.

“Há uma perspectiva de que diversas etapas sociais sejam gamificadas, e não é diferente com o futebol”, explica.

Segundo o pesquisador, o consumo do esporte deixou de acontecer em apenas uma plataforma. Hoje, o torcedor acompanha transmissões, interage nas redes sociais e também vivencia o futebol por meio dos games. “O jovem segue na mídia social, vê por alguma transmissão audiovisual e joga no game”, afirma.

Santos explica que jogos que permitem montar elencos, administrar clubes e acompanhar a evolução de jogadores despertam a curiosidade sobre atletas, equipes e até nomes que marcaram outras gerações do futebol.

“As cartas especiais com jogadores de outras épocas também fazem com que muitos jovens conheçam esses atletas e busquem materiais de arquivo sobre eles”, destaca.

Para o pesquisador, essa dinâmica também influencia a forma como parte dos jovens acompanha grandes competições, como a Copa do Mundo. “Vejo o ídolo jogando, idolatro na mídia social e tento ‘tê-lo’ ou ser ele no game”, resume.

A experiência de Guilherme e Thalysson demonstra que os jogos eletrônicos deixaram de ser apenas uma forma de entretenimento. Eles também se tornaram uma das portas de entrada para o futebol internacional ao aproximar jogadores, clubes e seleções de uma nova geração de torcedores.