Onde estão os palestinos durante a Copa do Mundo?
Em meio ao cessar-fogo, o povo de Gaza encontra um sinal de esperança no futebol
Por Celine Dutra – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Um país apaixonado por futebol nunca viu a sua equipe jogar uma Copa do Mundo. Essa é a situação de muitas nações que não se classificaram para o torneio, mas uma em particular está num cenário diferente da maioria.
Apesar da assinatura do acordo de cessar-fogo em outubro de 2025, a Palestina ainda vive uma guerra que se estende por quase três anos. Segundo a contagem feita em janeiro deste ano pelo Ministério da Saúde de Gaza, mais de 70 mil palestinos morreram durante o conflito.
Numa área afetada por danos estruturais e falta de energia elétrica, o povo de Gaza encontrou uma forma de acompanhar o futebol: assistir aos jogos da maior competição da modalidade e torcer pela seleção espanhola, uma das nações aliadas à reivindicação do território.
Em 2024, Espanha, Irlanda e Noruega foram os primeiros países, desde o início do conflito entre Israel e Hamas, a reconhecerem o Estado palestino. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, se tornou uma das vozes europeias mais críticas em relação à atuação israelense em Gaza, e adotou medidas como o embargo de armas e a proibição de transporte marítimo e aéreo de materiais de defesa para pressionar o país do Oriente Médio.
Esse apoio público e político tem sido valorizado pelos palestinos através do futebol. A correspondente da Al Jazeera Maram Humaid contou que, durante a partida da Espanha contra a Arábia Saudita pela fase de grupos, o povo de Gaza vibrou pela vitória da potência europeia. “Somos um povo que ama a vida e ama o futebol. Muitas pessoas aqui acompanham La Liga e a seleção espanhola há anos, mas a postura da Espanha durante a guerra fez com que as pessoas se sentissem muito mais próximas do país”, afirmou um torcedor.
As manifestações de apoio à Palestina vão além do contexto político. O prodígio do Barcelona, Lamine Yamal, hasteou uma bandeira do país na celebração do título do Campeonato Espanhol de 2026.
Além da Espanha, outras seleções participantes da Copa do Mundo também são apoiadoras da causa palestina: Argélia, Jordânia e Egito. Na sexta-feira (3), o técnico da seleção egípcia, Hossam Hassan, dedicou a vitória sobre a Austrália ao povo de Gaza. “Meu coração e minha alma estão com eles”, disse o treinador à imprensa.

Os torcedores palestinos têm se adaptado para acompanhar o torneio mundial. Em entrevista ao podcast The Take, da Al Jazeera, a repórter Maram Humaid compartilhou a euforia vista nas ruas que só uma Copa do Mundo consegue despertar. “Eles estão dando um jeito de torcer vivendo em seus mundos separados, sem internet, energia e itens básicos. Eles não conseguem assistir aos jogos ao vivo, mas baixam e assistem no dia seguinte, depois que toda a comemoração acabou”, relatou.
A realidade do povo de Gaza contrasta com a alegria de um evento como a Copa do Mundo. Atletas e torcedores que utilizam a visibilidade da competição para expressar solidariedade às vítimas dessa guerra reforçam que não existe uma separação entre futebol e política. Enquanto os olhos do mundo se voltam aos Estados Unidos, México e Canadá, há uma população que luta para conquistar o seu território.
Para eles, torcer é um sinal de esperança em meio ao sofrimento. O povo de Gaza também quer ter o direito de sonhar com um futuro no futebol.



