Por João Victor Martins – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

“Toda Copa é política.” A frase costuma incomodar muita gente. Afinal, quantas vezes ouvimos que esporte e política não se misturam?

Mas talvez a pergunta correta seja outra: existe alguma experiência humana completamente separada da política?

A maneira como enxergamos o mundo é atravessada pelas nossas crenças, pelos nossos costumes, pela nossa classe social, pela religião, pelo território onde crescemos e pelos afetos que construímos. Política não é apenas urna, partido ou disputa eleitoral. Política também é pertencimento. É identidade. É a disputa sobre quais histórias serão contadas e quais corpos terão espaço para existir.

Por isso, toda Copa do Mundo é política. Foi assim em 1934, quando a Itália fascista de Benito Mussolini transformou o Mundial em propaganda do regime. Foi assim em 1978, quando a Argentina sediou o torneio sob uma ditadura militar marcada por desaparecimentos e torturas. Foi assim em 2022, no Catar, quando trabalhadores migrantes, direitos humanos e a população LGBTQIAPN+ ocuparam o centro do debate global.

E foi assim no Brasil. A Copa de 2014 talvez tenha sido o exemplo mais próximo da nossa memória coletiva. O país que recebia o maior espetáculo do futebol também atravessava uma crise de representação. As jornadas de 2013 nasceram de uma pauta concreta, liderada por movimentos organizados em defesa do transporte público, mas logo se transformaram em uma arena de disputa política. 

Parte daquela energia coletiva foi absorvida por um discurso antipolítica que tratava partidos, mediações institucionais e a própria democracia representativa como inimigos. Anos depois, muitos analistas identificariam naquele período algumas das sementes da O Mundial não criou os conflitos brasileiros. Apenas iluminou tensões que já existiam.

A Copa de 2026 parece repetir esse movimento em uma escala ainda maior.

Pela primeira vez, três países dividirão a organização do torneio: Estados Unidos, México e Canadá. Mas a maior parte dos jogos acontecerá em território estadunidense. E isso faz com que a política interna dos Estados Unidos atravesse inevitavelmente o evento.

A competição será realizada durante o segundo mandato de Donald Trump. Ao mesmo tempo em que o governo apresenta o Mundial como demonstração de grandeza nacional, endurece políticas migratórias e reforça o discurso de proteção das fronteiras.

A contradição é evidente. Como sediar o maior encontro global do planeta enquanto a política de migração e de entrada ao país está cada vez mais díficil?

Quem consegue atravessar essas fronteiras?Quem encontra obstáculos? Quem é recebido com celebração e quem é visto como ameaça? As respostas para essas perguntas são políticas.

E talvez seja justamente isso que o futebol revele com tanta força. As bandeiras nas arquibancadas não representam apenas seleções. Elas carregam histórias coloniais, disputas territoriais, projetos de nação e diferentes formas de imaginar o futuro.

As músicas cantadas nas ruas são manifestações culturais. Os protestos realizados durante os torneios são atos políticos.

Até mesmo a insistência em afirmar que “não devemos misturar futebol e política” é uma posição política. Ela expressa uma determinada visão sobre o que deve ou não ocupar o espaço público.

O futebol nunca esteve fora da sociedade. A Copa do Mundo é, ao mesmo tempo, celebração e disputa. Festa e conflito. Encontro e divergência. É possível comemorar um gol e questionar desigualdades.É possível vibrar pela seleção e discutir direitos humanos. É possível amar o futebol sem abrir mão da capacidade crítica.

Porque a política não está apenas nos gabinetes. Ela está nas ruas tomadas por torcedores. Nas fronteiras. Nos cantos das arquibancadas. Nas camisetas. Nos silêncios. Nos gestos de acolhimento. Nos discursos de exclusão.

Ela está nas escolhas que fazemos sobre o mundo que queremos construir.Toda Copa foi política. A de 2026 talvez apenas nos obrigue a admitir isso.