Suporte jurídico e psicológico: como projeto oferece suporte a mães solo de todo Brasil
Rede de apoio jurídico e psicológico, a CAUSA acolhe mães solo e fortalece sua luta por direitos e dignidade
No Brasil, cerca de 69% das mulheres têm pelo menos um filho, e 11 milhões dessas mães criam seus filhos sozinhas — uma realidade que chamamos de “maternidade solo”.
Ser uma mãe solo impacta profundamente diversos aspectos da vida dessas mulheres, impondo desafios como a estigmatização, limitações financeiras e uma exaustiva sobrecarga física e emocional. Somado a esses problemas, muitas ainda enfrentam dificuldades para obter apoio jurídico, garantindo que seus filhos tenham acesso a direitos como a pensão alimentícia.
Foi pensando em atender à demanda dessas mães que surgiu “A Grande Causa”, uma iniciativa do Ella que oferece suporte jurídico e psicológico a mães em situação de vulnerabilidade.
O projeto articula uma rede de solidariedade composta por mulheres que se voluntariam para compartilhar conhecimentos e serviços, tornando-se pilares essenciais na assistência a mães em situação de vulnerabilidade.
Para entender melhor como essa rede de apoio atua na prática, o Mídia Ninja conversou com a psicóloga Patrícia Goes e com a advogada e gestora da Causa, Danielle Zulques.

MN — O que é o Projeto Causa e como funciona?
Danielle Zulques — A CAUSA é uma rede de apoio jurídico e psicológico voltada para mães em situação de vulnerabilidade, mas definir o projeto apenas tecnicamente reduz muito o que ele representa. A Causa nasce de uma percepção muito dura: a de que o Estado falha com as mães o tempo inteiro. Então, o projeto cria algo que deveria ser básico, mas que infelizmente ainda é raro no Brasil: acolhimento, orientação e escuta sem julgamento. E existe algo muito importante nisso, porque, quando mulheres criam redes para proteger outras mulheres, elas estão enfrentando uma estrutura inteira construída historicamente sobre a exploração do cuidado feminino.
Patrícia Goes — Funcionamos com etapas bem organizadas e com base na necessidade de cada uma, para garantir o melhor acolhimento. As psicólogas de referência fazem o primeiro contato, a anamnese e a classificação de risco para definir a prioridade no atendimento. Depois disso, encaminham para as psicólogas de atendimento breve. Porém, quando necessário, as psicólogas de referência atendem pelo que chamamos de plantão psicológico, oferecendo todo o apoio às mães em situação de urgência na saúde mental.
MN — O que te motivou a fazer parte da CAUSA?
Danielle Zulques — Eu estava cansada de ver mães sendo deixadas sozinhas. A gente vive em um país que exige que mulheres sustentem emocionalmente famílias inteiras, mas oferece pouquíssima estrutura para que elas sobrevivam com dignidade. Muitas mães enfrentam violência, abandono financeiro, adoecimento psicológico, jornadas exaustivas e ainda precisam provar o tempo todo que merecem ajuda.
Quando conheci a CAUSA, entendi imediatamente a potência política daquele projeto, porque se trata de romper o isolamento das mulheres. Existe uma frase que me atravessa muito: a maternidade não deveria ser um lugar de abandono. E, infelizmente, para muitas mulheres, é.
Então, participar da CAUSA também é uma forma de militância. É dizer que mães não podem continuar sendo invisibilizadas enquanto sustentam, silenciosamente, a sociedade inteira.
Patrícia Goes: Venho de participações em vários projetos sociais na região Norte, seja pela academia, em projetos de extensão, ou por iniciativas voluntárias. A partir desse contexto, vejo a necessidade de projetos e profissionais que compreendam a dinâmica social, suas modificações, singularidades, peculiaridades territoriais e vulnerabilidades. Assim que vi o chamado no ELLA, resolvi me inscrever para contribuir com minha experiência e também aprender com a troca de conhecimento entre profissionais, mães e toda a rede ELLA.
MN — Como é a experiência de lidar com as questões que chegam na CAUSA?
Danielle Zulques: Admito que, às vezes, é algo muito desafiador, porque você começa a perceber que muitas mulheres chegam completamente destruídas emocionalmente, não apenas pelo problema jurídico em si, mas pela solidão.
O que mais me marca não é só a violência explícita, mas o desgaste silencioso. Perceber mães tentando sobreviver enquanto carregam filhos, contas, medo, culpa, abandono afetivo e exaustão mental ao mesmo tempo. Trabalhar na CAUSA me fez perceber ainda mais como a maternidade continua profundamente atravessada pela desigualdade de gênero. E acho que isso me transformou bastante.
Patrícia Goes: A experiência de trabalhar na gestão é muito gratificante. Organizar a dinâmica de atendimento das psicólogas e das mães, pensar nas estratégias, criar as ferramentas certas e oferecer suporte é fundamental para que haja fluidez em um atendimento humanizado.
MN — Tem algum caso que foi mais marcante?
Danielle Zulques: Muitos. E o que mais me marca, normalmente, não são os detalhes jurídicos, até porque existe sigilo e cuidado com essas histórias, por isso não posso falar muito além disso. Então vou aproveitar a pergunta para insistir que o que, de fato, me atravessa é perceber o nível de esgotamento dessas mulheres.
Mulheres que passaram anos sendo desacreditadas, manipuladas, abandonadas ou emocionalmente destruídas, enquanto continuavam funcionando porque tinham filhos para cuidar. Isso mexe profundamente comigo porque eu também sou mãe. Porque eu sei o quanto a maternidade exige emocionalmente, até nos contextos mais privilegiados, como o meu. Então imaginar mulheres vivendo tudo isso completamente sozinhas e sem privilégios é devastador.
MN — Para você, o que significa ser uma mãe ajudando outras mães?
Danielle Zulques: Significa transformar a dor individual em consciência coletiva.
A sociedade ensinou mulheres a competirem entre si, a se julgarem o tempo inteiro e a carregarem culpa por absolutamente tudo. Então, quando mães se unem para apoiar outras mães, as coisas tendem a ficar mais leves.
A maternidade não pode continuar sendo um mecanismo de adoecimento feminino naturalizado como amor. Ser mãe me fez entender que cuidar de outras mulheres também é proteger a minha filha. É lutar para que a minha Nina cresça em um mundo onde mulheres não precisem implorar por dignidade, proteção ou escuta.
A CAUSA já atendeu cerca de 122 mães e, neste ano, lançou sua terceira convocatória para advogadas e psicólogas que queiram se somar à iniciativa e fortalecer essa missão de transformar a invisibilidade da maternidade solo em um exercício concreto de direitos.



