Quando símbolos nacionais passaram a integrar estratégias eleitorais?
Compreenda a incorporação dos símbolos nacionais nas dinâmicas de disputa política
Por Nathalin Gorska – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Nas últimas décadas, símbolos historicamente associados à identidade nacional passaram a ganhar protagonismo em campanhas eleitorais ao redor do mundo.
Embora o uso de elementos patrióticos na política não seja novidade, a intensidade com que bandeiras e uniformes esportivos passaram a ser incorporados por lideranças políticas levanta um debate cada vez mais presente: em que momento símbolos criados para representar uma nação foram associados a grupos, partidos ou ideologias específicas?
No Brasil, esse fenômeno ganhou força a partir da década de 2010. Durante manifestações políticas e campanhas eleitorais, a bandeira nacional e a camisa amarela da Seleção Brasileira passaram a ocupar posição central em atos públicos. O processo atingiu seu auge durante a ascensão política do ex-presidente Jair Bolsonaro, quando as cores verde e amarela se consolidaram como elementos visuais de apoiadores e movimentos alinhados à direita.
O fenômeno, entretanto, está longe de ser exclusivamente brasileiro. Em diferentes partes do mundo, símbolos nacionais têm sido utilizados como ferramentas de identificação política, associados ao patriotismo e à defesa de “valores”.
Na Colômbia, por exemplo, o debate ganhou novos contornos em 2026. O candidato presidencial de ultradireita Abelardo de la Espriella foi proibido de utilizar a camisa da Seleção Colombiana de Futebol como símbolo de sua campanha política. A decisão ocorreu após questionamentos de adversários, que acusaram o candidato de se apropriar de um símbolo nacional que deveria representar toda a população colombiana.
Nos Estados Unidos, a bandeira norte-americana ocupa há décadas um papel central em campanhas eleitorais, especialmente entre setores conservadores. Na Europa, movimentos nacionalistas frequentemente utilizam símbolos patrióticos para reforçar discursos ligados à identidade nacional. Na América Latina, bandeiras, uniformes esportivos e cores nacionais tornaram-se elementos recorrentes em manifestações políticas de diferentes orientações ideológicas.
Especialistas apontam que o fenômeno está relacionado à força emocional desses símbolos. Diferentemente de propostas de governo ou programas partidários, bandeiras e camisas despertam sentimentos de pertencimento e identidade nacional. Ao incorporá-los ao discurso político, candidatos buscam estabelecer uma conexão imediata com o eleitorado.
No entanto, a estratégia também gera controvérsias. Críticos argumentam que a associação constante entre símbolos nacionais e determinados grupos políticos pode provocar um sentimento de exclusão entre cidadãos que não compartilham das mesmas posições ideológicas.
É justamente essa transformação que especialistas buscam compreender. Afinal, quais são os impactos dessa mudança para a democracia, para o esporte e para a ideia de identidade nacional?
Para responder a essas questões, o NINJA Esporte Clube conversou com Giovanna Barbosa, de 23 anos, estudante e torcedora da Seleção Brasileira. Ela falou sobre sua relação com a camisa verde e amarela: “Não me sinto confortável de usar no dia a dia, pensei em comprar outras cores além da amarela, mas prefiro esperar até que esse símbolo seja ressignificado.”
Giovanna também afirma esperar que, um dia, os torcedores possam voltar a usar as camisas de suas seleções sem que elas sejam associadas a partidos políticos.
O NEC também conversou com a psicóloga Gabriela Felix, de 23 anos, especializada em psicanálise clínica. Para ela, é possível traçar um paralelo entre a associação do verde e amarelo aos movimentos políticos de direita e a análise feita por Freud em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921) sobre o comportamento dos indivíduos quando inseridos em grupos.
“Em protestos realizados nos últimos anos, usaram a camisa da seleção como denominador em comum do grupo, que age de forma diferente do habitual quando reunido. Para aqueles que não fazem parte de tal ideologia, fatores em comum dessa comunidade acabam se tornando referência. No caso da camisa brasileira, por ter se tornado o símbolo adotado pelos eleitores de direita, as pessoas que possuem opiniões políticas diferentes reagem com estranhamento a ela por conta dessa associação, mesmo que em lugares e momentos que não referenciem a ideologia política, como agora na Copa do Mundo de futebol,” afirma.
É importante pontuar que esse tipo de associação pode ocorrer tanto com ideologias de direita quanto de esquerda. Segundo Gabriela, “associamos inconscientemente os símbolos ao que mais gerou impacto, seja este positivo ou negativo”, finaliza.
*Com informações de G1 e ‘Psicologia das Massas e Análise do Eu’ (1921) e Imagem de Raphael Cezario



